quarta-feira, junho 18, 2025

Peça solta

Quando minha presença me parece inadequada e as vestes da alma não caem bem no corpo que habito, visto-me com a capa da invisibilidade, ocultando-me para me proteger, num gesto antigo de sobrevivência.
Isso me pesa. Gera uma sensação perene de não pertencimento.
Todo ser está fadado ao desejo de pertencer, a um grupo, um lar, uma espécie, como se disso dependesse sua identidade.
Eu me pergunto, em silêncio: será que posso passar? Tenho permissão?
Peço permissão para cruzar os limites, mas os limites de quem?
Vejo que o pedido era interno, era meu. Nesse pedido moravam motivos que me escapavam à consciência.
Agarrada ao desejo inconsciente de fazer parte de um todo, fiz-me em pedaços, fragmentos.
Quero sair da caixa dos quebra-cabeças, essas peças soltas à procura de encaixe, cansadas de se moldar ao espaço que lhes cabe.
Desejo me desvincular do eterno não encaixe, respirar fundo e ocupar o meu próprio espaço.
Ter em mim meu pertencimento. Carregar em mim a minha própria casa e vagar mundo afora, com raízes nas palavras que me expressam.
Mas como me desconectar para, enfim, me conectar?
Um dos maiores medos do ser humano não é somente a morte, mas a rejeição, pois ela lhe parece uma ferida que mata em vida.
Tamanha é sua força que leva as pessoas a cruzarem seus próprios limites inúmeras vezes em busca da aprovação alheia.
Esse movimento mata lentamente, como um veneno de efeito prolongado, corroendo o ser até o completo desaparecimento de sua essência, tornando-o uma massa disforme e moldável pela coletividade.
Nessa dor, encontra um pertencimento, um falso abrigo no vazio de todos.
O medo visceral do olhar alheio, do julgamento e do pensar do outro carrega em si o desejo de controlar a imagem que o indivíduo criou de si mesmo para o mundo, controlar a forma como é visto, a fim de ser aceito e aplaudido.

terça-feira, junho 17, 2025

O olhar que atravessa

Todos os papéis que projetamos sobre os outros provêm de personagens que existem em nós mesmos. Trazemos em nós todos os vilões que desmascaramos, todas as vítimas das quais nos diferenciamos, todos os omissos que julgamos, todos os heróis que admiramos e todos os mistérios que não desvendamos.

O palco da vida se constrói sobre nossa própria estrutura elevada, projetada para as apresentações dos personagens que criamos a partir da ideia que fazemos dos outros. Roteirista e audiência são um só ser, guiado pela luz da consciência que projeta sombras em seu entorno, materializadas no outro.

O observador é também o observado. O olho que tudo vê é o mesmo olho que vê a si mesmo. Todo conteúdo expresso em nossas falas é autoexpressão de nossas personas ocultas, reflexo do olhar romantizado que temos de nossa autoimagem, na qual vislumbramos uma perfeição idealizada.

Atuamos como personagens controlados, cumprindo papéis e roteiros impostos por uma mão oculta, superior à nossa própria vontade. Peças que somos neste jogo da vida, somos também os senhores de nossos passos dentro do tabuleiro forjado.

Que força misteriosa é essa que projeta sobre nós um sinal, transmitido e recebido, conectando-nos a esta imensa rede de dados coletivos da humanidade, que nos molda?

Resta-nos o árduo caminho da pergunta, da interrogação e da recusa à mera mansidão. Somos frutos de nossas próprias emanações mentais, espelhos, antenas transmissoras e receptoras de sinais que ressoam na frequência em que vibramos.

A manifestação não se dá pelo que é justo, mas pelo que é necessário. Em pura expressão de um sadismo existencial, materializamos o sofrimento e perpetuamos pesadelos.

O propósito se projeta em sinais longínquos, numa travessia calada, de baixa visibilidade, envolta por um nevoeiro impossível de se desenhar em matéria. Está distante do toque, tal qual um navio que não tomamos a tempo e que se afasta no horizonte de nossas vidas. É aquele que nunca alcançamos, fantasia de promessas que não se cumprem.

Não é um olhar que projeta, mas que atravessa.

segunda-feira, junho 16, 2025

Anatomia do pranto

Na ânsia de entender o choro,
procurei o formato exato das lágrimas:
sua origem fisiológica,
desencadeada por razões que a razão não alcança,
classificadas em funções, divididas em moldes.

