terça-feira, novembro 11, 2025

A Porta Azul

Certo dia, estava eu a vagar pela estação subterrânea de metrô em meu sonho, um lugar escuro, opaco. O ruído metálico do atrito dos freios dos vagões com os trilhos zumbia uma canção pós-moderna do cotidiano.

À frente, vi uma porta de cor azul profundo. Em busca de ar, de um sopro de leveza, abri-a de uma só vez: um mundo se revelou luminoso do outro lado, uma paisagem ao entardecer, com folhas de outono em tons avermelhados.

Diante de mim havia uma pequena árvore, com o tronco caído ao chão, voltada para um lago cristalino. Nele estava sentado um rapaz branco, de cabelos e barba ruivos, usando um chapéu de palha.

Toda a cena era uma pintura a óleo, com leves movimentos do soprar do vento, como pinceladas vivas. Ele era Van Gogh, e eu o admirava de longe, aquele homem cujos olhos se perdiam no horizonte da tela de sua própria pintura.

Um arquétipo sublime do inconsciente coletivo adentrou meu espaço psíquico pessoal para me lembrar da beleza do mundo.

Quando você pinta um ser humano, como o faz?
Desenha os contornos que o limitam à forma e lhe acrescenta uma expressão única?
Entre as margens que materialmente delimitam o corpo no espaço e a infinitude do espírito que deseja lançar-se além das fronteiras, habita a natureza humana, eternizada em uma obra-prima.

Deixei meus estágios psíquicos moverem-se naturalmente, feito placas tectônicas que se ajustam ao movimento da Terra, e mergulhei para despertar de um sono profundo, como um artista que contempla a própria criação e nela se revela.

sábado, novembro 08, 2025

Eterna brevidade

Por mais que me queiram escravizar em definições,
encarcerar-me na materialidade das coisas,
todo esse intervalo a que chamo vida
é só meu.
Só eu o detenho,
porque sou eu, em mim, quem o vive.
Somente eu, como o eu que sou, experiencio
esse breve intervalo, a vida,
que contém, na brevidade, a eternidade
de meus inúmeros eus,
só meus.

quinta-feira, novembro 06, 2025

O exílio de si

A sombra é um arquétipo antigo e inevitável. Habita cada ser humano como uma presença silenciosa que acompanha os passos da consciência. É o espelho obscuro daquilo que rejeitamos em nós, o depósito das emoções reprimidas, dos impulsos negados e dos desejos não reconhecidos. Ainda assim, é parte essencial do que somos.

Por muito tempo, virei o rosto para não vê-la. Acreditava que ignorar minha sombra me afastaria do que havia de mais incômodo em mim e me aproximaria da imagem ideal que eu criara de mim mesma. Mas quanto mais a evitava, mais ela se fazia presente nas bordas das minhas atitudes, nas reações desmedidas, nas relações que terminavam em ruína. A sombra não desaparece com o olhar desviado; apenas muda de forma, camufla-se nos outros e retorna a mim através da projeção.

Ela é a porção exilada da alma, o estrangeiro interno que se sente deslocado e busca incessantemente um lugar de pertencimento. É o arquétipo do que foi banido e clama por reintegração. Em sua face humana, manifesta-se como insegurança, orgulho, raiva ou medo. Na tentativa de não ser ferido, o indivíduo dominado por sua sombra destrói o vínculo antes que o outro o faça. Crê estar se defendendo, mas apenas perpetua o exílio.

Esse movimento é universal. Todos nós, em algum grau, repetimos o gesto ancestral de afastar o que não queremos reconhecer. O arquétipo da sombra surge, então, como o guardião das partes esquecidas, aquele que preserva, em silêncio, o que a consciência não suportou acolher. Ele contém a energia vital que a repressão desviou. Integrá-lo não é ceder à escuridão, mas recuperar a totalidade perdida.

Quando projetada, a sombra se reflete nos outros. Enxergamos neles os aspectos de nós mesmos que tememos admitir. Por isso o mundo parece povoado de espelhos. O inimigo, o rival, o estranho — todos podem carregar, invisivelmente, fragmentos da nossa própria psique. Reconhecer isso exige coragem, pois implica abandonar a ilusão da pureza e aceitar que luz e sombra coexistem em toda alma humana.

Ao voltar-me para dentro, compreendo que julgar-me desconexa é condenar-me ao exílio de mim mesma. Acolher a sombra é recolher o que foi disperso. Quando essa força é reconhecida, deixa de incendiar os lugares e passa a iluminar caminhos. Sua energia, antes destrutiva, torna-se criadora. O arquétipo, reconciliado, converte-se em fonte de poder interior e sabedoria.

A viagem mais difícil é sempre a que fazemos para dentro. É nela que atravessamos o território simbólico onde o inconsciente fala por imagens e onde cada ser humano reencontra os próprios opostos. Ao fim dessa travessia, compreendemos que a sombra não é inimiga, mas guardiã do que fomos obrigados a abandonar. Integrá-la é o início do retorno ao lar interior, o lugar onde a alma deixa de errar no escuro e enfim se reconhece inteira.

Não te identifiques nem te defendas da imagem projetada no espelho.
Permanece no centro de ti mesmo.

quarta-feira, novembro 05, 2025

O abraço das palavras

Minha voz ecoa
e reflete
em toda e qualquer pessoa
que eu já tenha sido capaz de enxergar.

E toda e qualquer pessoa
que se tenha feito ver
encontrou em meus olhos
o reflexo daquilo
que outrora me habitava
e quer se deixar ver através do outro,
para que eu possa mirar,
quem sabe tocar
e experienciar a materialidade
daquilo que me escapa.

Minhas palavras,
aquelas que deixei escapar do fundo,
do chão,
do assoalho d’alma,
me resgataram do poço,
do lodo,
do sangue.

