quinta-feira, setembro 25, 2025

Rumo a Deus Sabe o Quê

Deixarei aqui minhas palavras
não ditas,
não lidas,
para assegurar que estive aqui:
neste mundo,
neste tempo,
neste espaço.

Como pegadas,
uma marca de que eu,
assim como qualquer um,
quem quer que seja,
fiz parte desta civilização,
desta humanidade.

Envolvi-me no coletivo das ideias,
dos fatos;
em meio aos acontecimentos,
eu também vivi
nesta incógnita que fui
e presenciei.

Devo dizer que busquei
incessantemente algo
que preenchesse o vazio
que engole todas as coisas ao redor.

Nele, me enredei
da superfície até o fundo;
na escuridão, forcei a vista
em busca de uma luz
que desesperadamente aspirei,
que me esclarecesse,
quem sabe me guiasse
rumo a Deus sabe o quê.

terça-feira, setembro 23, 2025

Para além de Sísifo

Nessa vida movida por clamores e expectativas, aquieto-me em busca de uma guia interna em quem possa confiar intimamente. Peço que me seja concedido discernimento diante das circunstâncias externas, para que eu possa optar pelo caminho além do cume de Sísifo — deixar rolar o peso da pedra, libertar-me da sobrecarga.

O ser humano tem trabalhado inutilmente em busca de controle sobre o fluxo natural da vida. Empenha grande esforço nisso, quando, na verdade, esse fluxo é incontrolável e está além de sua capacidade. Por simplesmente não aceitar seu destino, o homem busca redefini-lo de acordo com suas próprias vontades e permanece eternamente em um esforço vão, o qual não pode evitar, por não conseguir abrir mão de seus desejos, que o mantêm preso à ilusão de controle. Se o homem fosse capaz de deixar ir suas vontades, poderia crescer exponencialmente, impulsionado pelo fluxo natural.

Por mais vulnerável que esteja, um caolho ainda pode ver e um manco ainda pode andar. Mesmo feridos e quebrados, podemos seguir nosso caminho.

O mesmo vale quando nos sentimos fortes e poderosos; ainda assim, nossa capacidade depende de fatores externos, dos quais dependemos para expandir-nos e nos sustentar.

segunda-feira, setembro 22, 2025

Cata-vento

O assovio harmônico do vento pincela a paisagem.
Nela, ele dança e se infiltra,
percorre as brechas que encontra pelo caminho,
carrega o cheiro do vazio de todas as coisas,
sutil e invisível,
indo e vindo...

Arranca do peito um suspiro,
traz de longe uma flor,
leva um pedaço de papel,
faz girar o cata-vento que tenho na mão,
pousa no meu coração uma paz.

Fecho os olhos,
e ele me conduz
ao fluir natural da vida.

segunda-feira, agosto 25, 2025

Clã dos Desajustados

Uma gota de água salgada escorre lentamente pelo sulco do rosto, traçado pelo giz da tristeza. Julguei-me condenada a um sonho não realizado, cárcere privado da narrativa de mim.

Olho para a escuridão da minha casa e sinto a influência irresistível que me arrasta para o caos coletivo. O desconforto é o impulso de caminhar sem encontrar chão firme, como andar sobre pedras soltas em um caminho que se desfaz a cada passo.

Que tristezas e medos são esses que invadem minha alma? Sinto-os como olhos de lobo, brilhando na penumbra do tempo, observando cada movimento, cada hesitação.

O lamento nasce da sensação de incompletude, do vazio de não me sentir “em casa” em lugar algum. O pesar surge diante do risco da travessia: não saber se vou chegar, temer errar o passo, me perder antes da conclusão, tropeçar nas próprias sombras.

Movo-me por dentro, guiada pelo que faz sentido ao coração. Mas como avançar, se muitas vezes nem a ele escuto? Cada batida parece falar uma língua que preciso reaprender a decifrar.

