quinta-feira, junho 05, 2025

Red Flags: O Perigo que nos habita

Vivemos tempos em que a atenção aos sinais de perigo se tornou quase uma exigência cotidiana. "Red flags" se tornaram parte do nosso vocabulário emocional, como se a vigilância constante fosse a única maneira de evitar a dor. Mas será que, ao focarmos tanto no que pode nos ferir, não esquecemos de olhar para aquilo que, silenciosamente, também nos habita?

Atualmente, fala-se tanto na importância de estar atento às ameaças externas, aos perigos que o outro representa em relação a nós mesmos, buscando nos proteger. Mas, afinal, de que queremos proteção?
De abuso, invasão do espaço íntimo, decepção, desilusão?

Aprendemos a erguer barreiras, mas será que também aprendemos a nos aproximar? Me parece que não...

É preciso prestar atenção às “red flags” de si mesmo. Nosso olhar está sempre voltado para os sinais que enxergamos no outro, mas raramente olhamos para os nossos próprios sinais de alerta. O problema está sempre lá fora, mas será que ele também não habita dentro de nós, justamente porque vivemos focados nele?

Realizamos a tarefa de conservar nossa essência e verdade interior a todo custo — mas… a que custo?

Essa reflexão parte de uma série de fracassos que vivi ao me impor meias verdades. Tentativas de me proteger ou de me adequar, que, no fim, apenas me afastaram de mim mesma e das relações que poderiam ter sido mais autênticas.

Talvez o maior risco não esteja apenas no outro, mas na nossa dificuldade de reconhecer os sinais que emanam de nós mesmos. O perigo que nos habita é, muitas vezes, aquele que mais negligenciamos e, é ele quem mais nos afasta da possibilidade de encontros genuínos.

quarta-feira, junho 04, 2025

Eterna Estrangeira

Os trechos da vida que me tocam
são os que mais falam de mim —
uma beleza desconhecida,
oculta nos bastidores do que posso ver.

O desejo revela
mais sobre mim
do que sobre o objeto,
alvo longínquo.

Um amor que só se permite à distância,
não se deixa aproximar ou tocar,
por medo de macular o que é puro,
como se, para salvá-lo,
eu precisasse conservá-lo
sem uso —
amor platônico, inútil.

Essa minha parte desencaixada,
imune às exigências do mundo,
é meu cerne, meu núcleo.
E eu a odiei —
desprezei minha própria essência
para me moldar onde nunca coube.

No esforço de seguir
sem engolir de todo a narrativa
imposta pelo coletivo,
fracassei duplamente:
entre me moldar
e me aceitar.

Estou presa nesse cabo de guerra,
nessa disputa sem fim
entre opostos
que não concordam.

Sigo estrangeira —
em meu próprio mundo,
em que minha alma não se molda
e meu corpo não se encaixa.

Nessa eterna não-pertença
mora a semente
que, sem rega, jamais brota:
o singular que sou,
que clama por viver segundo minha própria medida.

O que me desconcerta e me tira o fôlego
pertence ao espaço não integrado de mim —
a identidade que escapa,
beleza estrangeira
que sinto não me pertencer.

Não mora lá fora,
pulsa dentro,
no aguardo de conexão.

É minha, mas parece outra —
de outro lugar,
outra vida —
em um estranhamento de si,
idioma incompreensível,
imbuída de símbolos e mistérios
indecifráveis.

Cá estou,
presa entre dois mundos.

terça-feira, junho 03, 2025

Transfiguração

Visto-me daquilo que me assombra,
acreditando que, assim, estarei a salvo do predador que afirmo ser.


Estou acuado,
à procura de salvação,


sem em nada encontrar amparo
além de mim, tão fraco.


Visto-me de algoz,
me apresento invencível.


Torno-me o veneno que me dão de beber,
para evitar a morte,


para evitar a queda.
Afirmo ser tudo aquilo que me ameaça,


me torno as sombras que me seguem
e me asseguram.


Sou eu mesmo:
meu objeto de medo e repulsa.


Estou como um cão que persegue o próprio rabo,
sem nunca alcançá-lo.


Na ilusão de controle,
abandono, por completo, quem sou —


e me entrego, rendido,
ao que fiz de mim.


O que vejo é o que sou

O que vejo
é o que sou.

Não existe um lugar a se alcançar
além daquele onde já estou.

Não tem como ser de outra forma:
não posso partir de um ponto
de onde eu já não esteja.

Não há resposta
fora da experiência presente.

Tudo o que posso ver
reflete o que sou,
do contrário, me seria invisível
aquilo a que não me toca a consciência.

Não posso falar
fora do que sou.

Meu mundo e realidade sou eu,
porque é a partir de mim
que posso caminhar
e enxergar
o que digo estar fora de mim.

Mas a forma como vejo o que está fora
reflete o que está em mim.

Tudo aquilo que está além de mim
me escapa,
e, para mim,
não existe.

A resposta está
no próprio olhar que pergunta.

O olhar que busca
é já o encontro.

segunda-feira, junho 02, 2025

O colapso que revela

Pelas rachaduras dos muros que ergui contra mim, vejo entrar uma luz. Permito-me aproximar um pouco mais do colapso da estrutura e olhar por entre as frestas, à procura do desconhecido que se oculta à minha consciência.

Mãe

Mãe é a janela aberta por onde entra o sol que aquece todos os cantos da casa. E essa casa é o meu coração.

Sob o Sol

Estrela que embala os animais em cálido adormecer,
Guia luminoso dos pássaros, em busca de sustento,
Fonte ardente onde os répteis se rendem, em banhos imóveis,
Corpo celeste que nos traça a órbita e nos dá direção.

Cá estamos, no caos, sob sua luz,
Irradiando-se sobre fracos e fortes, sem distinção.
Sempre dançamos entre o desejo de expor-nos
E a urgência de proteger-nos dessa força vital.

Sementes trazidas de terras longínquas e misteriosas
Eclodem sob suas bênçãos silenciosas.