Não se deve confundir raciocínio
lógico com inteligência. O primeiro está na superfície, enquanto o segundo
demanda profundidade. Inteligência vai muito além de conhecimento acumulado,
aplicação de fórmulas, leitura de mapas e manuais. Ela provém de um saber
interno que absorve, questiona e reflete, em um movimento fluido, daqueles que
se permitem não apenas racionalizar, mas verdadeiramente sentir, aplicar e
interiorizar o aprendizado por meio da experiência viva.
quarta-feira, maio 07, 2025
Inteligência
terça-feira, maio 06, 2025
O fantasma das massas
Nosso zeitgeist (espírito do tempo) tornou-se o fantasma das massas, movendo as cordas do ventríloquo que cada um se sujeitou a ser. Ao se submeter ao papel designado pela coletividade, o indivíduo abre mão do espírito da profundidade: vira as costas para o cerne de seu ser e fica à mercê da oscilação do pêndulo que sobe e desce conforme os ditames da sociedade.
Roteiros e ruínas
A transparência deu lugar ao transparecer — prefere-se
parecer a ser.
Trocou-se o espelho pela tela, que oferece uma fantasia ao público.
No espelho, vejo-me como sou; na tela, projeto-me como quero parecer.
Todos à volta fazem o mesmo, na caverna de Platão.
Só enxergamos sombras projetadas na parede.
Visto minha indumentária, você a sua — atuamos uns para os outros, na
expectativa dos aplausos.
Neste teatro de marionetes, quem escolhe o meu papel?
Quem escreve o meu
roteiro?
A que plateia me dirijo, quando estou nos bastidores, entre um ato e outro?
Protagonizamos, no tempo e no espaço, dramas infinitos, efêmeros, desprovidos
de sentido — para, no final, tornarmo-nos apenas mais um fracasso entre tantos
outros.
segunda-feira, maio 05, 2025
O silêncio da origem
Quando tudo começou,
foi preciso ficar em silêncio.
A vida, em ameaça de morte,
se escondia em cada célula
que se dividia em alerta,
multiplicando o medo e a esperança.
A estrutura do DNA —
frágil, sonhada — temia ruir
antes mesmo de estar pronta.
O castelo temia ruir,
ser invadido, exterminado,
a qualquer momento.
Mas o tempo passou.
O destino se cumpriu.
A vida prosperou:
deu à luz,
brotou.
Assim foi o início.
A jornada começou —
entre passos e tropeços,
lágrimas e sorrisos —,
e o mundo se desnudou
diante de olhos estreitos,
curiosos.
Verdades se revelaram,
caminhos se abriram,
desvios aconteceram,
retornos se deram.
Toda luz, toda expansão,
guiadas pela sede de saber,
trouxeram o caminho de volta:
para dentro.
Para o silêncio.
Para o vazio.
Desconhecido.
Escuro.
Presença de nada,
além de si mesma.
Somente o som da respiração,
o pulsar do coração —
como quem bate um tambor.
E então,
escapou uma faísca.
Acendeu-se uma lanterna
na vastidão imensa
desse universo
infinito
por explorar.
domingo, maio 04, 2025
O cântico das oposições
Meu mundo interno
é permeado por antagonismos —
espaços vazios e silenciosos,
terrenos povoados e barulhentos.
Não é feito apenas
de santuários pacíficos,
perfumados de incenso;
há também o cheiro do sangue pisado,
porque caminho
sobre minhas próprias feridas.
A busca sincera
atravessa o contraste —
não a harmonia forçada.
Os gritos que ecoam de dentro
não podem ser abafados
em nome de um equilíbrio
moldado por uma falsa paz interior.
Aqui há paz
e há guerra.
Luz e sombra.
Choro e riso.
Grito e sussurro.
O cântico das oposições
vive aqui.
Minhas palavras
são um caldeirão
onde fervem dores e amores,
sombras e luz.
Ali, o coração
cozinha as vivências,
transformando-as em alimento —
que nutre,
serve
e revela:
a mim,
e a quem desejar
desfrutar deste banquete.
quinta-feira, maio 01, 2025
Diálogo entre oceanos
Cá estamos nós dois, permitindo-nos navegar em devaneios no mar um do outro. Nossos pensamentos emergem, emanados do mais profundo oceano abissal das emoções. Nossas vozes se traduzem em palavras na superfície das águas, e as deixamos vagar livres, leves e soltas, até que encontrem, em nossas margens, um porto seguro onde possam atracar os nossos sentimentos.
Soberania interna
Para você, que não cedeu às vozes de fora,
às falsas autoridades.
Quem não precisa ser forte — o quanto baste —
para suportar o fato de ser vulnerável e humano?
Você não quer um trono. Quer abrigo.
O prazer virá —
quando desejar sem medo
e receber sem defesas.
Equilíbrio não é rígido, é fluido —
como a água que passa de um cálice ao outro.
Não force.
Não corra.
Não recue.
Apenas permaneça.
Misture o que parecia oposto.
E espere o vinho se formar.
Você não está quebrado — está em processo.
Você não está perdido — está partindo.
Você não está sozinho — está se encontrando.
Deixe de ser juiz ou salvador.
Torne-se soberano.
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