Os trechos da vida que me tocam
são os que mais falam de mim —
uma beleza desconhecida,
oculta nos bastidores do que posso ver.
O desejo revela
mais sobre mim
do que sobre o objeto,
alvo longínquo.
Um amor que só se permite à distância,
não se deixa aproximar ou tocar,
por medo de macular o que é puro,
como se, para salvá-lo,
eu precisasse conservá-lo
sem uso —
amor platônico, inútil.
Essa minha parte desencaixada,
imune às exigências do mundo,
é meu cerne, meu núcleo.
E eu a odiei —
desprezei minha própria essência
para me moldar onde nunca coube.
No esforço de seguir
sem engolir de todo a narrativa
imposta pelo coletivo,
fracassei duplamente:
entre me moldar
e me aceitar.
Estou presa nesse cabo de guerra,
nessa disputa sem fim
entre opostos
que não concordam.
Sigo estrangeira —
em meu próprio mundo,
em que minha alma não se molda
e meu corpo não se encaixa.
Nessa eterna não-pertença
mora a semente
que, sem rega, jamais brota:
o singular que sou,
que clama por viver segundo minha própria medida.
O que me desconcerta e me tira o fôlego
pertence ao espaço não integrado de mim —
a identidade que escapa,
beleza estrangeira
que sinto não me pertencer.
Não mora lá fora,
pulsa dentro,
no aguardo de conexão.
É minha, mas parece outra —
de outro lugar,
outra vida —
em um estranhamento de si,
idioma incompreensível,
imbuída de símbolos e mistérios
indecifráveis.
Cá estou,
presa entre dois mundos.