segunda-feira, junho 16, 2008

Senhor...

Senhor?
Haveria o senhor de se despedir quando julgasse não mais suportar a realidade em que nos limitamos a viver.
Há tempos não o encontro, nem mesmo na solidão a que se propôs.
O senhor existe... Não é mesmo?
Ambos sabemos... Não é mais segredo.
Vossa mente perambula num extenso vazio, na esperança de se compreender.
Os pensamentos que lhe percorrem a cabeça, tão leve e pesarosa, são como fogo líquido.
Uma pena... Não toquei solo aberto por tremores febris de vossa imaginação.
O senhor pensa ser dentre todos os seres, aquele a quem se esqueceu e não mais pôde achar-se em vida.
Pode me ouvir?
Devo então perguntar: E se em ti pousassem as esperanças de quem quer que seja?
Vossas idéias percorrem o tempo – espaço e se aquecem se chocam se expandem...
Qual fora mesmo vossa lição?
Força propulsora fora plantada em terreno inóspito.
A chama se fez por combustão de ínfima pequenez, firme e dispersa intensa e moribunda, fenômeno inconstante num giro imprevisível.
Amigo, mestre acompanhe-me sempre, mesmo quando ausente.
Sois filósofo que se assemelha as estrelas que brilham constantes no céu.
O combustível se extingue, chega a morte, mas não o fim.
Vosso caráter estelar se converte num buraco negro que tudo consome ao redor, nele nos perdemos ou nos achamos.
Vossa luz se dispersa no vácuo, mas há de se refletir e brilhar centenas de vezes mais.
Mariposas rondam vosso brilho, girando encantadas, perdidas trombando, insistem até morrerem em meio às ideias.
Meras divagações sobre vós.
Confesso ter acreditado que estivesses aqui ao meu lado.
Meu coração lamentou...
Pensei em orar, mas a muito perdi a fé.
Não me lembro exatamente quando deixei de acreditar, mas sei que foi este o momento em que o perdi.


sexta-feira, junho 13, 2008

Queria estar com vocês

Queria ir, mas tive de ficar…
Só queria passear.
Queria ficar, mas tive de ir...
Só queria me deitar.
Queria lá estar em um jardim a nos sentar.
Queria ali ficar a observar o pôr-do-sol ao lado de vocês.
Queria adiante caminhar e conversar com vocês bem cedo assim que o sol nascer, em um lugar cheio de encantos simples, apenas meus e seus.
Queria voltar e me aconchegar ao lado de vocês em uma noite qualquer a ver estrelas e cantar.
Queria na sexta-feira junto de vocês colher frutos no quintal.
Queria no domingo canoar com vocês, todos calados a sonhar.
Queria com vocês acalentar o coração e sorrir não no futuro, mas num exato momento.
Queria com vocês apenas o presente do presente.
Queria estar...
Estar apenas com vocês...
Vocês sabem quem são...
E sabem que era mesmo isso o que eu queria.


segunda-feira, junho 09, 2008

O livro

O livro
Matéria concreta
Ideia abstrata
As páginas dançam e se tocam ao som do papel
Mil línguas ondulam ruminam palavras engolem ideias
Olhos famintos lhe invadem o texto
O corpo do livro, preto no branco, palavras impressas
A alma do livro, misto de cores, palavras expressas
Os livros no cárcere da prateleira, conversam, sussurram,
Discordam, concordam,
Brigam, se amam
Os livros sorriem ou choram atenção
Todos eles carentes de olhos que os leiam e apoderem-se de sua intimidade.


quinta-feira, junho 05, 2008

Caminhos e Rios

Os veios dos rios cortam caminhos,
e os caminhos atravessam o fluxo dos rios.

Caminhos e rios se cruzam,
se unem,
se aliam,
se abraçam,
se beijam.

Caminhos e rios se nutrem.

Brotam caminhos onde nascem os rios.
Caminhos seguem,
rios deságuam — e caminhos florescem.

Caminhos e rios se ornam de cores:
verde em vida,
vermelho em versos,
azul em afeto,
amarelo em arte.

Delicados em profunda devoção,
dádivas dos deuses.

