segunda-feira, agosto 25, 2025

Clã dos Desajustados

Uma gota de água salgada escorre lentamente pelo sulco do rosto, traçado pelo giz da tristeza. Julguei-me condenada a um sonho não realizado, cárcere privado da narrativa de mim.

Olho para a escuridão da minha casa e sinto a influência irresistível que me arrasta para o caos coletivo. O desconforto é o impulso de caminhar sem encontrar chão firme, como andar sobre pedras soltas em um caminho que se desfaz a cada passo.

Que tristezas e medos são esses que invadem minha alma? Sinto-os como olhos de lobo, brilhando na penumbra do tempo, observando cada movimento, cada hesitação.

O lamento nasce da sensação de incompletude, do vazio de não me sentir “em casa” em lugar algum. O pesar surge diante do risco da travessia: não saber se vou chegar, temer errar o passo, me perder antes da conclusão, tropeçar nas próprias sombras.

Movo-me por dentro, guiada pelo que faz sentido ao coração. Mas como avançar, se muitas vezes nem a ele escuto? Cada batida parece falar uma língua que preciso reaprender a decifrar.

A alma é ousada: lança-nos no abismo em busca de partes dispersas. A ferida chama a flecha que a reabre, apenas para finalmente se fechar. Arrisca, uma vez mais, a repetição. A pior ausência é a ausência de si: o eco que não se encontra em nenhum lugar, a sombra que me assombra.

Eu pertenço ao clã dos desajustados e desencaixados. Sou mutável, mas não moldável. Minhas mãos não conseguem reter nem conter a essência que me escapa como éter. E ainda assim, continuo a caminhar, recolhendo fragmentos de mim, sigo me perdendo para me encontrar.