quarta-feira, abril 06, 2011

A seriedade que não sou

Saudades das aventuras da infância
Da espontaneidade adolescente

Eu que nunca fui fiel escudeira das regras
Nem nunca estive a par dos métodos

O sistema foi aos poucos apagando a luz e
Com os sopros das velas dos aniversários,
Foi se extinguindo as chamas do meu coração

Foi então que comecei a morrer,
A sumir,
A deixar e
Hoje no espelho reflete a seriedade que não sou

Não sou séria
Tampouco levo a sério este mundo
Nem me importo com o que a vida reserva

No fundo sabemos o que será,
Não é mágica, é óbvio
É previsível e está tudo dentro dos esquemas do sistema

Mas eu finjo que espero
Finjo que não sei e que aceito
Me calo, abaixo a cabeça e engulo

E como todos, entro na fila para lugar nenhum.

quarta-feira, março 30, 2011

Do que aprendi com os cães, do que não aprendi nos livros, na escola e na televisão.

Me sinto perdida. Acho que talvez seja a primeira vez que estou olhando realmente para o cão — digo, para um cão como ele é, e não como eu penso que seja. Às vezes erro nas minhas interpretações, racionalizo, baseio-me em emoções puramente humanas que não pertencem à realidade dos animais. É como caminhar em um campo desconhecido, um mundo novo, diferente. E, por vezes, tenho tanta dificuldade de andar por ele. Tenho muito a aprender com os cães, pois eles atravessam nosso mundo todos os dias. Muitas vezes ficam confusos, perdidos, incapazes de compreender — e não poderiam, porque o mundo humano se tornou tão complexo. Ainda assim, parecem sempre dispostos a aprender quando nos dispomos a ensiná-los.

Se soubéssemos como é maravilhoso aprender não apenas com a raça humana, mas com toda forma de vida existente, talvez nos comunicaríamos de verdade, sem o egoísmo e o isolamento em que nos aprisionamos. A vida no planeta não cabe somente a nós; cabe a todos os seres. Mas agimos como se somente nós tivéssemos o direito de decidir quem deve ou não permanecer. Estamos a criar “a morte do nascimento”.

É a angústia de uma sociedade desconectada de todas as coisas. A cada passo, distancia-se mais, fechando-se dentro de um casulo intrincado de ideias, crenças, relações financeiras, redes sociais… Estamos tão acima de tudo que quase não podemos enxergar, perceber o que há ao redor, sentir o que acontece.

É difícil compreender por si mesmo, observar algo sem ser guiado. O pensamento está preso às teorias construídas, às propagandas que nos invadem, ao que nos ensinaram a acreditar, às verdades de hoje e mentiras de amanhã, ao que nos dizem para crer.

Senhores, não somos roubados. Não, não somos violados.
Senhores, estamos entregues, rendidos, conquistados, arrebatados, arrebanhados. Caminhamos docilmente, pacificamente entorpecidos, rumo à destruição, rumo ao abismo.

Há uma mesa posta para o jantar. Convidados se levantam, cada qual amarra aos pés uma ponta da toalha, deslumbrados com tudo que construíram e destruíram. Caminham calmamente, puxam a toalha e, com ela, levam tudo que há. Taças se espatifam, pratos cheios de comida se quebram, mas não voltamos para arrumar a bagunça. Não podemos ouvir o som das coisas se quebrando às nossas costas. Não podemos sentir o cheiro da comida a se perder, nem perceber pelo tato a toalha atada aos nossos pés. Perdemos a conexão. Perdemos a capacidade de observar e aprender a partir do que não conhecemos, sem depender de crenças ou teorias.

Tudo em que acreditamos foi construído; é um castelo de cartas que se crê de concreto, porque é tangível. Mas é frágil, fútil, inútil. Não posso soprá-lo, pois tenho medo. Medo de perceber sua fragilidade, medo de encarar a minha própria, medo de me deparar com o nada, com o que não foi construído, com o que não conheço. Afasto-me dos pilares efêmeros do castelo, para perpetuar essa fraqueza. E assim nos movemos com cuidado, para não derrubar a estrutura que tanto nos esforçamos em manter, cegos para tudo que há além das paredes de papel.

quinta-feira, março 17, 2011

Cenário

Cenário
Manchado.
Cortina.
Névoa.

