sábado, agosto 09, 2025

I Ching — Madeira sobre as Águas

O I Ching
é madeira sobre as águas.

Por onde navegam as embarcações.
Rumo ao firmamento.
Onde o sol nasce…
e se põe.

Travessia do inconsciente.
Sabedoria ancestral.
Que flutua sobre o rio da vida.

Transportando símbolos.
Mistérios.
Direções.

Atravessando o nevoeiro do silêncio.
Em busca de sentido.

A estrutura do hexagrama
é mais um florescer…
do que uma construção.

Seu movimento no agora,
através da mutação das linhas,
navega rumo
ao que ainda não se revelou.

O eu que fui…
e o eu que posso vir a ser…
fazem parte de um mesmo movimento.

Instrumento de comunicação entre mundos:
o visível e o invisível.
O presente e o eterno.

Que só a intuição reconhece.

Rasga distâncias.
E ilusões.

Toca ecos do que já foi.
E sussurros do que está por vir.

Ele não responde — escuta.
Não revela — espelha.
Não impõe — orienta.

Quando todas as vozes se calam…
e as intenções silenciam…
ele brota naturalmente.
No fluxo da vida.

A cada consulta:
vivemos conscientemente.
Integramos a sombra.
Dialogamos com os sonhos.
Acolhemos conteúdos simbólicos.

Essa é a influência verdadeira.
Que nos aproxima do que somos.
Nos integra.
E nos sincroniza ao Tao.

Só assim
vivemos de acordo com a lei natural.
E tocamos
o que é universal e cósmico.


Que cada fragmento desse poema possa ser lido como quem lança moedas ou varetas, em compasso com o silêncio da alma.

sábado, agosto 02, 2025

O Golpe de Cinzel

Vi uma criatura livre.
Aprisionada a um corpo de pedra, sólido, concreto, aparentemente imutável.
Mas eu sei: não há prisão para uma alma que decide se esculpir.

Minha vontade é o braço.
Minha consciência é a mão que segura o cinzel.
O cinzel é a extensão do meu olhar atento e preciso, que sabe onde o excesso de rocha oculta minha forma verdadeira.
O martelo é o impacto dos meus hábitos e das minhas decisões diárias.

Cada escolha feita, cada gesto repetido, é uma batida firme que imprime força no cinzel.
O hábito não é meu inimigo.
Quando inconsciente, ele pode me enterrar no mármore da inércia.
Mas quando desperto, ele se torna meu martelo, meu aliado na obra de mim mesma.

A cada manhã, ergo o cinzel.
A cada ação, dou um golpe que remove um fragmento do que não sou.
A cada decisão consciente, lasco um pedaço das máscaras, das programações, dos medos herdados.

Quando acordada, não tenho pressa, pois a pressa não lapida.
O escultor respeita o tempo da pedra.
E eu respeito o tempo da minha alma.

Eu sou a escultora e também a obra.
Meu Davi está emergindo.
E este será o trabalho da minha vida.

quarta-feira, julho 16, 2025

Movediça

Dentro de mim, vivem mil vidas
Entre múltiplas versões —
Qual delas sou eu?

Quando as luzes externas se apagam,
as máscaras caem
e me confundo com elas.

Meu interior viscoso e mutável,
feito areia movediça a me engolir,

Gesta a realidade
Como um sonho
Que ainda não acordou.

segunda-feira, julho 14, 2025

A Arte de Habitar a Si Mesmo

Não me fechei para o mundo. Decidi me abrir, primeiro, para a minha própria verdade. Existe uma diferença entre reagir inconscientemente e responder com consciência. Grande parte de nós, vive condicionado a padrões automáticos: agimos movidos por feridas, medos, traumas ou pela vontade de agradar. Mas chega um momento em que algo em nós desperta. E então, em vez de repetir, escolhemos avançar.

Nesse espaço interno, as ações deixam de buscar aprovação. Passam a ser guiadas por escolhas conscientes, alinhadas ao discernimento, à integridade e à sintonia com o que é verdadeiro dentro de nós.