Pudera eu trilhar caminhos…
Pudera eu beber dos rios…
sem lhes tirar a vida que naturalmente me oferecem.

terça-feira, junho 03, 2008

Monólogo da Árvore

Ah… Nós caímos...
Derrubaram-nos…
Não só a nós, mas tudo ao redor...
Ao longo de quilômetros, milhas de distância, ouço todas as outras caírem.
Deitam-nos ao chão, nos violentam e assim dão-nos utilidade.
Fazem de nós o que não somos.
Éramos seres vivos e nos converteram em matéria bruta.
Nosso reino fora subjugado ao reino destes.
No topo da cadeia alimentar, estão nossos algozes!
São eles, os detentores de poder do reino animal.
O homem, dito mais completo e perfeito organismo de seu reino, nos pisa como gigantes a caminhar sobre gravetos.
A grandeza de teus atos limita-se a si mesmos, mas os propósitos de suas ações ultrapassam quaisquer fronteiras.
No cume de sua genialidade destroem-se entre si.
Ministros da guerra.
Ceifadores funestos.
Semeadores estéreis.
Eu cá estou, não sendo eu e sim aquilo, em singelo monólogo farfalhando palavras ao léu.

quinta-feira, maio 29, 2008

É preciso experimentar

Experimentemos a mudança, pois só assim poderemos tocar outros corações.
Experimentemos nossas próprias invejas antes de alimentá-las.
Experimentemos nossas próprias ofensas antes de proferi-las.
Experimentemos nossos próprios julgamentos antes de julgar alguém.
Experimentemos nossas próprias ciladas antes de pensarmos naquelas que planejamos criar.
Experimentemos nossas próprias brutalidades antes de cometê-las sempre que nos convier.
Experimentemos nossas próprias falsidades para refletirmos se realmente queremos praticá-las.
Experimentemos nosso próprio veneno e decidamos se devemos expeli-lo ou não.

É preciso experimentar para saber se realmente iremos gostar e se, de fato, teremos prazer.
É preciso sofrer o que faremos os outros sofrerem.
É preciso sentir aquilo que faremos com que os outros sintam.
É preciso conhecer o mal que pretendemos perpetuar.

Mas também é preciso refletir sobre o bem que poderíamos propagar.
É preciso experimentar a gentileza que podemos oferecer.
É preciso experimentar a sinceridade que podemos demonstrar.
É preciso experimentar o carinho com o qual podemos presentear.
É preciso experimentar a doçura com a qual podemos cativar.

Que a vida esteja repleta de experiências, em oposição às teorias nas quais insistimos em acreditar.
Que esta vida se sobressaia à vida com a qual nos contentamos.
Que esta vida não seja um ensaio, mas um improviso.
Que esta vida não seja um plano, mas um repente.
Que esta vida seja vivida — e não apenas um ponto de partida.


terça-feira, maio 27, 2008

Réplicas Tétricas

Andam a seguir pessoas, e de longe a espreita, as veem como presas em potencial.
Tome direção à esquerda e lá estão eles.
Vire à direita e mais uma vez se depare com os mesmos.
Corra e na boca do lobo estarão.
Pelos corredores, escadas, elevadores, banheiros, nos odores dos ares farejam seus passos.
Observam afastados e no olhar sustentam o brilho do mal.
Seguem exalando energia nociva, trucidando reses.
Promovem o acaso, e ao cabo do caso escapam ilesos.
Por pouco não falam, grunhem sons grotescos.
Vibram horror, causam repulsa.
De suas peles, expelem suores sebosos emplastrados de medo e desalento.
Emitem vapores sulforosos em atmosfera subumana.
Suas vitórias são perdas de si.
Suas perdas são relatos anônimos.
Suas almas são censuras e tarjas, escuras e cruas.
Sua fome é réu primário.
Sua sede é Rei deposto.
Suas vidas são o reflexo do mundo como se passou a acreditar.
Seus fantasmas transcrevem traços fechando-nos em círculos anelares.
Seus corpos inanimados se animam por sopro cético.
Suas imagens são réplicas tétricas.