quinta-feira, maio 15, 2008

Ígneo dragão

Assim que emergi, cuspindo todo o meu ser para fora, marcou-me o voo do dragão celeste.
Foi-se em meu primeiro suspiro de vida, desintegrando-me em átomos.

Dragão da alma, alma de dragão — a cada bater de asas, expelia fagulhas que se juntavam e incendiavam toda a minha vida.

Reza o tempo entre as contas do rosário — uma a uma — até que reste apenas a oração que recomeça.

Das trevas abissais arrasta-se a serpente.

Seu bote é infalível.

O veneno corre — e o combate se instaura.

Fecha-se o ciclo de Ouroboros.

No horizonte do combate, queimo o combustível da minha vida em incessantes golpes do destino; e, quanto mais ela se esvai, mais forte é o perfume da origem do ser.

Criadora na origem quando me manifesto, uno-me ao meu próprio corpo — celeste e físico — fazendo jorrar o sêmen fundador.

Sou o sol no ápice, no instante em que me preparo para governar o que criei.

Em meu corpo, ornado de escamas indestrutíveis, as criações se afirmam sem julgamento, até que sejam colocadas em xeque, conduzidas ao labirinto das escolhas.

Bem e mal, em linha tênue, desprendem combinações ambivalentes, cadenciadas em versos que canto ao panteão quimérico de deuses e demônios que em mim se manifestam — e me elevam ao ígneo dragão.