quinta-feira, abril 24, 2025

Poema a ferro e fogo

Minha ancestralidade herdou dores
que não puderam ser expressas.

Feridas de sangue,
vertido em silêncio.

De onde falo, a voz me escapa —
ecoa como um coro
daqueles que se calaram.

Do coração corre o calor e a dor
do sangue retido.

Dos olhos, escorre o frio
da tristeza que oprime.

Meu sangue tem gosto de ferro.
Pensei ser feita de ferro.

Eles quiseram falar.
E eu os deixei falar.

Eles quiseram chorar.
E eu os deixei chorar.

Como tirar a venda dos olhos?
Como baixar as espadas que herdei?

Corta-me a contradição:
não ser parte de nada,
mas querer, com todas as forças,
fazer parte de tudo —
e assim, não ser nada.

Sobre isso,
não posso passar por cima.
Passo por dentro.

Entrego minha vida
ao fogo da criação.

Deixem-me passar —
eu preciso caminhar.

Dou corpo à memória dos esquecidos.
Dou voz aos silêncios dos ignorados.

Transformo as chagas em oferendas
aos que se foram.

Não sou o fim da dor,
mas o início da libertação.

Posso lançar esta dor ao fogo?
Sim.

E dela fazer criação.

O que antes era peso
será agora fundação.

Nossos olhos miram terras
que ainda não pisamos.

Não aguardo o sinal.

Sou eu o sinal.