sexta-feira, abril 09, 2010

Monólogos

Pois que gosto de dizer,
palestrar, monologar.

Ao espelho, quase nada relato,
pois sei que naquele rosto,
repleto de tantas expressões
— não aquelas do dia a dia,
do tratamento alheio e bem dizer —
reflete um sorriso secreto,
careta malcriada,
um espanto,
um concorde,
uma tristeza distante,
uma angústia vibrante.

Quantas surpresas há na haste dessas sobrancelhas,
conquistas e perdas no canto desses olhos,
fundos, negros pântanos.

Quanto tempo! Finas linhas a sulcar,
fendas por onde correm lágrimas
de dor e júbilo,
tão caras e raras.

Tantas são as caras,
as máscaras,
as almas.

Disto, daquilo...
Enxergar um só reflexo
seria-me um sacrifício
nessa minha sina
de rostos em catarata.


segunda-feira, abril 05, 2010

Hoje

Hoje estou pacífica
Hoje eu aceito
Hoje eu entrego

Não resisto, nem me oponho
Pelo fluxo de indução que atravessa
O céu de hoje que despenca sobre minha cabeça

Hoje brilha uma lanterna silente, paciente
Um abraço de paz
Rara harmonia do dia e do tempo

segunda-feira, março 29, 2010

Sonhar

Um sono absoluto vem, de quando em vez,
Me chamar, me pedir
Para soltar,
Deixar cair,

Na claridade do amanhecer,
Dos cabelos que, soprados,
Se arrastam pelo meu rosto,
Me impedem as mãos de buscar amparo.

Meus olhos perdidos, eternamente, brevemente,
Os pensamentos... Que paraíso sonhar!
Deixar ser a vida, aquela que circula nos pulsos,
No coração, sangue que comprime, exprime.

Dos olhos, lágrimas — sem dor, sem mais.
Sutil e sensível, a mais bela parte do dia,
Daqueles, desses dias, despidos de artifícios,
Em que o corpo consente em existir,
Assim como qualquer outro ser.

sexta-feira, março 19, 2010

Pedras

Preciso de alguma leveza
Tudo são pedras,
Cálculos e concreções

As falas forjadas
Cobranças
Estanques

As paredes são grades
As grades espíritos
Figuras pintadas

O silêncio...
O silêncio das horas que passam
Do desejo que esmorece

Cresce, evolui a luta
A vontade se adianta e
Recua o impulso iônico do mar

quarta-feira, março 17, 2010

Cicatriz

Cicatriz,
Corta um veio nas costas
Sulcadas de dor

Marcas,
De um Paraíso opressor
Tirania selvagem

Seu,
Meu,
Deus,

Demônio pagão
Deserto de sal
Ferve e serve

Sílabas,
escassas, secas
Fonte servil

Meu corpo guarda um silêncio infinito de não ditos
Uma ânsia de querer falar e se calar

Um trago, um rasgo
Afago de paixões vilãs

quinta-feira, março 11, 2010

Sonho doce

Como os sonhos são doces.
Escapam às barreias da vida e morte
Realizam o encontro impossível entre o ir e vir
Entre quem ficou e quem se foi
Sopram longe os agouros lúgubres
Num frescor primaveril de um eterno reviver
O acordar, só me deixa vestígios, fragmentos
Uma memória presente, consciente de seu meio tom desgastado,
Passado que se reconstrói continuamente em meu coração
Ciente de que vem a morte, mas de que nela não reside o fim


quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Tantas

Tantas são as coisas
Tantas as escolhas
Imagino que de tantas e tantas coisas
Tantas e tantas escolhas
Quantas não são as mesmas
Então me pergunto
De tantas e tantas perguntas
De tantas e tantas pessoas
Quantas não se perguntam a mesma coisa
Nesse mundo de tantas e mesmas coisas.