quinta-feira, abril 24, 2025

Poema a ferro e fogo

Minha ancestralidade herdou dores
que não puderam ser expressas.

Feridas de sangue,
vertido em silêncio.

De onde falo, a voz me escapa —
ecoa como um coro
daqueles que se calaram.

Do coração corre o calor e a dor
do sangue retido.

Dos olhos, escorre o frio
da tristeza que oprime.

Meu sangue tem gosto de ferro.
Pensei ser feita de ferro.

Eles quiseram falar.
E eu os deixei falar.

Eles quiseram chorar.
E eu os deixei chorar.

Como tirar a venda dos olhos?
Como baixar as espadas que herdei?

Corta-me a contradição:
não ser parte de nada,
mas querer, com todas as forças,
fazer parte de tudo —
e assim, não ser nada.

Sobre isso,
não posso passar por cima.
Passo por dentro.

Entrego minha vida
ao fogo da criação.

Deixem-me passar —
eu preciso caminhar.

Dou corpo à memória dos esquecidos.
Dou voz aos silêncios dos ignorados.

Transformo as chagas em oferendas
aos que se foram.

Não sou o fim da dor,
mas o início da libertação.

Posso lançar esta dor ao fogo?
Sim.

E dela fazer criação.

O que antes era peso
será agora fundação.

Nossos olhos miram terras
que ainda não pisamos.

Não aguardo o sinal.

Sou eu o sinal.

quarta-feira, abril 23, 2025

Entre Linhas

Há quem pegue meus livros e exclame:
— “Nossa, você os marca? Que dó!”
Mas dó tenho eu de quem os lê em silêncio,
sem ousar deixar um traço, um suspiro, uma cor.

Se o livro me atravessa e me marca a alma,
por que não posso eu, com minhas mãos, marcá-lo também?

Ler não é apenas mirar palavras com os olhos —
é sinergia, encontro, faísca entre mentes.
É troca de ideias, de vivências, de sentires.
É conversa sussurrada nas margens,
é discussão entre linhas,
é aprendizado que respira e inspira.

Os livros têm vida.
E merecem ser tocados.
E esse toque deixa marcas.

domingo, abril 20, 2025

Tu és aquilo que mais temes, o que mais evitas — e ainda assim, não podes fugir de ti. És criação e destruição de si mesmo, em eterna transmutação.

sábado, abril 19, 2025

Humana

Olho rostos desconhecidos
como quem contempla uma pintura:
artista invisível que tanto me inspira,
autor de inúmeras obras.

Desenha formas infinitas
que dão vida à minha imaginação —
traços humanos que ilustram
minha inspiração abstrata.

Sou demasiado humana —
peço perdão por buscar tangibilidade no amor.
Mas é humana a voz que materializa meus pensamentos,
é de carne o meu entendimento,
é sanguíneo o fluxo de minhas ideias.

Estou atada à perspectiva da minha natureza,
fadada à minha condição.
Por mais que eu busque compreensão no que está além,
me encontro, inevitavelmente, inserida
na humanidade que me forma.

Escapam-me realidades acima
da mortalidade que me define.
Peço perdão pela dualidade
que me significa diante das coisas.

Realizar a travessia
só me parece possível
por meio do espírito que anima esse corpo,
distante das barreiras materiais
deste mundo tridimensional.

sexta-feira, abril 18, 2025

Realidade virtual

O mundo virtual se assemelha a um oceano, com movimentos de ir e vir das ondas.
A todo momento, uma nova onda quebra na praia —
mas, no fundo, é feita da mesma água que não sacia a sede.

Nos permitimos apenas a superfície,
onde todos se encontram,
mas ninguém se vê,
com medo de nos afogarmos nas profundezas do esquecimento.

Casas vazias

Ficamos ausentes de nós mesmos.
Somos como casas cujas fachadas impressionam de tão lindas,
mas que, por dentro, são vazias, impessoais e desabitadas —
meros caixotes vendáveis, padronizados.

Não se encontra calor humano.
Tudo tem se tornado apenas inúmeras imagens,
representações de um ideal impossível de alcançar.

Quando alguém ousa realizar, na prática, essa fantasia vendida,
percebe que tudo não passa de um sonho,
e a verdade se torna difícil de suportar.

Então fugimos, outra vez,
para o abrigo confortável das telas, 
onde as quimeras são possíveis — ao menos na imaginação.

Mundo das mentes que projetam,
mas nunca realizam.

Estrutura secreta da colmeia

Muito do que acredito ser
é resultado da influência que sofro do inconsciente coletivo.
Quanto mais mergulho no meu próprio inconsciente,
repleto de tudo e de todos,
contendo todos os tempos,
cheio de luz e sombras,
mais me surpreendo e me deslumbro
com as imagens do que realmente sou
e do que acho que sou,
mescladas em um espelho
que me revela inúmeras faces
de uma mesma pessoa.

Abelha que sou,
parte do zumbido ancestral,
saboreio o mel a meu modo
e, ainda assim, habito a colmeia.
Voo — e pouso — solo.