sábado, junho 07, 2025

Jazz da alma

A noite é o cenário onde vagam meus olhos.

Meus passos sós ecoam pensamentos compassados.

Caminho sob o ritmo da batida seca do sapato sobre o asfalto, de onde emana o brilho artificial das luzes dos postes e faróis dos carros, contraste com o negro noturno: cor sobre a pálida solidão.

De longe, sopra uma brisa suave em meu rosto, trazendo consigo uma melodia distante, introdução à partitura, do trompete chorando no vazio da noite.

O toque intimista me chama a encontrá-lo na próxima esquina.

O homem e seu instrumento — um só ser.

Do objeto içado ao toque dos lábios brota a harmonia do fôlego humano: sopro criativo, improviso sobre essa realidade forjada que sufoca.

Sigo o som harmônico e rítmico da liberdade inventiva, desligando-me dos grilhões coletivos, conectando-me à melodia íntima da improvisação: espontânea, única e irrepetível — própria de um homem humano.

Deixo ir e tocar o jazz da alma que performa na noite, na solitude.

Conduzo e me deixo conduzir pelo fluxo musical deste ato da vida.

sexta-feira, junho 06, 2025

Revolução Silenciosa

O movimento mais revolucionário que uma pessoa pode empreender é a transformação do seu cenário interno. Mais do que levantar bandeiras e defender grandes causas externas, é o ato de olhar-se no espelho à procura de sua própria verdade, mover-se rumo a si mesmo, em busca de solo fértil, de seu espelho d'água, isento da contaminação externa que borbulha em caminhos equivocados e herdados, ávidos por nada.
Esse avanço desbravador pelas próprias terras demanda a coragem de confrontar narrativas impostas, sempre firmadas sobre os mesmos papéis: oprimido e opressor, vítima e algoz, num eterno dualismo em que forças opostas se anulam mutuamente. Esse olhar, que se projeta para fora, mergulha na ilusão de uma solução que está sempre além, distante, afastada da realidade última: nós mesmos.

O Vício da Possibilidade

O inconsciente não desperta fantasmas inúteis. As figuras que aparecem em sonhos e devaneios trazem mensagens do nosso interior, que precisa ser explorado repetidamente.
Padrões repetitivos não devem ser subestimados: são as paredes do labirinto, onde está codificada a chave que ativa nosso Self, libertando-nos das amarras da mente. A individuação acontece quando paramos de lutar contra os fantasmas e começamos a dialogar com os símbolos que eles representam.
No centro do labirinto está o Self — o núcleo da totalidade psíquica — e o caminho, embora pareça nos fazer perder, na verdade nos ensina a nos encontrar.
O labirinto não é só um espaço, mas um processo. Cada volta aparentemente inútil é um avanço na espiral da individuação. A chave está na parede, que é interna. A mente, com suas crenças, medos e narrativas fixas, se transforma ao ser decifrada.
Aqui, o observador é também o observado. Ao perceber seus próprios ciclos, a realidade muda. A estagnação dá lugar à observação ativa de si, alterando a consciência.
Esse movimento gera desconforto pelo tempo “perdido” na estagnação, provocando culpa, medo e autopunição. Mas o atraso só existe na realidade que criamos, onde corremos atrás de possibilidades que nos paralisam, com medo de falhar.
O medo de escolher errado nos mantém suspensos, viciados no desejo idealizado que nunca se realiza, pois, ao concretizá-lo, o ideal se desfaz.
Nos sonhos, a presença de outras pessoas serve apenas para materializar a mensagem do inconsciente. Nossa mente, ancorada na materialidade, precisa de imagens e arquétipos para acessar conteúdos inconscientes. Sem imagem, não há ponte entre inconsciente e consciência.
O nó que bloqueia o movimento está entre o desejo de integrar e o medo de falhar. O impasse paralisa.
O medo quer me manter esperando, buscando a ação “correta”, e evita que eu me arrisque, como se a possibilidade fosse mais valiosa que a realidade. Dentro da ação, o resultado é irreversível; se for um erro, não haverá mais chance de acerto. O medo protege da falta de garantia.
É preciso romper com o vício da possibilidade e aceitar que não existe ação perfeita ou garantida — apenas aquela que se escolhe conscientemente, assumindo o risco inerente à vida.
O que eu quero não é a perfeição do possível, mas a imperfeição do real.
Tudo que se repete — erro, medo, demora, autossabotagem — é um código simbólico que, ao ser decifrado, aponta a saída. O padrão é prisão e mapa ao mesmo tempo. Não se trata de evitá-lo, mas de compreendê-lo: cada repetição é um chamado para expandir a consciência e sair do automático.

quinta-feira, junho 05, 2025

Pessoa

Fernando Pessoa: suas palavras desnudam-lhe a alma diante de nossos olhos e nos encantam e deslumbram com a beleza de sua forma, ao mesmo tempo profunda e intangível, mas acessível ao nosso coração. Não me canso de admirá-lo.

