terça-feira, janeiro 13, 2026

Pontes

Quando me permito uma visão desromantizada da vida, vejo com mais nitidez a realidade dos fatos.

Sem a necessidade de criar tantas narrativas.

Divaguei, viajei e pousei em diversos conteúdos, lugares, histórias, elementos e pessoas. Foram pontos de apoio, abrigos temporários para o símbolo vivo que ainda não havia encontrado linguagem nem morada. Tocaram-me e me transformaram por ressonância, não necessariamente por destino. Fizeram parte do que sou, mas não me definem, não me pertencem, nem eu a eles.

Símbolos e sentidos não são missões. São caminhos, estados e estágios de uma travessia em território interno desconhecido. Não encerram uma identidade; abrem portas, comportas, clareiam o percurso. Cumprem função, não missão.

Quando não transformamos afinidade em pacto, nem ressonância em compromisso narrativo, a memória passa a servir à consciência, e não ao enredo. São pontes provisórias, até que a própria linguagem possa nascer, até que eu possa ser morada de mim e não visitante de mitos alheios.

Assim que passei a me habitar, não precisei de tantas narrativas para me explicar.
Nem de um destino para me guiar.

segunda-feira, janeiro 12, 2026

Pés descalços no Chão

O amor não precisa de palco.
Precisa de chão.

O amor idealizado brilha,
mas não é ouro.
É ouro de tolo.
Apresenta-se, representa,
mas não vive.
Fica suspenso.

Restrito às palavras,
às imagens,
às promessas.

As paixões pertencem ao teatro.
O amor mora na vida.

O encanto não atravessa a segunda-feira.
As juras não resistem ao silêncio.
O grandioso não sobrevive ao cotidiano.

Ideais seduzem e cobram sacrifício.
Fantasias pedem espera infinita
para um futuro que não chega.

O brilho sobe rápido
e desaparece
quando o chão aparece.

Promessas sem lastro.
Vazias de sentido.

Aprendo a amar
com os pés no chão,
com o tempo,
com a verdade possível.

Cultivo o amor que fica
quando o entusiasmo passa.
Que não grita.
Que não promete o mundo,
porque habita o real.

Volto para casa.
Ocupo meu lugar.

Não busco.
Me encontro.

Não quero intensidades vazias.
Abro espaço.
No vazio,
continuidade.

Não sou escolhida.
Sou a própria escolha.

Este é o meu não.
E nele,
há espaço
para um sim verdadeiro.

O amor que combina comigo,
que sempre gostei de andar descalça.

domingo, janeiro 11, 2026

A Morada do símbolo

Todos nós, em algum ponto da vida, somos tocados por paixões e fascínios que nos chamam em silêncio. Eles nos atraem para certos conteúdos que, quando acolhidos, passam a nos conduzir discretamente pela existência, como um fio invisível que leva, sempre, ao mesmo destino: o encontro consigo. Comigo não foi diferente. Ainda jovem, algo sussurrou aos meus ouvidos e esse sussurro tinha a forma viva do Antigo Egito.

O Antigo Egito tornou-se para mim um território hospitaleiro, capaz de acolher o simbolismo ainda velado do meu inconsciente, então impedido de se expressar por uma consciência dormente e oprimida pela conjuntura. Ali, esse conteúdo sem forma encontrou um vaso sagrado onde pôde repousar, sustentar-se e suportar, emanado de uma fonte interna que buscava, por si mesma, caminhos de permanência.

O universo simbólico da palavra não dita, da expressão pré-verbal, assentou-se na imagem que lhe era mais próxima por afinidade. Meu instrumento psíquico entrou em ressonância com uma era no tempo cuja vibração atravessa séculos e continua a reverberar.

Assim, meu inconsciente não me conduziu a um mero objeto de admiração, mas a um espelho estrutural de mim mesma, para além do tempo e do espaço.

sábado, janeiro 10, 2026

Afinidade em notas silenciosas

Grandes esperanças se dobram à memória
à infância inteira,
às quedas que ninguém vê,
ao silêncio dos intervalos.

O humano mora aqui,
onde nada grita ou se explica
mas tudo alcança.

Como a música, como a vida,
e como a afinidade:
uma linha fina
que leva
de volta à própria essência.

sexta-feira, janeiro 09, 2026

Silêncio do intervalo

Em paisagens turísticas, cujas imagens instagramáveis se congelam em massa, vejo pessoas dispersas a sorrir para as câmeras, na expectativa de serem notadas através de momentos eternizados em narrativas lidas pelo olhar alheio. Vejo-me entre elas, compartilhando do mesmo fogo de palha que nos move de um destino a outro, sempre em busca.

