Tenho no mundo várias versões de mim, espalhadas pelo tempo e pelo espaço. São versões da minha própria vida e também da minha passagem pela vida dos outros, que projetam sobre mim inúmeros eus: memórias, criações, impressões. Fragmentos vazios daquilo que afirmam ser eu diante do mundo. Posso acreditar nesse filme ou não, mas, seja qual for a escolha, nenhum deles sou eu de fato. São apenas imagens ocas, quadros em movimento criados por mentes que sonham, acreditam e projetam, em busca de apoio e distração para longe do próprio vazio.
Reconhecer que todas essas versões são apenas reflexos é o primeiro passo. O segundo é mais exigente: caminhar e distanciar-se desses eus, aqueles que tanto conhecemos, ou que nos foram impostos, apresentados e representados. Deixá-los para trás, ainda que estejam sempre em nosso encalço, à espreita para nos puxar de volta, exige atravessar terras inóspitas e desconhecidas, tendo como única arma a intimidade consigo mesmo.
O desafio nasceu da invasão da narrativa do outro, mas me colocou diante do meu próprio eu desnudo, aquele que tantas vezes virei o rosto para não ver.
Proteja seu cavalo e suba com ele, passo a passo. Não importa o lamaçal: o broto sempre encontra caminho para a luz.
A saída não é derrotar a sombra, mas crescer a partir dela, como a planta que, justamente porque há terra pesada sobre si, encontra a força para romper e alcançar o sol.