O mundo se estreitou. Tudo parece ter se reduzido a uma polarização crua e exaustiva: o certo contra o errado, o meu sistema de crenças contra o resto do mundo. A dualidade foi levada ao extremo.
A globalização ampliou os horizontes do espaço físico, mas, por outro lado, encolheu nosso pensamento. Ficamos presos a uma lógica irracional: “é isso ou aquilo”, “quero tudo e não quero nada”. E assim, nosso mundinho, que corre freneticamente por rotinas caóticas e sem tempo, tornou-se estagnado e pequeno.
Vivemos afogados em novidades. A cada segundo, algo novo nos é empurrado. Mas, no fundo, nada realmente novo acontece. Apenas o velho de sempre, reciclado em formatos cada vez mais rasos, despejado com violência dentro de nós, como se fôssemos tubos vazios.
Resta-nos o despropósito. Uma busca incessante por encaixe em um cenário arruinado, que já não faz mais sentido.
E diante disso tudo, o mundo acabou?
Para alguns, talvez sim.
Mas eu ainda estou aqui. E enquanto estiver, ele não acabará. O sentimento esfriou, é verdade, mas ainda posso sentir. E se ainda há em mim essa emoção, é porque devem existir outros como eu. Sobreviventes do sentir em um tempo que anestesia.