quinta-feira, março 17, 2011

Cenário

Cenário
Manchado.
Cortina.
Névoa.

Maresia que pousa e repousa sobre as calçadas de Copacabana.
Brisa do mar, chicote de veludo no rosto, acalma-me a cruz.
O peso dos prédios, opostos ao mar, abaixo do céu.

Vai-se pondo o sol, vão-se acendendo os artifícios da noite.
Meus olhos distraídos, pousados sobre a maravilha das coisas,
reduzem o peso do fardo, da gravidade sobre os ombros, da seriedade da vida.
Alguns minutos de elasticidade, flexibilidade, irreverência.

Não...
Agora não é hora de dizer o que é nem o que deve ser feito.
Calem-se todos e ouçam o ruído de todas as coisas de agora.

Os acontecimentos se desenrolam eternamente, em repetição,
de veracidade impossível,
velocidade — um princípio absoluto.

O que não cala nos passeios dos entardeceres e amanheceres
é o desconforto que sinto diante deste mundo.
Estou delirando, com febre, doente, desconexa.

Assumo compromissos, me alimento com saúde,
por vezes deslizo, cuido das plantas, dos animais...
Ainda não há conforto.
Há confronto, de dentro para fora.

Não consigo me apegar, assim como quem salva uma vida.
Sinto-me solta, dispersa.
Por vezes, me agarro, sem forças para me fixar.

Que condição é essa?
Que cidade é essa que não me acolhe?
Que verdade é essa que não me convence?

Estou aqui, mas não pertenço a este lugar.
Luto uma guerra que não é minha,
partidos dos quais não faço parte.

Memórias do silêncio, do mar calmo e tranquilo,
de um céu de domingo,
de um beijo que o tempo apartou, que a vida levou.

Das noites de Natal,
uma luz se apagou,
outra se acendeu.

Então, me prove que ainda tenho a mim,
ao menos a mim,
que não me perdi,
e que já não é tarde.