Minha embarcação, outrora atracada no porto,
carregou-se de ideias, ilusões, fantasias
e de tudo o que a vida exige e oferece.
Ficou ali aportada pelo tempo necessário,
até que chegasse a hora de descarregar a carga pesada
que ocupava o convés e afogava os porões.
Quando finalmente abri espaço,
ergui a âncora que dormia no fundo escuro do mar.
Meu navio zarpou em silêncio,
deslizando sobre a superfície turva e espessa das águas paradas.
Foi-se afastando, leve, conduzido pelo vento marítimo
que prometia mudança.
E quando já desaparecia no horizonte
dos olhos daqueles que ficaram,
soou seu chamado profundo —
uma voz metálica que parecia vir
das entranhas antigas do casco.
Seu toque longo, grave, vibrante, quase gutural,
reverberou no ar:
um som que levantou o olhar dos homens em terra
e o voo das aves marinhas.
Todos nós, cada qual a seu modo,
sempre em busca de alimento para a alma.
Meu navio se chama Marina,
e meu caminho — desde o início —
são as águas profundas.