domingo, agosto 24, 2008

Éder

Correu como um louco até o jardim, o canteiro de flores de cores mui vivas e odores mui fortes, contrastavam com o que se passava por dentro. Seria preciso intervir, sim, pois, ele precisava estender para fora a solidez que se pesava no interior.
O ímpeto lhe imputava gestos dramáticos afogados no caos. Arrancou todas elas, nas mãos suas cores amassadas, misturadas e os cheiros achatados, vexados.
Suplício! Não suportou a beleza, não naquele momento.
Suava e o cheiro era forte, chorava e o gosto era amargo.
A terra, foi só o que sobrou, nela deitou-se o cadáver, nela roçou a matéria e forrou-lhe de inércia.
Os dedos das mãos esticados, tais como dentes de arado, cravaram o solo e ali ficaram tal qual ferramenta desamparada de braço ceifeiro.
Os vermes roíam-lhe as unhas, expelindo excrementos da terra.
Despia-se de calor e conforto e os olhos mais nuvens que brilho, jorravam meias – verdades.
Da boca, fenda aberta, cavidade errática, escorria saliva espumosa.
Ahhhh Éder quão ébrio tu és, já intolerante diante do espelho, vai-se de encontro ao martelo opressor.
Ahhhh chegara ao cume, estava imune à paz patológica.
As moscas em ti voam leves no ouvido zumbindo asco e desprezo.
Estendido na terra, tormento de dor!
A moral decomposta exalava odor nauseabundo.
Sensações espasmódicas refreavam as emanações cerebrais.
Sua memória era como um fleche desagradável que lhe fazia fechar os olhos involuntariamente, desaparecia, se desvanecia.
Levantou-se enojado, fartado de si.


quinta-feira, agosto 21, 2008

O Rio de Sangue

Corre um rio no jardim das profecias,
Um rio de águas turvas, nervosas, revoltas.
Um rio retesado, no limite, temperamental.
Veio extenuado. Minguado.
Veia rasgada,
Lama escarpada,
Artéria exaurida.

Penetra as verdes pradarias,
Goteja, perene, teu sangue à revelia.
Fio marginal.
Curso retrátil — ainda caudaloso.
Líquido viscoso, venenoso.
Nocivo, repulsivo.

Um rio assombrado pelas almas,
Assoreado pelos corpos,
Assolado, desolado pela dor.

O rio se reflete, se sorve,
Regurgita desespero e ânsia.
Revolve o pesar, a tristeza, o tormento.
Ressente-se de tuas águas. De teu plasma. De teu sumo.


quarta-feira, agosto 20, 2008

Paciência

Rei no topo.
Base do baralho.
Dama no rei.
Valete na dama.
Figuras em jogo.
Cartadas futuras.
Sorte em apostas.

O jogo, com o tempo, deslancha — ou se estagna.

Vitória prevista: impulso para uma nova rodada.
Perda prostrada: ânimo para recomeçar.

O jogo é pra valer, um desafio entre naipes.

Espadas se cruzam, paus em posição, copas prestes a agir, ouros no desfecho.

Cartas na mesa.
Reserva no canto à direita.
Tablado disposto.

Solto as cartas, me entrego ao jogo.

Nesta corrente, me embaralho, me desmantelo, me despedaço.

O coringa não entra. Não neste jogo.

O bobo da corte está nulo.

Paciência, paciência — distraio-me do medo, da angústia e da dor.

Porque o jogo nunca acaba — não sou eu quem o joga, mas ele quem me joga.

Me move da esquerda para a direita, da direita para a esquerda,
de cima para baixo, de baixo para cima, num vai e vem, num zigue-zague.

Me substitui, me posiciona, me aproveita, me descarta.

Vitórias atrás de vitórias, derrotas atrás de derrotas, e estou desgastada, como uma carta velha, apagada.

Mas isso o jogo não entende.

Não entende.

Segue o jogo, até que escolho me posicionar e me torno carta fora do baralho.

terça-feira, agosto 19, 2008

Sentidos

A sensação de caminhar dissimuladamente calma e lenta até você, fingindo-me madura e segura de mim, é como uma dor delgada que termina em ponta aguda.