Ainda assim, sopra em mim um desejo aspirado do fundo à superfície, que me conduz ao momento mais esperado da caminhada em meio ao burburinho: o intervalo silencioso entre um grupo e outro. Ele me envolve como um abraço suave da paisagem aberta, que se oferece naturalmente. Admiro a brisa refrescante da fresta por onde algo verdadeiro respira entre nós.

Sorvo-a em pequenos goles pelos olhos, a mirar sua imensidão; ouço, ao longe, as vozes excitadas das pessoas que se vão e que chegam novamente em levas, através do tempo.

Aquece-me o coração tê-las por perto como plano de fundo de um panorama maior. Mesmo só, junto-me a elas de certa forma e, acompanhando-as com o olhar, permaneço nesse misto de pertencer e descaber.

quinta-feira, janeiro 08, 2026

Luzes acesas

Trago comigo
o que vibra em afinidade,
afinando os instrumentos.

O que me acompanha
não é o conflito,
mas o que ainda é vivo
e possível.

Abrigo
o que faz sentido preservar.

O restante fica.
Sem ataque.
Sem acerto de contas.

Atravesso o rio
e agora vejo a margem
a partir deste novo ângulo,
à distância.

Apenas observo,
sem precisar agir sobre.

Não é preciso interferir
para não ferir,
apenas seguir.

O mapa está iluminado,
posso enxergar
o arranjo musical
e ouvir
a orquestra tocar.

Cada personagem
tem seu instrumento,
cada som
tem sua função.

Acendo as luzes de casa,
deixo-as acesas
para que àqueles
que caminham lá fora
possam ver
e sentir o conforto
que um dia senti
ao vê-las de longe,
na escuridão
e no silêncio da noite.

O silêncio de fundo
acolhe a música
que segue a tocar.

Mantenho as luzes acesas,
iluminando
a orquestra
que se apresenta.

O propósito é o mesmo
para todos;
o que muda
para cada um
é a forma
de chegar a ele.

quarta-feira, janeiro 07, 2026

A caminho de casa

Lembro-me de cada casa que guardei no olhar
pelas caminhadas noturnas que fiz a sós, em silêncio.
Eu as contemplava à distância, como quem reconhece algo
sem saber o nome.

Eu não as via.
Eu as sentia.

De mim não emanava curiosidade pelo que as habitava.
Eu tinha certeza de que ali havia vida,
como um organismo que respira calmamente.

Não me sentia só quando as observava de longe,
nem desejava entrar para conhecer.
Eu as reconhecia.

Era um alívio silencioso saber que a vida
podia ser calma em algum lugar,
simplesmente existindo.

Caminhei na escuridão guiada por luzes
que não ofuscavam nem chamavam.
Elas apenas luziam, permaneciam.
Eu as chamava de paz e sossego,
sem ainda sabê-las.

Isso me mantinha naquele instante
da eternidade finita da vida.

Eu não queria alcançar, tocar ou ter.
Eu queria retornar para casa,
para minha casa,
aquela sem localização específica.

A casa que me aquietava
sempre esteve em construção aqui dentro,
com os materiais que eu tinha em mãos:
estrutura óssea, tinta sanguínea, argamassa cinzenta,
gerando forma, contendo espaços, margens, limites, cobertura.

O corpo sangrava quando não havia paredes.
A luz do mundo invadia o interior
vazio de janelas.

Escrevi erguendo contornos
para conteúdos ainda sem forma.

Eu caminhava à noite admirando as luzes
que escapavam das janelas no silêncio das ruas.
Eu estava a caminho de casa.

Agora me encontro a morar
onde sempre contemplei.
Onde o fogo não se apaga,
a mesa é posta sem pressa,
o silêncio não é vazio
e a vida não precisa se justificar.

A sensação de continuidade tranquila
e permanência que me tocava
numa casa vizinha, numa rua escura,
num país estrangeiro, numa janela iluminada,
era presença.

Há vida que não sangra para existir
e presença que não invade.

Em minha casa a luz está acesa,
não para chamar, nem para ser vista,
mas para existir.

Aqui sopra de leve uma brisa suave
que levanta a saia das cortinas
num movimento tranquilo,
como o vento que pincela as encostas
e desenha relevos.

Hoje, quando escrevo, acendo a luz de casa.
E quem sabe alguém, em outra noite, passe
e sinta a mesma paz que um dia senti.

Ou talvez seja eu mesma a passar,
reconhecendo o que sempre me buscou.