Os símbolos estão aí;
existem por si.
Seu significado nasce no inconsciente coletivo,
corre como um rio
e deságua no inconsciente do indivíduo,
que pode acolhê-los tal como chegam
ou trabalhá-los
até que revelem outro contorno.
Então pergunto:
o que faço do que fizeram comigo?
Quando elevo meu olhar
acima das circunstâncias nas quais estou mergulhada —
acima das dispersões mundanas que me arrastam
e às quais me deixo levar —
percebo, pelo canto do olho,
as mentiras que comprei
como verdades imutáveis.
E isso me assusta.
É um olhar que me despedaça,
que me retira dos papéis que aceitei sem perceber.
Arranca à força as máscaras que me confortam
e me limitam,
desmancha o falso controle,
expõe-me à minha própria verdade
e me fere
com uma luz que eu nunca me dispus a encarar.
A claridade cresce
até tornar-se o sol do meio-dia
e, nesse avançar das margens,
cega-me.
O mundo externo permanece iluminado,
mas meus olhos, ofuscados,
só percebem escuridão.
Meus sentidos, habituados
ao ruído das vozes,
às tendências gerais,
às demandas do tempo,
agora hesitam.
Recolhem-se,
tateando dentro de mim.
Os pés avançam sobre um terreno incerto,
desprovido das antigas certezas
que antes pareciam inquestionáveis.
Então percebo
que minha liberdade
se limita à dualidade de duas escolhas:
segurar-me na margem desse rio
em busca de controle,
de explicações
e de ilusões;
ou soltar as mãos,
render-me ao fluxo
e deixar que as águas me conduzam
ao desconhecido.
E assim retorno à pergunta primal,
que agora ressoa mais fundo:
o que faço do que fiz de mim?
Os fatos permanecem.
Mas a narrativa — essa, sim — é obra minha.
Visto-me com o que tenho à mão,
como quero.
Costuro, símbolo por símbolo,
a história que escolho viver
a partir disto.