Quando isso acontece, começamos a nos libertar dos jogos emocionais e da necessidade de projetar no outro aquilo que antes não conseguíamos reconhecer em nós mesmos. A autonomia se fortalece. As palavras ganham intenção, a presença ganha valor e a paz torna-se um bem inegociável.

Não preciso mais convencer ninguém sobre o meu valor. Estou aprendendo a reconhecê-lo com honestidade e gentileza. E, com isso, passo a priorizar vínculos recíprocos.

Meu centro de força já não depende da validação externa para existir. Isso não me isola. Pelo contrário, torna minha relação com o mundo mais lúcida. E é a partir desse lugar que me permito, enfim, ser real.

Inconsciente

Ele me diz:

Você pode me testar inúmeras vezes e, nas inúmeras vezes em que me testar, irá falhar miseravelmente.

sábado, julho 12, 2025

A globalização encolheu o mundo: virtualmente mais conectados, emocionalmente desconexos. O contraste entre a proximidade tecnológica e o distanciamento afetivo.

O mundo se estreitou. Tudo parece ter se reduzido a uma polarização crua e exaustiva: o certo contra o errado, o meu sistema de crenças contra o resto do mundo. A dualidade foi levada ao extremo.

A globalização ampliou os horizontes do espaço físico, mas, por outro lado, encolheu nosso pensamento. Ficamos presos a uma lógica irracional: “é isso ou aquilo”, “quero tudo e não quero nada”. E assim, nosso mundinho, que corre freneticamente por rotinas caóticas e sem tempo, tornou-se estagnado e pequeno.

Vivemos afogados em novidades. A cada segundo, algo novo nos é empurrado. Mas, no fundo, nada realmente novo acontece. Apenas o velho de sempre, reciclado em formatos cada vez mais rasos, despejado com violência dentro de nós, como se fôssemos tubos vazios.

Resta-nos o despropósito. Uma busca incessante por encaixe em um cenário arruinado, que já não faz mais sentido.

E diante disso tudo, o mundo acabou?

Para alguns, talvez sim.

Mas eu ainda estou aqui. E enquanto estiver, ele não acabará. O sentimento esfriou, é verdade, mas ainda posso sentir. E se ainda há em mim essa emoção, é porque devem existir outros como eu. Sobreviventes do sentir em um tempo que anestesia.

quinta-feira, julho 10, 2025

O mundo e sua crescente polarização

Vivemos tempos em que mulheres desprezam os homens e homens desprezam as mulheres. A combatividade tomou o lugar da escuta, e a agressividade passou a mirar o outro como inimigo. Indivíduos se veem como adversários a serem eliminados, e esse modo de pensar criou uma sociedade sufocada dentro de uma armadura rígida e artificial, feita para nos isolar uns dos outros.

O espírito de cooperação foi rejeitado. A nova palavra de ordem é: eu não preciso de você. A partir dessa crença, instala-se o conflito. Passamos a combater irracionalmente, mesmo quando encobrimos esse combate com discursos que soam lógicos. Justificamos nossa raiva reprimida projetando-a nas falhas e imperfeições dos outros. Incapazes de olhar para os próprios erros, preferimos manter os olhos voltados para fora, como forma de escapar das sombras que habitam em nós.

Nos enfrentamos até o esgotamento, e ao fim, restamos em pedaços.
As energias que nos compõem, opostas e igualmente naturais, não precisam viver em confronto. Elas podem coexistir em harmonia. Cada ser humano carrega dentro de si uma multiplicidade de aspectos, entre eles os femininos e os masculinos. Essas forças não precisam competir pelo domínio da narrativa pessoal. Integrá-las é reconhecer-se inteiro.

A visão fragmentada de mundo que insiste em dividir, em vez de unir, não nos fortalece. Enfraquece-nos. Realizar a integração entre partes distintas nos engrandece e nos aproxima de uma existência mais plena. No entanto, o discurso dominante parece ter invertido o propósito: dividir para conquistar. O que muitas vezes esquecemos é que, ao final desse processo, os verdadeiramente conquistados somos nós.