quarta-feira, maio 28, 2025

Saberes à Prova de Fogo

Livros banidos pelo fogo lamentam sob o trepidar das chamas da ignorância.
Saberes servidos à mesa errada podem desandar.
Paladares imaturos não apreciam sabores exóticos.

Resistências que nos impuseram bloqueios
minaram o acesso a fontes autênticas
e nos deixaram à míngua,
conduzindo-nos à fome.

Aos pequenos que queimaram obras grandes: pobres almas, jogadas à miséria.
Volta e meia, cessa a combustão de um homem que se verga ao chão das ilusões.

Atear fogo sobre palavras impressas não apaga o sopro criador.

As ideias sobem do solo ao céu,
em uma fumaça espessa que se dissipa no tempo, através das eras,
com odor carregado de matéria orgânica, bruta, vital.

Cedo ou tarde, o saber renasce das cinzas.

terça-feira, maio 27, 2025

A mordida do transcendente

O transcendente me habita como quem morde,
quebrando com firmeza o que me paralisa.
Rasga véus, desfaz nós,
rompe bloqueios
que, silenciosos, me impedem de seguir.
 
Sussurra:
— Cuidado com o excesso,
não te firas ao tentar ferir o que te prende.
A mordida precisa ser precisa, justa, necessária.
 
E então, após o estalo do que se quebra,
vem o alívio, e a fome revelada.
 
— Do que te alimentas agora?
— O que te nutre, após romper as cascas e os elos?
 
Aprendo que a força não é apenas a de romper,
mas, sobretudo, a de ensinar a escolher o alimento certo,
a nutrir minha essência com aquilo que me sustenta e me faz crescer.
 
O transcendente me move:
da ruptura ao cuidado,
da dureza à suavidade,
da fome à sabedoria.
 
Me sacio na oferta de luz à consciência.
 

segunda-feira, maio 26, 2025

Dom da quietude

Nasci com o dom do silêncio,
de ouvir o mundo calar.
À volta, tudo rui em pressa,
em mim, o sopro em suspensão.

Meus olhos veem por dentro,
meus passos sabem parar.
No lombo, quietude;
no coração, mansidão.

Mas não te enganes com minha calma,
que carrega o dente da precisão
para mover montanhas —
calar padrões.

Mordo para cortar o nó,
desfazer laços invisíveis.
Minha voz é lâmina:
seu corte não fere,
liberta.

Sou a pausa antes do salto,
a pedra precisa do rio.
Meu silêncio não se omite —
emite fala autêntica,
livre de artifícios.

Meu dom é ver a verdade,
mesmo que ninguém queira ver.
E com firmeza e ternura,
abrir caminho pra alma passar.

O poço

A poesia me atravessa como quem volta para casa.
Entendo: a mágica das palavras não é me levar para longe,
mas me devolver ao centro, ao calor do pertencimento,
ao lugar onde todos os sonhos se assentam; neles, e deles, faço parte.
E, ao emergir do poço, com o balde cheio,
volto à rua, ao dia,
sabendo que a poesia me ensinou a não negar o vazio,
mas a habitá-lo, com ternura e espanto.

domingo, maio 25, 2025

Máscaras

Quanto de mim sou eu mesma, senão as mil máscaras com as quais me apresento?

Silêncio Intrauterino

Quando me recolho ao escuro, no silêncio intrauterino da gestação de mim mesma, sinto-me abafada pela angústia — diante do mundo que, lá fora, me aguarda — não de braços abertos.

Prestes a me soterrar, a umidade e o calor desse forno criatório me cozinham por dentro — somos todos almas paridas nesta vida de lida, assadas lentamente no ventre da existência.

As vozes... de quem são as vozes que ouço a tratar-me como mercadoria? Ora, se não são elas as mesmas que, de mim, ouço emanar.

Entre assaltos e sobressaltos, tropeço vida afora.
Entre saltos, bate o coração que banho no aço da espada.

Meu diafragma, desordenado, perde-se no caos da respiração acelerada, entrecortada, rachada pelo machado do medo.
Meus olhos, à procura da ameaça que espreita, olham atravessados — trespassados pelas setas do ambiente.

Os nervos, rijos, vibram como fios de alta tensão, à beira do curto.
Na iminência da eclosão, aquieto-me.

O falso só existe porque existe o verdadeiro.
O desamor só existe porque existe o amor.
A escassez se opõe à abundância.
Cada estado revela a presença de seu oposto.

Posso, então, repousar em paz diante do fato de que, para todo mal, há também o bem — sempre.
Portanto, a beleza não se perdeu, o amor não se acabou, a alma não se desvaneceu — apenas se recolheu diante do horror que se alastrou.
Toda ruína provém de um reinado.

sábado, maio 24, 2025

Ler e Ser Lida

Os olhos correm por sobre as linhas desenhadas em palavras.
Detenho-me sobre um trecho que me toca o coração.
Desvio-me para o além.
Pouso brevemente o livro sobre o peito.
Fecho os olhos,
trazendo o sentimento do fundo à superfície.
Num suspiro profundo,
esboço um leve sorriso, acolhendo a sensação
de ler e ser lida nas páginas de alguém
que, como eu, pisou os pés sobre areias movediças.
Eu sou ele, e ele sou eu: um espelho, portal de conjunção,
encontro atemporal.