Red Flags: O Perigo que nos habita

Vivemos tempos em que a atenção aos sinais de perigo se tornou quase uma exigência cotidiana. "Red flags" se tornaram parte do nosso vocabulário emocional, como se a vigilância constante fosse a única maneira de evitar a dor. Mas será que, ao focarmos tanto no que pode nos ferir, não esquecemos de olhar para aquilo que, silenciosamente, também nos habita?

Atualmente, fala-se tanto na importância de estar atento às ameaças externas, aos perigos que o outro representa em relação a nós mesmos, buscando nos proteger. Mas, afinal, de que queremos proteção?
De abuso, invasão do espaço íntimo, decepção, desilusão?

Aprendemos a erguer barreiras, mas será que também aprendemos a nos aproximar? Me parece que não...

É preciso prestar atenção às “red flags” de si mesmo. Nosso olhar está sempre voltado para os sinais que enxergamos no outro, mas raramente olhamos para os nossos próprios sinais de alerta. O problema está sempre lá fora, mas será que ele também não habita dentro de nós, justamente porque vivemos focados nele?

Realizamos a tarefa de conservar nossa essência e verdade interior a todo custo — mas… a que custo?

Essa reflexão parte de uma série de fracassos que vivi ao me impor meias verdades. Tentativas de me proteger ou de me adequar, que, no fim, apenas me afastaram de mim mesma e das relações que poderiam ter sido mais autênticas.

Talvez o maior risco não esteja apenas no outro, mas na nossa dificuldade de reconhecer os sinais que emanam de nós mesmos. O perigo que nos habita é, muitas vezes, aquele que mais negligenciamos e, é ele quem mais nos afasta da possibilidade de encontros genuínos.

quarta-feira, junho 04, 2025

Eterna Estrangeira

Os trechos da vida que me tocam
são os que mais falam de mim —
uma beleza desconhecida,
oculta nos bastidores do que posso ver.

O desejo revela
mais sobre mim
do que sobre o objeto,
alvo longínquo.

Um amor que só se permite à distância,
não se deixa aproximar ou tocar,
por medo de macular o que é puro,
como se, para salvá-lo,
eu precisasse conservá-lo
sem uso —
amor platônico, inútil.

Essa minha parte desencaixada,
imune às exigências do mundo,
é meu cerne, meu núcleo.
E eu a odiei —
desprezei minha própria essência
para me moldar onde nunca coube.

No esforço de seguir
sem engolir de todo a narrativa
imposta pelo coletivo,
fracassei duplamente:
entre me moldar
e me aceitar.

Estou presa nesse cabo de guerra,
nessa disputa sem fim
entre opostos
que não concordam.

Sigo estrangeira —
em meu próprio mundo,
em que minha alma não se molda
e meu corpo não se encaixa.

Nessa eterna não-pertença
mora a semente
que, sem rega, jamais brota:
o singular que sou,
que clama por viver segundo minha própria medida.

O que me desconcerta e me tira o fôlego
pertence ao espaço não integrado de mim —
a identidade que escapa,
beleza estrangeira
que sinto não me pertencer.

Não mora lá fora,
pulsa dentro,
no aguardo de conexão.

É minha, mas parece outra —
de outro lugar,
outra vida —
em um estranhamento de si,
idioma incompreensível,
imbuída de símbolos e mistérios
indecifráveis.

Cá estou,
presa entre dois mundos.

terça-feira, junho 03, 2025

Transfiguração

Visto-me daquilo que me assombra,
acreditando que, assim, estarei a salvo do predador que afirmo ser.


Estou acuado,
à procura de salvação,


sem em nada encontrar amparo
além de mim, tão fraco.


Visto-me de algoz,
me apresento invencível.


Torno-me o veneno que me dão de beber,
para evitar a morte,


para evitar a queda.
Afirmo ser tudo aquilo que me ameaça,


me torno as sombras que me seguem
e me asseguram.


Sou eu mesmo:
meu objeto de medo e repulsa.


Estou como um cão que persegue o próprio rabo,
sem nunca alcançá-lo.


Na ilusão de controle,
abandono, por completo, quem sou —


e me entrego, rendido,
ao que fiz de mim.