quarta-feira, abril 09, 2008

Na linha de um trem sem fim

Assobia o apito do trem, sonoro convite à infinita viagem.
Sobem a bordo os anseios de quem os tem.
Por trilhos outrora trilhados, conduz passageiros que passam — e no passado se fincam.
Vagos vagões trepidam, aflitos.
Ferrugem e fuligem forram os leitos.
O trem engrena planos possíveis,
enveredado por desejos tirânicos.
Imprimindo velocidade assassina,
verga-se ao peso de férrea volúpia.
Caminho de ferro, que intuito terás?
Carregas o fogo da eterna vontade.
Em qual estação deve o intento saltar?
Na linha de um trem sem fim, esperamos o que nos espera.
Embarcamos no trem que busca tudo aquilo que se deseja — e, por nunca deixarmos de desejar, o trem se chama Sem Fim.

segunda-feira, abril 07, 2008

Fez-se e se desfez

Não mais lançava o olhar ao céu, pois se lhe seguiam alto os arranha-céus.
Não mais deitava a ver nuvens sossegadas sobre o gramado, pois se lhe passava uma avenida.
Não mais dançava sob os raios de lua, pois se lhe ofuscava as luzes da cidade.
Não mais apanhava os frutos da caramboleira, pois se lhe sobrepunha um passeio público.
Da natureza fez-se propriedade,
Da menina fez-se cidadã,
Da liberdade fizeram-se os direitos,
Da sede fez-se a necessidade,
Do tempo fez-se prisão,
Desfizera-se o tempo em que a menina vivia e fizera-se o tempo do qual vive a menina.
Ao fim e ao cabo, fez-se poesia, que dela e nela vive.