terça-feira, junho 03, 2008

Monólogo da Árvore

Ah… Nós caímos...
Derrubaram-nos…
Não só a nós, mas tudo ao redor...
Ao longo de quilômetros, milhas de distância, ouço todas as outras caírem.
Deitam-nos ao chão, nos violentam e assim dão-nos utilidade.
Fazem de nós o que não somos.
Éramos seres vivos e nos converteram em matéria bruta.
Nosso reino fora subjugado ao reino destes.
No topo da cadeia alimentar, estão nossos algozes!
São eles, os detentores de poder do reino animal.
O homem, dito mais completo e perfeito organismo de seu reino, nos pisa como gigantes a caminhar sobre gravetos.
A grandeza de teus atos limita-se a si mesmos, mas os propósitos de suas ações ultrapassam quaisquer fronteiras.
No cume de sua genialidade destroem-se entre si.
Ministros da guerra.
Ceifadores funestos.
Semeadores estéreis.
Eu cá estou, não sendo eu e sim aquilo, em singelo monólogo farfalhando palavras ao léu.

quinta-feira, maio 29, 2008

É preciso experimentar

Experimentemos a mudança, pois só assim poderemos tocar outros corações.
Experimentemos nossas próprias invejas antes de alimentá-las.
Experimentemos nossas próprias ofensas antes de proferi-las.
Experimentemos nossos próprios julgamentos antes de julgar alguém.
Experimentemos nossas próprias ciladas antes de pensarmos naquelas que planejamos criar.
Experimentemos nossas próprias brutalidades antes de cometê-las sempre que nos convier.
Experimentemos nossas próprias falsidades para refletirmos se realmente queremos praticá-las.
Experimentemos nosso próprio veneno e decidamos se devemos expeli-lo ou não.

É preciso experimentar para saber se realmente iremos gostar e se, de fato, teremos prazer.
É preciso sofrer o que faremos os outros sofrerem.
É preciso sentir aquilo que faremos com que os outros sintam.
É preciso conhecer o mal que pretendemos perpetuar.

Mas também é preciso refletir sobre o bem que poderíamos propagar.
É preciso experimentar a gentileza que podemos oferecer.
É preciso experimentar a sinceridade que podemos demonstrar.
É preciso experimentar o carinho com o qual podemos presentear.
É preciso experimentar a doçura com a qual podemos cativar.

Que a vida esteja repleta de experiências, em oposição às teorias nas quais insistimos em acreditar.
Que esta vida se sobressaia à vida com a qual nos contentamos.
Que esta vida não seja um ensaio, mas um improviso.
Que esta vida não seja um plano, mas um repente.
Que esta vida seja vivida — e não apenas um ponto de partida.


terça-feira, maio 27, 2008

Réplicas Tétricas

Andam a seguir pessoas, e de longe a espreita, as veem como presas em potencial.
Tome direção à esquerda e lá estão eles.
Vire à direita e mais uma vez se depare com os mesmos.
Corra e na boca do lobo estarão.
Pelos corredores, escadas, elevadores, banheiros, nos odores dos ares farejam seus passos.
Observam afastados e no olhar sustentam o brilho do mal.
Seguem exalando energia nociva, trucidando reses.
Promovem o acaso, e ao cabo do caso escapam ilesos.
Por pouco não falam, grunhem sons grotescos.
Vibram horror, causam repulsa.
De suas peles, expelem suores sebosos emplastrados de medo e desalento.
Emitem vapores sulforosos em atmosfera subumana.
Suas vitórias são perdas de si.
Suas perdas são relatos anônimos.
Suas almas são censuras e tarjas, escuras e cruas.
Sua fome é réu primário.
Sua sede é Rei deposto.
Suas vidas são o reflexo do mundo como se passou a acreditar.
Seus fantasmas transcrevem traços fechando-nos em círculos anelares.
Seus corpos inanimados se animam por sopro cético.
Suas imagens são réplicas tétricas.

