Vi uma criatura livre.
Aprisionada a um corpo de pedra, sólido, concreto, aparentemente imutável.
Mas eu sei: não há prisão para uma alma que decide se esculpir.
Minha vontade é o braço.
Minha consciência é a mão que segura o cinzel.
O cinzel é a extensão do meu olhar atento e preciso, que sabe onde o excesso de rocha oculta minha forma verdadeira.
O martelo é o impacto dos meus hábitos e das minhas decisões diárias.
Cada escolha feita, cada gesto repetido, é uma batida firme que imprime força no cinzel.
O hábito não é meu inimigo.
Quando inconsciente, ele pode me enterrar no mármore da inércia.
Mas quando desperto, ele se torna meu martelo, meu aliado na obra de mim mesma.
A cada manhã, ergo o cinzel.
A cada ação, dou um golpe que remove um fragmento do que não sou.
A cada decisão consciente, lasco um pedaço das máscaras, das programações, dos medos herdados.
Quando acordada, não tenho pressa, pois a pressa não lapida.
O escultor respeita o tempo da pedra.
E eu respeito o tempo da minha alma.
Eu sou a escultora e também a obra.
Meu Davi está emergindo.
E este será o trabalho da minha vida.