Num esforço excessivo, ofereço um jeito assim, meio displicente, ao desejar-lhe bom dia.
Aparentemente equilibrada e, de certa forma, desdenhosa.

Ah… mas se pudesse me ver por dentro…

Uma voz suave lhe fala aos ouvidos seus desejos mais secretos, assim como uma melodia sussurrada no saxofone, soprando sensualidade em um tom apaixonado, sem limites morais.

O sangue me sobe à cabeça, deslizando pelas veias, avançando acelerado, aquecendo todo o meu corpo.
O coração galopa em disparada à medida que vencemos a distância entre nós.

Aflitiva, a respiração falta-me; mal sei se chegarei até você.
Inadmissível, seu olhar me despe da gélida couraça, quebrando-me em pedaços.

Fogo… faz-me arder dos pés à cabeça, exceto pelo estômago, que gela.

Quanto de ti me perpassa o pensamento na fração de segundos em que nossos olhares se cruzam e os corpos quase se tocam…
Sigo empurrada por força magnética; você, por condução elétrica.

Exalando-se em esfera estimulante, correm-me pulsões atômicas.
Seguem-se explosões nervosas,
Sentidos latentes,
Sintomas pungentes,
Viagens lancinantes,
Mescladas de prazer,
Acompanhadas de volúpia.

Mergulho impiedoso,
Deixa o corpo à revelia,
Às transparências levianas,
Às delícias da libido,
Aos desejos da lascívia.

Abandonado ao teu comando,
Quimera ilícita de domínio e rendição.

segunda-feira, agosto 18, 2008

A dama do sono

Amado menino, ente querido,
Deite-se logo, venha dormir,
Feche os olhos e venha comigo.
Durma bem, durma em paz,
Que a nuvem do sono o traga para mim.

Venha, me siga,
Aproxime-se mais.
O portão está aberto! O que estás a esperar?
A noite o aguarda,
O bosque tão calmo o convida a entrar.

Seus passos vacilam? Não temas, meu anjo!
Entre e desvende,
Embrenhe-se nos matos,
Beba da fonte que, fresca, o presenteia,
Alimente-se dos frutos que, doces, se oferecem.

Deixe que as árvores o acolham,
Toque suas raízes e permita que o envolvam,
Abrace seus troncos e deixe que o enlacem,
Agarre seus galhos e permita que o elevem,
Aspire o perfume de suas flores e deixe-se envolver.
Entregue-se, perca-se, não procure voltar.

Puro e inocente, me encanta o seu olhar.
Acompanhe incessante o assovio que o chama.
Ouça, menino,
A natureza dos prados,
Harmoniosa música.

Toca...
Pio de coruja,
Coaxo de sapo,
Canto da cigarra e do grilo,
Em orquestra florestal.

Lua cheia, luz difusa.
Dançam, prateados, cintilantes reflexos.
O melódico vento move as ramagens.

Menino, apresse-se!
Chamam-no à frente.
Vacilantes, os passos deslizavam sobre a lama.

— Que queres? — pergunta o pobre menino.
Tremem as vestes do impaciente garoto.

— Corra, esconda-se! — dizia o soldado.

Ávido, o menino se esgueira por entre os arbustos.
Corre, mas logo cessa.
À sua frente, revela-se um rio.
Cercado, não há saída.

Senta-se à margem, o soldado, à espreita, hesita.

— Ó, que fazes aqui, tão belo garoto? — inquiriu o soldado.
— Estou à procura da Dama do Sono. — responde o menino.
— Ó, não! Deixe disso! Volte para casa. A Dama do Sono há muito se foi.
— Não posso, pois no sonho viajei e não sei como voltar.
— Deves te esconder o quanto antes. Tu corres perigo!
— Que perigo?
— Tolo garoto, não sabes onde estás?
— No reino do sono. Por Deus, estás a me assustar! Afinal, quem és tu?
— Sou alma errante, em eterna condenação!
— Como vieste para cá?
— Fui soldado em combate, na guerra. Muitos matei, decepei, lacerei. Meu corpo doía, minha alma rasgava. Rendi-me ao cansaço e deitei-me na relva. Fechei os olhos e nunca mais os abri. Afoguei-me na culpa e, cá estou, a pagar sentença.
— Pobre soldado! Como sofre teu coração! Diga-me a saída, preciso voltar!
— Garoto, tu deves tentar acordar. Preciso ir, meu tempo se esvai!
— Aonde vais?
— Afogar-me novamente em minha sentença. Nas águas do rio devo me afundar.
— Não vá! Tenho medo. Fica comigo!
— Se eu fico, o rio transborda e engole a nós dois. Menino, de tão bela alma, não mereces tal fim.