Mas o pranto
pertence ao terreno da não-fisicalidade,
à invisibilidade que deságua em materialidade.

Para tudo, há de se ter um porquê —
uma tentativa de encaixar o éter das emoções
nas caixas do intelecto,
mensurar o indizível, torná-lo tangível.

Tentando entender,
perdi o tino para sentir.

domingo, junho 15, 2025

À Porta

Permaneço sempre à porta,
na soleira.
Pés fincados no chão —
estacas cravadas,
firmes, imóveis.

Dos olhos,
expectativa,
carregados de futuros que não chegam,
jorrando angústias
infinitas.

Na garganta,
a voz engasga,
choro engolido,
sufocado.

No peito,
o peso do laço —
novelo embolado,
com pontas soltas
e perdidas.

Na boca do estômago,
dor funda que perfura,
ferida aberta,
ácida,
corrosiva.

Na mente,
pensamento insistente,
permanente.

Mato-me silenciosamente,
pesando sobre mim o castigo
que evito sofrer
pela mão alheia.

Controlo eu mesma
minha dor e julgamento.

Finalizo a ilusão que comecei,
esticando-a ao infinito,
em meu papel
de vítima...
e algoz
de minha própria vida.

sábado, junho 14, 2025

Olhares que se encontram

Acostumados a olhar em volta, ao redor, com o olhar fragmentado em quantidade: de pessoas, coisas ou de pessoas coisificadas. Um olhar distante, perdido, esvaziado na multidão. Oculto por trás das telas, sem o desconforto de ser olhado, por medo de que se perceba o desejo de ser notado. Ambiguidade que nos fragmenta na ânsia de atrair o olhar do qual tanto nos esquivamos. Jogo de gato e rato.

Mas há o olhar que mira nos olhos de uma só pessoa, mergulha fundo e parece invadir os limites que erguemos contra o outro. Esse olhar incomoda, porque não apenas olha, ele enxerga. Vê o que tentamos esconder e maquiar. Ele desarma e atinge a alma.

Olhos que devoram um ser por inteiro e se mantêm no nível dos olhos que os sustentam, num ato misto de coragem e entrega. Estou olhando para a sua verdade, e é ela que o torna ainda mais bonito.

O meu sentir olha para o seu, e, ao ser compartilhado, atrai-nos mutuamente como ímãs que se arrastam para perto. Este é o movimento de aproximação de dois universos que se orbitam.

sexta-feira, junho 13, 2025

Você que em mim habita

A parceria mais honesta que podemos firmar é com nós mesmos. Não é a única, mas é a principal e nela reside a base da expansão da consciência.

Esse movimento não é uma fuga para fora, mas um retorno para dentro. Ao abrir espaços internos antes ignorados, deixamos de ser cegos de nós para, então, enxergar o outro sem projetar nossas carências.

Partimos de nós em direção ao mundo, moldados pela teia coletiva. Mas à medida que vivemos e refletimos, iniciamos o caminho de volta — árduo, mas inevitável para quem desperta como autor e ator no palco da vida.

Na busca, que é já o encontro, misturamos olhares, nos reconhecemos no outro e permitimos que ele habite os espaços que abrimos em nós. Atravessamos juntos as camadas que nos formam.

O outro entra como um eco da nossa consciência, trazendo à tona o que estava submerso. Meu olhar encontra o seu no espelho da humanidade e juntos, seguimos, lado a lado.

Podemos habitar, por instantes, as histórias uns dos outros, sem nos perder nelas, apenas fluindo no rio da vida, em comunhão entre consciências. Compreendemos, então, que toda realidade nasce do olhar que a observa e que nenhuma visão é definitiva.

A percepção se expande como eco interior, revelando o invisível. São lentes, espelhos, amplificadores da consciência.

Eu sou você que em mim habita. E me reconheço quando experimento você. Caminhamos juntos: você, ao se revelar; eu, ao responder.
Você é você, mesmo sendo eu.

quarta-feira, junho 11, 2025

Onde moro

Vestir-se de si é a indumentária certeira,
mas tornou-se a mais desconfortável,
pois nosso olhar se volta apenas para fora,
sempre além do que sou,
e se perde no querer ser.
Talvez o que eu verdadeiramente queira
seja ter-me como morada — e não o exílio de mim.