Foram elas,
as mesmas que inúmeras vezes
sufoquei, calei e desprezei,
a minha tábua de salvação,
o milagre pelo qual esperei.

E se meu chamado,
meu pedido de socorro,
foi atendido, ouvido e respondido
por alguém que eu não esperava
e até então não conhecia,
esse alguém era eu.

Se minha dor,
transmutada e materializada em palavras,
viajar pelo tempo
e tocar um ferido que seja,
para abrandar o sofrimento,
recebo com gratidão
o abraço dessas palavras.

sábado, outubro 18, 2025

O mistério da própria alma

Você está disposto a ser a versão de si mesmo que é, sem se ajustar ao outro ou aos ideais impostos?

O eu que quer nascer pode ser amado ou odiado. Se você o rejeita por medo antes mesmo de conhecê-lo, nunca saberá.

Pode amar uma criatura em gestação dentro de si, desconhecida, que precisa do seu afeto sem garantias, para que dela nasça um novo ser, parte de você?

Pode oferecer amor incondicional ou só amará sob condições?

O desejo de ser aceita, reconhecida, não vem da necessidade de se aceitar, se escolher e se reconhecer como valiosa?

Sou responsável por me aceitar. Não aceite menos do que merece e dê o máximo que puder.

A alma gesta um novo modo de ser, mais inteiro, mais conectado ao próprio instinto. O embrião psíquico se nutre no silêncio e na discrição, para que não seja abortado pela crítica, pelo medo ou pela razão excessiva de padrões impostos.

Você é capaz de amar um ser que ainda não conhece?

 

terça-feira, outubro 14, 2025

O incognoscível

Será que ele,
o incognoscível,
passa ignorando a pequenez
de um barco à deriva
na superfície de suas águas,

algo tão insípido
que mal provoca ondulações
perdidas na imensidão?

Desalento e abandono
sente a minúscula embarcação,
célula triste
desse organismo desconhecido.

Eu o acompanho com o olhar.
O eu quer falar e compreender,
ele quer silêncio e entrega.

Quem sabe,
se eu me deixasse levar pela maré,
não sentisse tanta falta.

segunda-feira, outubro 13, 2025

Não retorne à cidade fantasma

As paisagens congeladas dos álbuns de fotografia, momentos e memórias estáticos do passado, quando revisitadas pela consciência atualizada, que se move entre fragmentos estagnados, podem ganhar nova vida e roupagem.

As memórias nos chamam de volta, mas são apenas ecos.

Não retorne à cidade fantasma.
Não habite o inabitável.

O quadro se desgastou; os personagens atuaram, desempenharam seus papéis, cumpriram o propósito. A partir deste ponto, reconstrua a cena: envolva-a com uma nova visão, olhe-a sob outra perspectiva. Sua visão se alterou. E, com isso, a paisagem mudou. O passado já não é o mesmo visto deste ponto onde estou.

Os atores desta história, dos mais amados aos mais odiados, faces opostas de uma mesma moeda, guiaram-no até o lugar de onde agora seus olhos se voltam e observam, experimentando-se como fruto do próprio experimento. No instante em que a consciência desperta, tudo se desfaz e se refaz.

Ecos de vozes e falas, ouvidos por novos ouvidos, tornam-se outros; atos ganham novos sentidos, e o que era se reintegra ao que é sob meu novo olhar.

A pergunta que fica é:
E eu, o que farei do que fizeram comigo e do que fiz aos outros?
Usarei esses tijolos para erguer muros que me isolem, ou para construir uma casa que me acolha?

O que preciso mudar não é o mundo nem as pessoas, mas o meu olhar.
Alterar meus arquivos mentais corrompidos é o meu trabalho.
A cidade fantasma se desfaz ao toque do meu novo olhar, e com ele desengato a carroça de cadáveres que por tanto tempo arrastei.



sábado, outubro 11, 2025

O experimento

Eu não sou um brinquedo que possa ser consertado, mas ajo como se fosse.
Essa constante análise e observação de mim mesma, como uma substância in vitro dentro de um laboratório vivo que se observa em busca de falhas a serem corrigidas, talvez seja uma fuga da condição humana da qual faço parte.
O experimento que quer se experimentar.
Querer me consertar é um erro, prova de mais uma tentativa de negar aquilo que sou.
Nessa fantasia de ser um deus que identifica, classifica e corrige seus próprios erros, esqueço-me de que permaneço ainda humana.
E, assim, nego a mim mesma e à própria energia da qual provenho.

sexta-feira, outubro 10, 2025

Exílio

Certo dia, resolvi me calar.
E, no silêncio, algo subiu do peito: um incômodo, uma angústia, um medo do desconhecido.
Tudo em mim era sombra e escuridão.
Nenhuma forma, nenhuma sensação, apenas o vazio de não conhecer.

Não me pergunte quem sou. Nada sei sobre mim.
Se diante de um gênio da lâmpada eu tivesse três desejos, talvez ficasse muda,
sem saber o que pedir.
Seria fortuna?
Reconhecimento?
Amor?
Ou seriam esses os desejos da coletividade, sussurrando tentações em meus ouvidos?

Mas seria isso mesmo o que quero?
Se fosse, quem sabe já os teria vivido,
e eles, por sua vez, me teriam possuído até os ossos.
O que me mata é não saber se o são.

Habitar um destino sem rota,
estrangeiro,
cuja língua não falo,
é como viver uma condenação silenciosa,
um exílio interior,
uma segregação do que sou
a se propagar em cada célula deste corpo
que move, sem saber por quê,
esse grande desconhecido.

Deus vive através de mim
a experiência de não se conhecer.
Até que um dia se farte dessa incerteza.