Foi-se o soldado. Ficou o garoto.

— Ó, meu anjo, não ouça atormentada alma. Os condenados nada sabem, estão presos a revoltas, vergonhas e tumultos. Vejo que encontraste algo muito precioso e, ao mesmo tempo, perigoso. Este rio à tua frente é a chave do meu reino.

O garoto, em confusão, deitou-se à margem, olhando para o sentido em que corriam as águas, tingidas de vermelho.
Estendeu a mão para beber... Mas que susto tomou ao perceber que o rio era de sangue!

Rio que se esconde no jardim das profecias...
Quando a lua está cheia, as almas se lhe escapam.
Águas sangrentas e pulsantes transbordam em lamúrias,
Arrastando de volta almas em penúria.

— Ó rio, virulento e turbulento! Dominaste-me em tuas águas! Maculaste-me com teu sangue!
Serpente líquida, lambes-me o corpo,
Cujo veneno sucumbe em minhas veias.

Ó menino, meu anjo sagrado,
Não deves provar de sua peçonha,
Nem ao menos cair em tal perversão.

Acorde, garoto! É hora de brincar.
A Dama se foi, sua inocência deixou.
O sonho... acabou.



quinta-feira, agosto 14, 2008

Campo entre ambos

Naquela época éramos todos muito tolos e nem sequer refletíamos sobre aquilo que hoje chega a nos intoxicar pelo excesso.
Quando passava por aquele lugar, sentia-me sempre estranho, acometido por uma espécie de nostalgia. As conversas desencontradas e a falta de assunto pairavam sem ameaçar nossa amizade.

Surgíamos repentinamente, quase sempre juntos, sem necessidade de combinar. Alienados de tudo e de todos, não fazíamos questão de companhia alheia, mas isso não significava envolvimento um com o outro; era apenas a sintonia de nossos canais. Entre nós não havia vínculos, compromissos ou formalidades inúteis. Falávamos quando desejávamos; se nada nos ocorresse, ficávamos calados, observando as pessoas e o tempo passarem.

Era comum nos sentarmos para desenhar. Vínhamos de lugares diferentes e escolhíamos, sozinhos e sem nos consultar, um canto onde passávamos boas horas do dia. Cada um com sua caixa de lápis de cor, apontadores, folhas A4 e uma prancheta no colo. Nem eu nem ela sabíamos desenhar com primor ou destreza; desenhávamos sem nos preocupar com linhas tortas, curvas desniveladas, formas disformes. A intenção não era superação nem competição; o importante era estar ali, desenhando nossas realidades irregulares.

Folhas e folhas rabiscadas, coloridas, rasgadas. Não escrevíamos nada nelas, apenas quando achávamos necessário datar. Assim que finalizava um desenho, ela o estendia diante dos olhos e o mirava sob diversos aspectos, até se cansar e partir para outro.

Vi-a sorrir em silêncio várias vezes, mas nunca perguntei o motivo. Preferia imaginar eu mesmo do que ela estaria rindo, e isso me fazia, na maioria das vezes, rir sozinho. Quando ela pousava o papel sobre a grama e seguia adiante, eu os observava sem nada dizer. Não sei bem o que pensava, mas sei que não os julgava nem bonitos nem feios. Eram peculiares.

Quanto aos meus desenhos, Catarina os via pelo canto do olho enquanto eu os deixava no chão, até decidir pegá-los nas mãos. Olhava-os por alguns instantes, curiosa, até que o interesse se dissipava e ela os deixava onde estavam. Pediu-me alguns dos meus desenhos; pretendia guardá-los. Lembro-me de ter pego também alguns dos seus. Eu os guardava e os olhava de vez em quando. Eram mais ricos que qualquer conversa jogada fora.

