Em vida, temos muitas possibilidades do que poderíamos ser, uma abundância vazia, um transbordar de grandes nadas, mergulhados em mentes dispersas.
Nossa sociedade pode ser vista como um campo florido, povoado por borboletas que voam sonhando com flores em vitrines, mas nunca pousam nem polinizam o terreno já árido pela inação.
O que vemos são mariposas cegas, perdidas, trombando em luzes artificiais, cansadas da falsa esperança.
É preciso quebrar o encanto do que poderia ser e fincar os pés na lama fria e pesada do que é. Só assim a vida deixa de ser um catálogo de promessas vazias e começa a ser vivida de verdade.
Morto em vida é quem sente, mas não se arrisca, ama à distância, deseja, mas não se entrega. Seres estagnados, presos pelo medo de afundar e mergulhar.
Vidas mornas, tépidas, cascas sem brilho, amostras grátis de conteúdos vazios.
Vemos resultados por todos os lados, mas o processo é negado e anulado.
A colaboração, a construção conjunta e o trabalho paciente deram lugar a manuais de autoajuda que oferecem fórmulas prontas.
Arriscar-se não é sair correndo, é parar de fugir.
É se entregar ao vazio, ao silêncio, ao desconforto de não ter respostas e permitir que algo mude por dentro.
Você pode se arriscar na pausa que revela o essencial.
Pode se arriscar olhando para o que tem evitado sentir.
Pode se arriscar ao abrir mão de uma identidade que não te sustenta.
Pode se arriscar ao se render a um processo interno sem controle, mas verdadeiro.
Quer saber onde se arriscar? Pendure-se por dentro.
Deixe cair as máscaras, os papéis, a pressa.
E veja o que permanece.
É ali que mora o real.
Solte o controle do plano perfeito, da ilusão de que só se pode agir quando tudo estiver claro e calculado.
O sucesso não se garante antes do passo. Está preso a mentes que projetam, mas não sentem.
Fragmentos temerosos de suas versões incompletas.
Uma multidão de vozes fala e não diz nada. Seguimos repetindo fórmulas para um desajuste íntimo e coletivo.
No fim, tudo não passa de opiniões, suposições e previsões do que só pode ser vivido.
De nada adianta preservar uma vida que não movimenta nada, a não ser que essa vida esteja pronta para se reconhecer como fonte.
A vida é uma travessia.
Se quiser atravessar, terá que enfrentar o fogo.
Mas esse fogo não vai te queimar, vai te forjar.