sábado, junho 21, 2008

Dado

Dado na mão, mesa vazia, apenas migalhas de pão [rastros ordinários].
Dúvidas [tédio], chove.
Mão cerrada, fria, comprime o dado [sopro quente].
Quais as chances? [suspira]
Rola o dado sobre a mesa, desliza na superfície lisa, cai. [Pic! Pic! Pic! Pic! Piiiic!]
Quica no chão, para.
Quais as chances?
Seis! [sorri]
O tempo se vai a jogar dados. [Silêncio]
Chove, e o dado é deixado onde está. [boceja — sintomas do início do dia]
E as chances?
Já disse! São seis, que se multiplicam por dez, e por mais dez, e mais dez, e mais dez...
[Arrepia. Imagina 6 × 10 × 10 × 10 × 10 infinitamente.]
A chaleira apita no fogo — é hora de tomar o café e se tornar novamente ordinário.

segunda-feira, junho 16, 2008

Senhor...

Senhor?
Haveria o senhor de se despedir quando julgasse não mais suportar a realidade em que nos limitamos a viver.
Há tempos não o encontro, nem mesmo na solidão a que se propôs.
O senhor existe... Não é mesmo?
Ambos sabemos... Não é mais segredo.
Vossa mente perambula num extenso vazio, na esperança de se compreender.
Os pensamentos que lhe percorrem a cabeça, tão leve e pesarosa, são como fogo líquido.
Uma pena... Não toquei solo aberto por tremores febris de vossa imaginação.
O senhor pensa ser dentre todos os seres, aquele a quem se esqueceu e não mais pôde achar-se em vida.
Pode me ouvir?
Devo então perguntar: E se em ti pousassem as esperanças de quem quer que seja?
Vossas idéias percorrem o tempo – espaço e se aquecem se chocam se expandem...
Qual fora mesmo vossa lição?
Força propulsora fora plantada em terreno inóspito.
A chama se fez por combustão de ínfima pequenez, firme e dispersa intensa e moribunda, fenômeno inconstante num giro imprevisível.
Amigo, mestre acompanhe-me sempre, mesmo quando ausente.
Sois filósofo que se assemelha as estrelas que brilham constantes no céu.
O combustível se extingue, chega a morte, mas não o fim.
Vosso caráter estelar se converte num buraco negro que tudo consome ao redor, nele nos perdemos ou nos achamos.
Vossa luz se dispersa no vácuo, mas há de se refletir e brilhar centenas de vezes mais.
Mariposas rondam vosso brilho, girando encantadas, perdidas trombando, insistem até morrerem em meio às ideias.
Meras divagações sobre vós.
Confesso ter acreditado que estivesses aqui ao meu lado.
Meu coração lamentou...
Pensei em orar, mas a muito perdi a fé.
Não me lembro exatamente quando deixei de acreditar, mas sei que foi este o momento em que o perdi.