Maresia que pousa e repousa sobre as calçadas de Copacabana.
Brisa do mar, chicote de veludo no rosto, acalma-me a cruz.
O peso dos prédios, opostos ao mar, abaixo do céu.

Vai-se pondo o sol, vão-se acendendo os artifícios da noite.
Meus olhos distraídos, pousados sobre a maravilha das coisas,
reduzem o peso do fardo, da gravidade sobre os ombros, da seriedade da vida.
Alguns minutos de elasticidade, flexibilidade, irreverência.

Não...
Agora não é hora de dizer o que é nem o que deve ser feito.
Calem-se todos e ouçam o ruído de todas as coisas de agora.

Os acontecimentos se desenrolam eternamente, em repetição,
de veracidade impossível,
velocidade — um princípio absoluto.

O que não cala nos passeios dos entardeceres e amanheceres
é o desconforto que sinto diante deste mundo.
Estou delirando, com febre, doente, desconexa.

Assumo compromissos, me alimento com saúde,
por vezes deslizo, cuido das plantas, dos animais...
Ainda não há conforto.
Há confronto, de dentro para fora.

Não consigo me apegar, assim como quem salva uma vida.
Sinto-me solta, dispersa.
Por vezes, me agarro, sem forças para me fixar.

Que condição é essa?
Que cidade é essa que não me acolhe?
Que verdade é essa que não me convence?

Estou aqui, mas não pertenço a este lugar.
Luto uma guerra que não é minha,
partidos dos quais não faço parte.

Memórias do silêncio, do mar calmo e tranquilo,
de um céu de domingo,
de um beijo que o tempo apartou, que a vida levou.

Das noites de Natal,
uma luz se apagou,
outra se acendeu.

Então, me prove que ainda tenho a mim,
ao menos a mim,
que não me perdi,
e que já não é tarde.


quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Um encontro

Perder um amigo é uma dor sem igual
Me lembro ter imaginado uma ausência perene,
Sonhava uma dor suave, amainada pelo passar do tempo
Foi-se aos poucos se dissolvendo uma imagem embrutecida pelas novidades
Falta de juízo total, diamante secreto da exclusividade
As lágrimas, notas tortas de um piano desafinado, puro desajeito das mãos estúpidas de um velho escritor
Juramos eternidade sem nada dizer,
Tamanha sinceridade não exige memória,
Nada, um sentido guardado numa caixa de madeira
Tudo, um sentimento descolado do tempo, da fama e do nome
Renovado pedido, faz minh'alma te chamar mais para perto
Aquece meu lar, tens outro nome, outra face, outra alma
Mas se entre ambos um mundo, um abismo de diferenças, aqui entre particularidades, generalidades, vem pairando acima essa forma, esse sopro, vida a nos animar a todos,
Não há de ser meramente humano esse som, essa força que nos move
Há de ser tudo o que há
Para fora e para dentro. Um encontro.

quarta-feira, janeiro 19, 2011

Desculpe-me

Desculpe-me não dizer
Prometi ligar, mas não liguei
Prometi voltar, mas não voltei
Prometi escrever, mas não escrevi
Destinos, promessas, esperanças firmadas em aparências
Cumpro o silêncio que me deixa calar
A expressão do desejo se reflete na presença desnecessária das palavras
Desculpe-me não dizer.
O não manifesto das palavras se insurge contra a oratória que prova
Imputa ânimo naquele que escuta, vence ou convence.
O que preciso eu dizer ao ego que me ouve
Esclarecer, amanhecer sobre mim explicações imprecisas
Há fenômenos sobre os quais prefiro nada dizer
Há que se cumprir algo além de palavras
Seja sorte, sina a sair do ventre, nascer do ovo
A manar de si e inundar tudo o que há

