terça-feira, maio 13, 2025

Quem de mim sou eu mesma?

Sou um constructo coletivo de mim,
mergulhada no todo de tudo.
As bases sobre as quais construí minha casa estão ruindo.
As paredes já não têm clareza;
os canos condutores de sentido estão obstruídos por crenças ultrapassadas;
as vidraças, manchadas de normas e regras inúteis, deixam a luz entrar de forma difusa.

Há poeira das massas nos móveis, já desgastados.
O ruído das multidões ecoa nos cômodos fechados.
O piso sob meus pés há muito perdeu o viço.
As emoções tornaram-se opacas,
o riso, borrado,
o olhar, distante — a mil léguas do espelho.

Os rostos enrijeceram.
Os passos rangem sobre a madeira sem vida.
Os quadros estão vazios de narrativas.
O tempo das coisas esfriou.
A solidez se impôs ao movimento alegre dos dias.
O coração palpita em sobressaltos de medo e receio.
O fogo das novidades arrefeceu, extinguiu-se.
Daqui, nada mais se espera. Nenhuma visita.
Ilusão infinita.

A teia que nos envolve é apenas a das aranhas,
que tecem, dia e noite, o abandono em torno das coisas.
Ergueram-se muros.
Trancaram-se portas.
Protegidos do mundo,
vulneráveis de si mesmos.

Nossos jardins oferecem um paisagismo alheio.
Parece-me que somente as árvores carregam a seiva da vida,
enquanto nós, apenas a distância —
num falar calado de verdades.

Lá no fundo, a água está limpa.
O poço é seguro.
Mas ninguém o acessa.

 

domingo, maio 11, 2025

Na Cauda do Tigre

Ao transpor o limiar, sou envolvida pela vastidão da escuridão primordial que se estende por um território inominável. A princípio, tudo me parece árido e hostil, mas, à medida que avanço, sinto o cheiro de terra fértil, molhada de chuva.

Não há bússola, nem constelações visíveis. Nenhum mapa pode guiar por esse espaço de dentro. Aqui, é preciso render-se a uma força invisível, ancestral e implacável — uma presença silenciosa e insondável que me conduz.

Em prece muda, invoco um poder psíquico do fundo do poço interior — e ele vem: uma sombra indivisa em mil fragmentos. Era um campo minado, cuja travessia exigia cuidado e respeito, como a marcha de um soldado em formação, num ritmo sincronizado e coeso.

Aqui, aconselha-se agir com cautela, como quem pisa na cauda de um tigre. A prudência é a única armadura possível diante dos titãs, para não ser engolida de uma vez pela própria fera ou perder-se no oceano abissal do inconsciente.

O poder interior suplanta o exterior; o núcleo se sobrepõe à superfície; o inconsciente supera o consciente — um vilarejo não pode guerrear com um império.

A mim cabe a reverência ao fogo sagrado da criação, onde qualquer faísca pode ser o gatilho que inflama a chama e se alastra pela plantação.

sexta-feira, maio 09, 2025

Penumbra

Quando me quebro, formam-se trincas, frestas e rasgos, por onde passa a luz que revela as sombras internas e gera um espaço lúgubre na penumbra da consciência.
Cria-se um cenário que, a princípio, parece desconfortável e desconhecido, envolto em uma aura de mistério, mesclando sentimentos de receio e curiosidade — este é o movimento de cortejo do inconsciente ao consciente.
Ele diz: Você chegou a um portal. Pode entrar.
Meus passos permanecem incertos; a mente fica à soleira, num prelúdio da obra que se inicia. Vacilo, mas sigo o brilho sereno do caminho. Minha presença se torna anímica.


Sob memória

Os que escolheram o esquecimento,
que se reconheceram na trama geral,
abraçaram seu papel além do campo de guerra,
além do céu e da terra.
Permanecem firmes no posto inalcançável à memória,
livres do peso das lembranças corrompidas.

quarta-feira, maio 07, 2025

Inteligência


Não se deve confundir raciocínio lógico com inteligência. O primeiro está na superfície, enquanto o segundo demanda profundidade. Inteligência vai muito além de conhecimento acumulado, aplicação de fórmulas, leitura de mapas e manuais. Ela provém de um saber interno que absorve, questiona e reflete, em um movimento fluido, daqueles que se permitem não apenas racionalizar, mas verdadeiramente sentir, aplicar e interiorizar o aprendizado por meio da experiência viva.


terça-feira, maio 06, 2025

O fantasma das massas

Nosso zeitgeist (espírito do tempo) tornou-se o fantasma das massas, movendo as cordas do ventríloquo que cada um se sujeitou a ser. Ao se submeter ao papel designado pela coletividade, o indivíduo abre mão do espírito da profundidade: vira as costas para o cerne de seu ser e fica à mercê da oscilação do pêndulo que sobe e desce conforme os ditames da sociedade.

Roteiros e ruínas

A transparência deu lugar ao transparecer — prefere-se parecer a ser.
Trocou-se o espelho pela tela, que oferece uma fantasia ao público.
No espelho, vejo-me como sou; na tela, projeto-me como quero parecer.
Todos à volta fazem o mesmo, na caverna de Platão.
Só enxergamos sombras projetadas na parede.
Visto minha indumentária, você a sua — atuamos uns para os outros, na expectativa dos aplausos.
Neste teatro de marionetes, quem escolhe o meu papel? 
Quem escreve o meu roteiro?
A que plateia me dirijo, quando estou nos bastidores, entre um ato e outro?
Protagonizamos, no tempo e no espaço, dramas infinitos, efêmeros, desprovidos de sentido — para, no final, tornarmo-nos apenas mais um fracasso entre tantos outros.