Catarina era diferente das pessoas com quem eu convivia no colégio. Tínhamos a mesma idade, dezessete anos. Não falávamos de festas, shows, noitadas; falávamos de música. Não falávamos das pessoas do nosso convívio, mas daquelas que nem conhecíamos, daquelas que imaginávamos existir mundo afora. Lembro-me de uma tarde em que, sentados no gramado do campo, conversávamos sobre a vida de um pescador qualquer na Itália. Divertia-nos imaginar pescarias no Mediterrâneo. Dizíamos alguns disparates sobre as ilhas da Sardenha e da Sicília, ríamos de nossas bobagens, vivíamos no mundo da lua.

Nossas palavras, risos, silêncios e desenhos estavam livres de senso e responsabilidade. Éramos muito além do conhecimento dos livros; éramos imaginação atemporal.

Apesar de levar uma vida normal como qualquer outro garoto da minha idade, sentia-me sempre estranho diante das coisas, das pessoas, dos acontecimentos, das obrigações e até das diversões comuns ao mundo jovem. Naquele tempo eu ainda fazia parte de tudo que me dizia respeito, mas a vontade de estar rodeado por aquilo me escapava cada vez mais. Embora estivesse sempre acompanhado de amigos quando saía, ou nos encontros em casa, no colégio ou onde fosse, não sentia necessidade de estar ali.

Tinha, na maior parte do tempo, vontade de estar sozinho ou talvez no campo com Catarina. Mas não tinha coragem suficiente para me afastar e permanecer apenas em minha própria companhia. O que iriam pensar? Essa pergunta tola sempre me perseguia e, por causa dela, persistia em viver rodeado de pessoas que me pareciam conhecidas. Afinal, eram meus amigos, mas eu não os conhecia em nada, assim como eles não me conheciam.

Esse incômodo me persegue até hoje, e tenho certeza de que o mesmo acontece com Catarina. Não a vejo há anos; não sei onde está morando nem o que faz. Ainda assim, sinto-me ligado a ela mais do que a qualquer outro amigo com quem mantenho contato.

Com ela, as coisas aconteciam naturalmente, de forma fluida. Estávamos ligados por algo especial, não por sentimentos de paixão ou atração, mas por compreensão. Nunca saímos juntos, nunca nos ligávamos. As vezes em que nos encontrávamos eram sempre no campo. Não era um encontro porque não combinávamos horário nem dia; não nos prometíamos nada. Quando nos dava vontade, lá estávamos juntos.

Sei que Catarina ainda hoje é como eu, perseguida pelo mesmo incômodo permanente. Nem ela nem eu fazemos questão de estar acompanhados, mas sim de estar onde estamos e como estamos, sem nos preocupar se é isso mesmo que deveríamos fazer. Creio termos nos definido neste bosquejo: uma condição sem condições.

segunda-feira, agosto 11, 2008

A Noite

Pesadelos
Suores
Repentes
Suspiros
Cama em chamas
Angustias rolam pelos lençóis arrancando-os do colchão
Maculam o sono sagrado, à espreita do amanhecer.
Corpo ondulante, inquieto,
Pesado, calado
Sussurra, se engasga.

Ríspido frio, arrepios na espinha.
Ondas de calor, jorros nos poros.

Sede
Boca
Seca

Olhos entreabertos
Luz fraca a brilhar distante na parede branca
Sombras na janela
É preciso ir...
Brilha cada vez mais e chama: Venha... Venha até aqui...
Sombras bruxuleantes dançam madrugada adentro
No coração o desejo de ceder ao gozo momentâneo

De pé lutando contra si ergue-se o corpo cansado,
Se aquece aos primeiros movimentos
Passos incertos permeiam o chão preto como piche, se esbarram.
Mãos que tateiam o espaço em branco, nada tocam.
O amarelo lúgubre cada vez mais próximo dos olhos faz crescer as pupilas.
As sombras se arrastam agarradas aos pés da carcaça dormente e invadem lhe por completo assim que se acende o interruptor.

O espelho reflete fumaça,
Restos,
Relevo cinzento,
Mas os olhos destacam,
Gatunos
Noturnos
Mortais...