A alma tem uma forma diferente e
sutil de se comunicar com o corpo. Em um movimento quase involuntário,
voltei-me para dentro de mim mesma e comecei a destrinchar quais seriam os
grandes propósitos que me guiam pela vida e como eles se manifestam por meio da
minha postura diante das coisas. Como um explorador de si mesmo, busquei
entender o que me moldou a ser quem sou e o que me move a agir como ajo no
mundo exterior.
Mergulhei, tal qual uma
forasteira em terras estrangeiras, abrindo cômodos escuros e esquecidos do meu
inconsciente. Parecia uma terra de ninguém. Grande parte do trajeto permanecia
tomado pelas trevas, pelo silêncio e por sobressaltos diante do desconhecido.
Fui me aproximando, cada vez
mais, de um espelho embaçado, de um ambiente úmido e ocre, de águas turvas.
Essa postura austera, arredia, de pelos eriçados diante das ameaças externas —
que me parecia tão dura e por vezes desnecessária — revelou-me sua verdadeira
natureza, sua origem e seus porquês. Era uma alma muito antiga que havia
passado por inúmeras experiências, vergado sob incontáveis ilusões, acreditado
e defendido tantas causas perdidas que não eram as suas próprias.
Essa alma estava cansada de girar
em círculos e de se deixar levar para longe de si mesma. Decidiu, então, se
aproximar do corpo, de modo a poder se comunicar com ele sempre que sentisse
necessidade de seguir adiante, sem mais se deixar levar pelas utopias e
quimeras da vida. Foi assim que ela ergueu um sistema de defesa: um “muro
emocional” carregado pelas energias de experiências remotas. Esse muro tornou o
corpo intuitivo, alerta e cauteloso diante de ameaças que poderiam mais uma vez
distraí-la no caminho de volta para casa.
Esse muro impediu que o rumo se
perdesse diante de cada vitrine colorida que surgisse. Afinal, os olhos já
estavam calejados por tantas luzes usadas para desfocar a visão de longo
alcance.
A alma enxerga tão longe que a
consciência mal consegue acompanhar. Ela mira com tamanha precisão que a razão
não saberia explicar. Sua paciência parece infinita diante de tantas fantasias.
Resiliente, ela espera. Mas ela também urge e move involuntariamente o corpo,
que, aos poucos, se deixa levar de volta para casa.