A alma é ousada: lança-nos no abismo em busca de partes dispersas. A ferida chama a flecha que a reabre, apenas para finalmente se fechar. Arrisca, uma vez mais, a repetição. A pior ausência é a ausência de si: o eco que não se encontra em nenhum lugar, a sombra que me assombra.

Eu pertenço ao clã dos desajustados e desencaixados. Sou mutável, mas não moldável. Minhas mãos não conseguem reter nem conter a essência que me escapa como éter. E ainda assim, continuo a caminhar, recolhendo fragmentos de mim, sigo me perdendo para me encontrar.

domingo, agosto 24, 2025

Dádiva oculta

Um ramalhete de flores artificiais repousa num vaso trincado.
Eis a chance de receber nutrição verdadeira e florescer.

O fluxo da vida se move em mutações,
entre linhas firmes e maleáveis,
na dança secreta entre céu, terra e humanos.

O recipiente está rachado, a chuva demora,
o alimento ainda não é consumido —
mas a sinceridade pode nutrir mesmo assim.

O peso das aparências impede que o alimento alcance a boca,
mas a fragilidade não nega sua função:
o vaso guarda, transforma, transmite.
Não é perfeito, mas contém.

O valor não está na forma, mas no que se oferece através dela.
É na imperfeição que se abre a possibilidade da transmutação.
Se for verdadeiro, o vaso suportará, mesmo trincado.

As flores que você coloca nutrem… ou apenas enfeitam?
Para que as raízes alcancem a dádiva dos céus,
o solo precisa receber a chuva
e oferecer à vida apenas o que é real.

sábado, agosto 23, 2025

O abismal

Emerge à superfície
o espírito da profundidade.
É o fluxo da vida.

Não falo aos que se afundaram,
mas aos que mergulharam.

As águas, que afogam ou que fluem,
são as mesmas:
o destino depende de quem nelas
se aventura ou se perde.

quinta-feira, agosto 21, 2025

Ao que você se alinha?

Muito cuidado com os vínculos que escolhe,
com as vozes que decide escutar.
Você já se perguntou, com sinceridade,
de que lado está?

Vivemos na superfície das coisas,
arrastados por narrativas que aceitamos
sem jamais questionar.
Chamamos de caos o que talvez seja apenas
um quebra-cabeças oculto,
um desenho maior
que nos atrai e nos domina.

Por que nos sentimos atraídos
justamente pelo que nos fere?
A ferida que ainda sangra
e que não sabemos curar
é também a que nos prende.

Nossa energia é alimento.
A quem você escolhe nutrir?
Ao que fortalece ou ao que enfraquece?
Toda vez que se rende à narrativa do medo,
entrega seu poder a algo fora de si.
Toda vez que toma as rédeas de sua história,
recupera a força que lhe pertence.

Todas as vezes que escolho acreditar e seguir
aquilo que me tira as forças,
viro as costas para mim mesma
e acabo nutrindo justamente o que acredito combater,
relegando-me ao papel de vítima das circunstâncias
que me aprisionam e me lançam à miséria.
Ao agir assim, minha fundação se desfaz
e a casa desaba em ruínas.

Mas as ruínas não devem provocar desespero:
são a abertura para que algo verdadeiro floresça.
A reconstrução sobre novas bases não acontece de imediato,
nem se impõe pela violência ou pela força,
mas pela suavidade e pela assimilação gradual.

É preciso permitir que esse algo amadureça dentro de mim,
deixando que as camadas que já não servem
se desprendam naturalmente.
Para poder oferecer,
é necessário também aprender a receber.

Então eu lhe pergunto outra vez:
ao que você se alinha?
À escassez, ao pânico, à impotência e manipulação?
Ou à paz, à potência, ao poder que é só seu?

A escolha não é um partido,
nem uma bandeira.
A escolha é o que você perpetua.
Você é arauto do medo
ou mensageiro da força?