Por vezes, me invade um sentimento de opressão no peito, que rasga em pedaços o meu tão sonhado ideal de bem-estar. Sou lançada a uma zona de total desconforto. Minha mente, viciada em consertar falhas e encaixar peças, me escaneia em busca de erros. Procura classificar e ordenar qualquer vestígio de caos, elemento inaceitável na lógica cartesiana à qual minha razão se molda constantemente.
Nada deve escapar sem uma explicação plausível e imediata. Faço malabarismos internos para conter e organizar sentimentos, ações e decisões. Já aos ímpetos e instintos, ofereço silêncio, controle e repressão. Crio uma fachada limpa, simétrica, com uma proporcionalidade invejável. Tudo isso para me conceber como alguém aceitável em mim mesma e diante da sociedade.
Sigo adiante nessa fantasia bem-sucedida de modelo exemplar. Uma peça devidamente encaixada e funcional nas vidas secas de terras áridas. Eis o nosso deserto do real.