sábado, outubro 23, 2010

Mil anos luz

Não preciso de nada...
Nada que me faça sentir que anos a fio irei viver
Décadas, séculos adiante...
Sou transitória, eterna
Não dói a idéia de que a morte segue
Dói-me a brevidade que me expõe à dureza das coisas
De uma cor que desbota
De um rosto que desvanece
De uma memória que se apaga
Uma verdade digna de morte
Um espaço entre coisas
Quem vai segue adiante
Uma nota que toca
Concisa e precisa
Digo: Fique e permaneça
Sussuro: Vá e desvaneça
Essa sílaba, divisa entre consoantes e vogais
Uma alma entre mil mundos
Um ruído do tempo, do agora
Afora há sempre um amanhã
Tantos que nem sei quantos
Não há tempo nem espaço que se nos possa limitar
Estou partindo
Por vezes fugindo
Mas estou chegando
Aos poucos
Num raio de mil anos luz

sábado, setembro 25, 2010

Eu ouço

Eu ouço as pessoas falarem comigo
Me aconselhando, me guiando, me alertando, me confortando
Me sinto por vezes perdida em meio a tantas palavras
Deus me perdoe ser ingrata em relação àqueles que ofertam ajuda
Não é isso o que acontece
Agradeço a cada segundo, pela sorte que tenho
Pela maravilha de trilhar um caminho rodeado pelas pessoas que me cercam
Poderiam acreditar em qualquer coisa, existem milhares de escolhas
E em meio a tantas escolhas, optaram por acreditar nesse eu a que me propus representar
E eu a medida que ouvia, acenava positivamente com a cabeça sem nada dizer
Todos me pareciam estar certos, mas aos poucos fui começando a perceber um pequeno buraco dentro de mim
A sensação de que alguma coisa faltava ali, faltava uma voz
Uma voz que quase não ouvia
É como uma fratura
As vezes temo que me perguntem minha opinião
O que você acha disso? O que você quer? O que você tem em mente? Quais são seus objetivos? Onde pretende chegar?
E eu então não saber responder
Ha que se ter uma resposta
Eu percebi que não tenho voz
Não me sinto presente
Estou na água, boiando, boiando...
As águas foram passando, foram me levando e eu fui deixando, deixando...
Todos parecem nadar em alguma direção
As vezes nado para um lado, as vezes para outro
Em alguns vejo algo maravilhoso, vejo uma luz intensa, vejo obstinação
Vejo um objetivo certeiro, um dom quase inato, uma saciedade
Paro para olhar, admirar e então eles se vão no horizonte a nadar
Eu só consigo escrever
Meras palavras
Não consigo falar
Minha voz não tem som
Eu queria saber falar
Por Deus! Não consigo externar
Não consigo ser, nem refletir
Eu só me afogo em meio a esse mar de coisas e mais coisas
Uma alma que se assusta diante de si mesma
Que não consegue se agarrar a nada, são apenas naufrágios
Vou absorvendo um pouco de cada um, um pouquinho daqui, um pouquinho dali
Vou engolindo a água que me dão para beber, para preencher o buraco plantado aqui dentro
Todos têm algo a dizer, a afirmar, então paro para ouvir e muito me admira não poder nada dizer
Estava eu certo dia a caminhar em meio às luzes dos postes, dos faróis dos carros, das vozes das pessoas na rua, dos passos dos apressados, dos atrasados, então olhei para o céu em busca de algo acima de nossas cabeças ocupadas, atarefadas
E vi que a lua estava cheia, brilhava um amarelo alaranjado e então meu coração acalmou e dentro dele surgiu um chamado, uma voz que a muito não se manifestava, soterrada em meio a tantas estruturas
Essa voz era a minha própria, por Deus! Ela dizia para seguir no horizonte rumo a lua que brilhava, eternamente rumo a luz tão distante no céu, incessantemente rumo a ela
Ela seguia dizendo: Não há cansaço que impeça você de um dia chegar, de um dia alcançar, de um dia encontrar essa luz que lhe parece tão distante, tão impossível...
A luz mais distante do céu me alcançou, e então quem sabe um dia possa você alcançá-la e ao seu lado caminhar na eternidade livre de tempo, livre de espaço, livre de mim
Possa caminhar no infinito desta luz, rumo ao desconhecido, rumo ao impossível, sem nada esperar, nem saber, nem conhecer, sem nada dizer, apenas se abrir, receber, se entregar, se expandir, apenas ser nada que se possa definir, apenas existir silenciosamente nesta imensidão.