Assim que emergi, cuspindo todo o
meu ser para fora, marcou-me o voo do dragão celeste.
Foi-se em meu primeiro suspiro de vida, desintegrando-me em átomos.
Dragão da alma, alma de dragão —
a cada bater de asas, expelia fagulhas que se juntavam e incendiavam toda a
minha vida.
Reza o tempo entre as contas do
rosário — uma a uma — até que reste apenas a oração que recomeça.
Das trevas abissais arrasta-se a
serpente.
Seu bote é infalível.
O veneno corre — e o combate se
instaura.
Fecha-se o ciclo de Ouroboros.
No horizonte do combate, queimo o
combustível da minha vida em incessantes golpes do destino; e, quanto mais ela se
esvai, mais forte é o perfume da origem do ser.
Criadora na origem quando me
manifesto, uno-me ao meu próprio corpo — celeste e físico — fazendo jorrar o
sêmen fundador.
Sou o sol no ápice, no instante
em que me preparo para governar o que criei.
Em meu corpo, ornado de escamas
indestrutíveis, as criações se afirmam sem julgamento, até que sejam colocadas
em xeque, conduzidas ao labirinto das escolhas.
Bem e mal, em linha tênue,
desprendem combinações ambivalentes, cadenciadas em versos que canto ao panteão
quimérico de deuses e demônios que em mim se manifestam — e me elevam ao ígneo
dragão.