sexta-feira, abril 18, 2025

Casas vazias

Ficamos ausentes de nós mesmos.
Somos como casas cujas fachadas impressionam de tão lindas,
mas que, por dentro, são vazias, impessoais e desabitadas —
meros caixotes vendáveis, padronizados.

Não se encontra calor humano.
Tudo tem se tornado apenas inúmeras imagens,
representações de um ideal impossível de alcançar.

Quando alguém ousa realizar, na prática, essa fantasia vendida,
percebe que tudo não passa de um sonho,
e a verdade se torna difícil de suportar.

Então fugimos, outra vez,
para o abrigo confortável das telas, 
onde as quimeras são possíveis — ao menos na imaginação.

Mundo das mentes que projetam,
mas nunca realizam.

Estrutura secreta da colmeia

Muito do que acredito ser
é resultado da influência que sofro do inconsciente coletivo.
Quanto mais mergulho no meu próprio inconsciente,
repleto de tudo e de todos,
contendo todos os tempos,
cheio de luz e sombras,
mais me surpreendo e me deslumbro
com as imagens do que realmente sou
e do que acho que sou,
mescladas em um espelho
que me revela inúmeras faces
de uma mesma pessoa.

Abelha que sou,
parte do zumbido ancestral,
saboreio o mel a meu modo
e, ainda assim, habito a colmeia.
Voo — e pouso — solo.

quarta-feira, abril 16, 2025

Linhas sem Margem

Encontro inúmeras portas por abrir.
Sinto-as como tudo e qualquer coisa.

Atravesso o inconsciente,
enquanto a consciência
permanece à soleira.

Guardo no peito
um pacto silencioso
entre as instâncias.

Não me aproprio de nada.
Seria a travessia
uma brincadeira?

Ciranda de roda,
gato e rato —
símbolos que sobem
do fundo à superfície.

A consciência recolhe, decifra.
Escrever é escavar o Self
com palavras.

Mergulhos se tornam linguagem,
ponte entre partes,
fragmentos,
corpo sem molde.

Dança com o invisível,
fio condutor,
circulação de fluido vital,
átomos à deriva.

Sou eu:
linhas sem margem.

 

Almas silentes

Almas silentes
caminham caladas,
alheias,
indiferentes,
interiorizadas.

Pairam sobre as coisas
como fantasmas —
etéreas,
alinhadas
à sombra projetada dos objetos.

Amam todas as coisas em segredo,
como quem se esconde do sol
nas encostas,
fugindo do calor.

Rochas —
sustentam vidas
que desejam prover.
Mas rochas não alimentam.
Não frutificam.

Mutismo petrificado.
Inertes.
Inativas.

Sentem dores em sigilo.
Quietude enganosa.

No cerne,
magma a queimar.
No fundo,
pedras preciosas,
silenciosas.

domingo, abril 13, 2025

Cartografia da Alma

O poder está no coração, e o eixo, na razão.
Do meu barco, a razão é o leme;
o sopro que o leva: meu coração.

Navego entre desejos e decisões;
nas águas, o encontro — entre mente e emoção.

Minha alma viaja, tal qual astronauta em traje espacial.
Cada porto, uma lição.
Cada mundo, adaptação.

sábado, abril 12, 2025

Marcha dos Postes

De dentro do meu carro em movimento, vejo passar ligeiros os postes de iluminação, um a um, todos iguais e uniformes, como soldados marchando em direção ao destino.

Estendo a mão e, de longe, dedilho os fios de alta tensão como cordas de um violão, acompanhando o som que toca no rádio e me leva distante em pensamentos.

Toco a vida como quem toca um novo instrumento: desafino, acerto as notas, deslizo, encontro o tom — e então vibra o coração.

sexta-feira, abril 11, 2025

Latência

Respiração entrecortada,
acelerada.
Dos poros,
suor frio.

Em mim,
o Diabo —
força bruta,
pulsional,
à espera de ser integrada.

Pausa.
Silêncio.

Revela-se o tempo,
a gestação.

Breve impulso:
estou a caminho —
lenta,
incerta,
embotada.

Minha alma chora
silenciosamente,
decepada da capacidade
de sentir profundamente
sem punição.

Perdi o leme.
Entrei em tempestade.

Não fuja:
olhe.
Respire com ela.

Poder criativo latente,
preso nas zonas sombrias da psique.

O amor cresce
no chão da vida.

A prisão
se tornará
libertação.