quarta-feira, julho 16, 2008
Deixe-me
quarta-feira, julho 02, 2008
Revele
Revele-me seus crimes,
Revele-me seus pensamentos mais vis,
Revele-me suas trevas,
Revele-me seus desejos mais obscuros,
Revele-me a sujeira varrida para baixo do tapete, mas não deixe que esta se espalhe e macule o que realmente és.
Não me venhas mostrar supostas anormalidades de sua personalidade por meio de prantos culposos.
Venha e se exponha seguro de si para além de sua sujeira conhecedor de sua verdadeira natureza.
Que os fantasmas do passado jamais governem lhe o presente e lhe destrua o futuro.
Que seus demônios sejam neutralizados e trabalhem a seu favor.
Que estejas cá presente independente das desgraças que lhe ameaçam o equilíbrio.
Que seus dramas de demasiadas origens verguem-se ante sua liberdade de escolha em levá-los ao topo ou ao cabo.
Ereto, em movimento, soberano de si mesmo.
A realizar a mais difícil das tarefas, você, livre para ser.
quinta-feira, junho 26, 2008
Maria em fuga
Em casa, todos dormem…
Sua mente insone se angustia cada vez mais sob a opressão do silêncio.
Levanta-se da cama, procurando o controle da TV.
Madrugada. Droga de filme B!
Desiste da TV.
Alarmes acionados: empecilho para os vadios da noite.
Do outro quarto, sonoros roncos ecoam.
Pé por pé, desativa o alarme. Os roncos continuam. O caminho está livre.
Veste uma roupa qualquer.
A fuga tem início.
Desce vagarosamente as escadas. Os roncos permanecem regulares.
Onde estão as chaves do carro? Por que nunca as deixam no
gancho?
Vai até a cozinha e lá estão elas, sobre a mesa.
Abre a porta, evitando ruídos. Os roncos… ainda os ouve.
Sinal livre.
Agora, a parte mais difícil: ligar o carro. A arma do crime. Sem provocar um
escarcéu.
Gira a chave na ignição. Olhos fechados. Implora para que o
som da mecânica falhe desta vez.
Maldição! Funcionou — e muito bem.
Motor ligado. Não há mais como voltar atrás.
Assim que se afasta de casa, sente-se cada vez melhor. Liga
o som e perde o rumo.
Duas da manhã. Cidade fantasma.
Maria Fumaça. Maria Gasolina. Maria em fuga.
Acelera o carro e, junto, vai seu coração.
Nada mais importa. Está partindo. Toma a estrada.
Estremece, mas não se arrepende. Está decidida. O momento chegou.
Ultrapassa os limites de velocidade e quer ainda mais.
Não há como voltar atrás. Nem quer.
Pelo espelho, olha para o banco traseiro.
Lá está ela. Sentada. À espera.
Olhos vidrados. Está em serviço.
Por vezes, atende a chamados de emergência. Se ela vem, não
há retorno.
No volante, sente um frio na espinha. Enjoa.
Os olhos continuam a observá-la.
Está obstinada. Chamou, e ela veio atender-lhe o pedido.
Pela última vez em sua vida, olhou pelo espelho e piscou para ela.
Girou o volante, e o fim se deu num piscar de olhos.
A fuga. Ato consumado.
sábado, junho 21, 2008
Dado
segunda-feira, junho 16, 2008
Senhor...
sexta-feira, junho 13, 2008
Queria estar com vocês
Só queria passear.
Queria ficar, mas tive de ir...
Só queria me deitar.
Queria lá estar em um jardim a nos sentar.
Queria ali ficar a observar o pôr-do-sol ao lado de vocês.
Queria adiante caminhar e conversar com vocês bem cedo assim que o sol nascer, em um lugar cheio de encantos simples, apenas meus e seus.
Queria voltar e me aconchegar ao lado de vocês em uma noite qualquer a ver estrelas e cantar.
Queria na sexta-feira junto de vocês colher frutos no quintal.
Queria no domingo canoar com vocês, todos calados a sonhar.
Queria com vocês acalentar o coração e sorrir não no futuro, mas num exato momento.
Queria com vocês apenas o presente do presente.
Queria estar...
Estar apenas com vocês...
Vocês sabem quem são...
E sabem que era mesmo isso o que eu queria.
segunda-feira, junho 09, 2008
O livro
Matéria concreta
Ideia abstrata
As páginas dançam e se tocam ao som do papel
Mil línguas ondulam ruminam palavras engolem ideias
Olhos famintos lhe invadem o texto
O corpo do livro, preto no branco, palavras impressas
A alma do livro, misto de cores, palavras expressas
Os livros no cárcere da prateleira, conversam, sussurram,
Discordam, concordam,
Brigam, se amam
Os livros sorriem ou choram atenção
Todos eles carentes de olhos que os leiam e apoderem-se de sua intimidade.