segunda-feira, maio 26, 2008

Dementes

Reles dementes,
Morrem suas mentes,
Passos cadentes,
Vontades pendentes,
Dores dormentes,
Sorrisos sofridos,
No peito se estampa a culpa,
Culpa da qual não tem culpa,
Caminha a sombra de impressões de que algo está errado,
Áspero anseio! O que será?
Poderia ser a chuva na janela,
As árvores na calçada,
A beleza morta nas flores do floricultor,
As luzes de natal,
O carro apressado que avança o sinal,
O silêncio da noite,
O nó na garganta,
Os ponteiros do relógio,
Os jornais que voam na ventania,
As notícias de ontem que se apagam em uma poça qualquer de hoje,
As palavras cruzadas,
A previsão do tempo,
A previsão dos signos,
O alinhamento dos astros,
Tolas crendices astrais, donas de um destino previsto, por elas lhe é devorado o futuro.
Deixe-os crer, mas não decidir no que acreditar.
O destino destina-se destemido e revela-se à luz do tempo!

quinta-feira, maio 15, 2008

Ígneo dragão

Assim que emergi, cuspindo todo o meu ser para fora, marcou-me o voo do dragão celeste.
Foi-se em meu primeiro suspiro de vida, desintegrando-me em átomos.

Dragão da alma, alma de dragão — a cada bater de asas, expelia fagulhas que se juntavam e incendiavam toda a minha vida.

Reza o tempo entre as contas do rosário — uma a uma — até que reste apenas a oração que recomeça.

Das trevas abissais arrasta-se a serpente.

Seu bote é infalível.

O veneno corre — e o combate se instaura.

Fecha-se o ciclo de Ouroboros.

No horizonte do combate, queimo o combustível da minha vida em incessantes golpes do destino; e, quanto mais ela se esvai, mais forte é o perfume da origem do ser.

Criadora na origem quando me manifesto, uno-me ao meu próprio corpo — celeste e físico — fazendo jorrar o sêmen fundador.

Sou o sol no ápice, no instante em que me preparo para governar o que criei.

Em meu corpo, ornado de escamas indestrutíveis, as criações se afirmam sem julgamento, até que sejam colocadas em xeque, conduzidas ao labirinto das escolhas.

Bem e mal, em linha tênue, desprendem combinações ambivalentes, cadenciadas em versos que canto ao panteão quimérico de deuses e demônios que em mim se manifestam — e me elevam ao ígneo dragão.


segunda-feira, maio 05, 2008

Realidade

Realidade, ó anarquia decrépita.
Expele verdades tal qual pus da ferida.
Descarada mentira estapeia-me a cara.
No correr do dia e ao cair da noite, se diz cumprir o segredo do sucesso!
Nada melhor que um jargão porcalhão!
A vida é uma festa, então pague o ingresso!
Todos a postos, meneia a multidão,
Contundida argamassa.
Certeza dos fatos, aprazível remédio.
Tecnologia em ascendência,
Miríade virtual.
Bem-vindos senhores e senhoras escancaram-se as portas,
Façam de vos nutritivo alimento,
Sinto cheiro de carne... Fareja o caçador.
Os ardis maquinários,
Ornam o espaço e a todos envolve em sutil perversão.
Tenazes sujeitos sujeitam-se ao fim,
O tempo urge em aguda distorção.
Homens formiga, débeis corpos cansados.
Desejos dragados,
Amálgama universal.
Colossal compressor,
Humanidade anônima.
Ardida chicotada.
Poderosa imagética, em esboço amador.

quarta-feira, abril 30, 2008

Abandono

Peço-te que me abandones, deixe-me viver e morrer na dor de não pertencer a ti.
Imploro-te para que estejas próximo, pretendo não perder-te de vista, porém não almejo ver-te nitidamente.
Contento-me apenas com tua sombra sorrateira, mas temo em breve isto não ser sustentável.
Coloco-me na transição entre os extremos.
A dúvida consome meu ato de decisão, estes minutos são finais e os próximos serão meu fim.
Deixe-me até que meus caminhos não mais cruzem os teus, até que a dor lacere meu peito e meus sentidos não mais sejam confiáveis.
Espera-me em planos secretos, onde minha existência consagrada de vida se deixa tomar por teus apelos.
Assim sendo irei para quem sabe um dia retornar novamente.