Me sinto perdida. Acho que talvez seja a primeira vez que estou olhando realmente para o cão — digo, para um cão como ele é, e não como eu penso que seja. Às vezes erro nas minhas interpretações, racionalizo, baseio-me em emoções puramente humanas que não pertencem à realidade dos animais. É como caminhar em um campo desconhecido, um mundo novo, diferente. E, por vezes, tenho tanta dificuldade de andar por ele. Tenho muito a aprender com os cães, pois eles atravessam nosso mundo todos os dias. Muitas vezes ficam confusos, perdidos, incapazes de compreender — e não poderiam, porque o mundo humano se tornou tão complexo. Ainda assim, parecem sempre dispostos a aprender quando nos dispomos a ensiná-los.
Se soubéssemos como é maravilhoso aprender não apenas com a raça humana, mas com toda forma de vida existente, talvez nos comunicaríamos de verdade, sem o egoísmo e o isolamento em que nos aprisionamos. A vida no planeta não cabe somente a nós; cabe a todos os seres. Mas agimos como se somente nós tivéssemos o direito de decidir quem deve ou não permanecer. Estamos a criar “a morte do nascimento”.
É a angústia de uma sociedade desconectada de todas as coisas. A cada passo, distancia-se mais, fechando-se dentro de um casulo intrincado de ideias, crenças, relações financeiras, redes sociais… Estamos tão acima de tudo que quase não podemos enxergar, perceber o que há ao redor, sentir o que acontece.
É difícil compreender por si mesmo, observar algo sem ser guiado. O pensamento está preso às teorias construídas, às propagandas que nos invadem, ao que nos ensinaram a acreditar, às verdades de hoje e mentiras de amanhã, ao que nos dizem para crer.
Senhores, não somos roubados. Não, não somos violados.
Senhores, estamos entregues, rendidos, conquistados, arrebatados, arrebanhados. Caminhamos docilmente, pacificamente entorpecidos, rumo à destruição, rumo ao abismo.
Há uma mesa posta para o jantar. Convidados se levantam, cada qual amarra aos pés uma ponta da toalha, deslumbrados com tudo que construíram e destruíram. Caminham calmamente, puxam a toalha e, com ela, levam tudo que há. Taças se espatifam, pratos cheios de comida se quebram, mas não voltamos para arrumar a bagunça. Não podemos ouvir o som das coisas se quebrando às nossas costas. Não podemos sentir o cheiro da comida a se perder, nem perceber pelo tato a toalha atada aos nossos pés. Perdemos a conexão. Perdemos a capacidade de observar e aprender a partir do que não conhecemos, sem depender de crenças ou teorias.
Tudo em que acreditamos foi construído; é um castelo de cartas que se crê de concreto, porque é tangível. Mas é frágil, fútil, inútil. Não posso soprá-lo, pois tenho medo. Medo de perceber sua fragilidade, medo de encarar a minha própria, medo de me deparar com o nada, com o que não foi construído, com o que não conheço. Afasto-me dos pilares efêmeros do castelo, para perpetuar essa fraqueza. E assim nos movemos com cuidado, para não derrubar a estrutura que tanto nos esforçamos em manter, cegos para tudo que há além das paredes de papel.