sexta-feira, outubro 10, 2025

Exílio

Certo dia, resolvi me calar.
E, no silêncio, algo subiu do peito: um incômodo, uma angústia, um medo do desconhecido.
Tudo em mim era sombra e escuridão.
Nenhuma forma, nenhuma sensação, apenas o vazio de não conhecer.

Não me pergunte quem sou. Nada sei sobre mim.
Se diante de um gênio da lâmpada eu tivesse três desejos, talvez ficasse muda,
sem saber o que pedir.
Seria fortuna?
Reconhecimento?
Amor?
Ou seriam esses os desejos da coletividade, sussurrando tentações em meus ouvidos?

Mas seria isso mesmo o que quero?
Se fosse, quem sabe já os teria vivido,
e eles, por sua vez, me teriam possuído até os ossos.
O que me mata é não saber se o são.

Habitar um destino sem rota,
estrangeiro,
cuja língua não falo,
é como viver uma condenação silenciosa,
um exílio interior,
uma segregação do que sou
a se propagar em cada célula deste corpo
que move, sem saber por quê,
esse grande desconhecido.

Deus vive através de mim
a experiência de não se conhecer.
Até que um dia se farte dessa incerteza.

terça-feira, outubro 07, 2025

Mesmo lugar

E nós, humanos,
mergulhados na euforia das ilusões,
das opções,
das repetições,

cá ficamos a dormir eternamente,
presos a um conforto desconfortável,
indo e vindo
pelos mesmos caminhos.

Apertados, atados,
parecemos avançar,
quando, na verdade,
retornamos
sempre
ao mesmo lugar.

segunda-feira, outubro 06, 2025

Um Leão por dia

Matar um leão por dia é o lema do rol dos vencedores.
Só esquecem que o leão que se mata hoje renasce amanhã, ainda mais forte.
O animal mais selvagem a enfrentar é a nossa própria resistência, que nos empurra para o abismo da repetição.

sexta-feira, outubro 03, 2025

Proteja seu cavalo e suba com ele

Tenho no mundo várias versões de mim, espalhadas pelo tempo e pelo espaço. São versões da minha própria vida e também da minha passagem pela vida dos outros, que projetam sobre mim inúmeros eus: memórias, criações, impressões. Fragmentos vazios daquilo que afirmam ser eu diante do mundo. Posso acreditar nesse filme ou não, mas, seja qual for a escolha, nenhum deles sou eu de fato. São apenas imagens ocas, quadros em movimento criados por mentes que sonham, acreditam e projetam, em busca de apoio e distração para longe do próprio vazio.

Reconhecer que todas essas versões são apenas reflexos é o primeiro passo. O segundo é mais exigente: caminhar e distanciar-se desses eus, aqueles que tanto conhecemos, ou que nos foram impostos, apresentados e representados. Deixá-los para trás, ainda que estejam sempre em nosso encalço, à espreita para nos puxar de volta, exige atravessar terras inóspitas e desconhecidas, tendo como única arma a intimidade consigo mesmo.

O desafio nasceu da invasão da narrativa do outro, mas me colocou diante do meu próprio eu desnudo, aquele que tantas vezes virei o rosto para não ver.

Proteja seu cavalo e suba com ele, passo a passo. Não importa o lamaçal: o broto sempre encontra caminho para a luz.

A saída não é derrotar a sombra, mas crescer a partir dela, como a planta que, justamente porque há terra pesada sobre si, encontra a força para romper e alcançar o sol.

quinta-feira, outubro 02, 2025

Projeção

O mal que habita em mim, mas teme encarar-se, esconde-se nas sombras do meu inconsciente inexplorado e me espreita. Ele pode ser, e de fato é, projetado no outro, no externo, a fim de aliviar a tensão gerada pela oposição interna. A projeção torna-se, então, um guia cego que me conduz a juízos de valor equivocados e a visões enganosas da realidade objetiva.

Infinito

Além da espessa camada de matéria sólida e pesada que me separa do céu, ergue-se ele: o mistério insondável, diante do qual minha consciência se lança, revira e se aferra.
Mas, a cada tentativa de aproximação, mais ele me escapa. Está além, sempre além.
Perdoa-me por querer compreender o que não se compreende, conceber o inconcebível, conter em moldes estreitos aquilo que não se deixa conter.
O infinito a nada se encaixa. E eu, nele, me encaixo.

segunda-feira, setembro 29, 2025

Oscilação

As camadas sedimentadas do inconsciente coletivo alimentam nossas ações, muito além do que conseguimos conceber conscientemente.
Negue, afaste-se, rejeite, julgue como ignorância ou crendice ultrapassada; diga o que quiser sobre o saber daqueles que nos antecederam. Quanto maior o desprezo, mais profunda a influência que age nos bastidores de nossos atos.
Palavras vazias de emancipação escondem heranças impressas no sangue e na carne de nossos corpos modernos. Tão nossos, individuados, espíritos do agora, carregando o amanhã que já se passou.

Nossa animalidade move passos disfarçados de propósitos infinitos. Almas confinadas ao curral da mente buscam algo além de sua essência primitiva.
Uma geração que avança apenas no tempo cronológico, sem perceber suas origens, segue loucamente rumo ao abismo que nos distancia uns dos outros e de nós mesmos. Cavamos a terra longe das raízes, até o solo rochoso e infértil da dualidade crua.

Dentro de cada indivíduo, existem duas forças: uma que deseja se entregar e outra que reprime e repete. São igualmente poderosas, mas quando se combatem, nos fazem oscilar. Movemo-nos como carros com o freio de mão puxado.

O movimento oscilatório é como o lançar de uma moeda: duas faces inseparáveis se alternam a cada giro no ar. À primeira vista, estamos entregues ao acaso, sem saber qual lado tocará o chão. Mas, quando a consciência se eleva, o resultado imediato perde importância. A moeda deixa de ser apenas “cara ou coroa” e revela-se como unidade. Quem se coloca acima do jogo invisível da aleatoriedade percebe que os opostos não precisam se anular, mas se complementar e cooperar, concedendo-nos liberdade ao integrar ambos em um mesmo centro, impulsionando um movimento constante.

Volto-me profundamente para dentro de mim, explorando e iluminando a escuridão. Nessa incursão surge o retorno, a ânsia de me unir aos outros, me envolver, me espalhar e misturar-me à humanidade. Oscilo como estrela pulsante, expandindo e contraindo ritmicamente, até buscar estabilizar-me em meu núcleo.