quinta-feira, maio 01, 2025

Diálogo entre oceanos

Cá estamos nós dois, permitindo-nos navegar em devaneios no mar um do outro. Nossos pensamentos emergem, emanados do mais profundo oceano abissal das emoções. Nossas vozes se traduzem em palavras na superfície das águas, e as deixamos vagar livres, leves e soltas, até que encontrem, em nossas margens, um porto seguro onde possam atracar os nossos sentimentos.

Soberania interna

Para você, que não cedeu às vozes de fora,
às falsas autoridades.

Quem não precisa ser forte — o quanto baste —
para suportar o fato de ser vulnerável e humano?

Você não quer um trono. Quer abrigo.
O prazer virá —
quando desejar sem medo
e receber sem defesas.

Equilíbrio não é rígido, é fluido —
como a água que passa de um cálice ao outro.

Não force.
Não corra.
Não recue.
Apenas permaneça.

Misture o que parecia oposto.
E espere o vinho se formar.

Você não está quebrado — está em processo.
Você não está perdido — está partindo.
Você não está sozinho — está se encontrando.

Deixe de ser juiz ou salvador.
Torne-se soberano.

quarta-feira, abril 30, 2025

Livra-me

O livro não é corpo imaculado,
é matéria bruta, viva.
Em suas linhas,
corre o sumo vital das ideias.
Beber dele,
saciar nele a sede de conhecer,
movimenta a correnteza do ser.

Cada página virada
traz a essência de uma transição:
início, meio e fim —
marcos de uma travessia
que se desnuda sob o olhar
de quem do livro se apropria.

Ele guia uma jornada única
para cada um que se conecta
e se acende,
ativando a corrente elétrica
que gera iluminação.

Traz luz à consciência
e nos mergulha em transformação.

Se o livro me marca,
por que não haveria eu de marcá-lo?
Deixar os rastros da minha leitura
riscos, anotações, marcações,
cores e dobras nas páginas lidas.

O livro é livre
para ser o que quiser
nas mãos de quem o lê.

Esquecidos

Vivemos agarrados ao desejo de ser lembrados —
nesse mar de vozes que clamam por aprovação,
vamos nos apagando de nós mesmos.
Habitamos a superfície,
onde todos se veem, mas ninguém se enxerga,
com medo de mergulhar
e nos perder nas profundezas do esquecimento.
Quem sou eu,
se não há quem saiba,
ou chame
pelo meu nome?

terça-feira, abril 29, 2025

Entre a Imagem e a Verdade

Em tempos de validação externa, erguem-se fachadas imponentes como castelos — harmoniosos por fora, mas caóticos por dentro. À primeira vista, parecem conter força e significado, mas basta adentrar suas muralhas ilusórias para encontrar um vazio profundo: um salão desabitado de autenticidade. Ali, ecos de vozes alheias moldam imagens de padrões repetidos, cuja pressão do coletivo ofusca a centelha do ser.

Nesse labirinto de espelhos, buscamos incessantemente o reflexo do outro para nos reconhecermos, enquanto nos esquecemos de habitar nossa própria imagem.
Um simples peão, à margem do tabuleiro, pode, um dia, tornar-se rei — não pela aclamação das massas, mas pelo despertar do soberano interior. Sua coroação não acontece sob aplausos, mas no silêncio sagrado da alma que, enfim, aprende a reinar sobre si mesma, assumindo para si o próprio poder.

domingo, abril 27, 2025

Solidão coletiva

Em nossa sociedade narcísica, erguemos muros invisíveis ao redor de nós mesmos, transformando-nos em fortalezas de segurança máxima contra tudo e todos. Lá dentro, sonhamos com uma liberdade que nos negamos a viver. Divididos entre juízes e vítimas — por aparência, posição social ou qualquer outro critério ilusório — seguimos rumo a solidão coletiva.


Falsos faróis

Somos guiados pelos faróis do medo,
que não emanam nada além de luz artificial.
Tememos cair nas sombras do esquecimento
e, paradoxalmente,
é justamente para onde mais tememos que caminhamos.

Sê tu mesmo o farol de teus barcos,
que, um a um,
deslizam leves como folhas de papel
sobre a superfície revolta de tuas águas,
envoltas em partículas de luz
que lapidam a alma do buscador.