sexta-feira, março 07, 2025

Esboço de mim

Eu sou um desenho, um traço inacabado.
O ego é isso: um esboço, uma ilusão.
Vou me dobrando para me adaptar.
Autotransformação dói.
Me rasgo, me curvo.
Me reconfiguro, me reconstruo.
Realizo mais um voo em direção a mim mesma. Expurgo demônios.  

segunda-feira, março 03, 2025

Escrever

Escrever não é um monólogo, mas um diálogo com todos aqueles que já abracei, de quem me despedi, com quem me reencontrei e por quem me encantei.

Eles e eu, que me afirmo sendo um, somos mais que uma unidade; somos um coletivo de meus próprios eus espalhados pelo tempo e espaço.

Travamos longas discussões sobre o que se foi, tecendo comentários parciais sobre o passado, prevendo cenários do futuro e entretendo-nos com curiosidades superficiais.

Nós, como infinitos personagens que somos, gargalhamos das histórias narradas diante do espelho da vida.

O mundo aqui dentro é vasto e rico, muito além do mundo exterior, que costumamos priorizar além da conta.

domingo, março 02, 2025

Nos bastidores: o desconhecido

A arquitetura reta, linear e estática do mundo material me parece um tanto opressora. A solidez das coisas me escapa a cada piscar de olhos, quando a escuridão do movimento ocular se sobrepõe à tela anterior, redesenhando-a ao abrir das pálpebras.

Eu, que concentrada ocupo um corpo denso, sinto-me deslocada e fora de contexto nesse plano tridimensional, vasto e, ao mesmo tempo, estreito. Em meu interior, percebo que algo se passa nos bastidores, oculto à minha consciência. Sua presença se faz notar por um movimento rápido — como o de uma sombra passando pelo canto do olho —, uma forma indefinível, além de um borrão escuro que me acompanha ao longo dos meus movimentos. Um fantasma de mim mesma, uma inteligência fora dos meus domínios.

sábado, março 01, 2025

Carnaval

O nosso carnaval tornou-se a beleza da alegria forjada, desfilando nas redes sociais. Ele é o samba da superficialidade das relações humanas, a busca incessante por uma plateia que aplauda nosso mergulho em uma piscina rasa de aparências. O que se faz e o que se permite ser não ultrapassa a régua dos olhares e opinião pública.

O carnaval, fantasiado e transfigurado, não questiona as máscaras sociais; ao contrário, convida ao seu uso: a satisfação simulada da exposição nas redes. Os papéis desempenhados pelas pessoas estão sempre à procura de uma audiência. O que se é quando ninguém vê perdeu a importância em um mundo regido pelo senso geral.

Do contentamento no sentimento coletivo dessa festa, restou apenas uma satisfação moldada pela exibição de retratos ilusórios.

sexta-feira, fevereiro 28, 2025

Paixão

Apagarei os fogos de artifício e acenderei as velas da paixão...

A paixão não se resume ao sentido estrito do relacionamento amoroso; ela se estende ao encantamento por algo que nos move por inteiro rumo ao nosso mundo interior dos sentidos.

Em meio a todo o ruído em que estamos envoltos, ainda assim, figura a arte — na música, na arquitetura das edificações, nas palavras impressas — que atrai o olhar de quem está afinado com a beleza genuína da criatividade e que nos imputa inúmeras paixões.



terça-feira, fevereiro 25, 2025

Luto

O luto nos apresenta a imaterialidade do amor. Essa característica etérea, inerente ao amor, dói em nosso coração feito de carne, acostumado ao toque da pele, à sede e à fome de nossa dimensão de sentidos.

sexta-feira, fevereiro 21, 2025

Amor

Esse desarme que o amor causa, um baixar de guarda, um suspiro que eleva o peito, cheio do mais puro elemento da vida, que escapa devagarinho dos pulmões, nos deixa completamente entregues às venturas e desventuras de amar aquilo que nos faz vibrar, deixando-nos conduzir como em uma dança, uma valsa etérea do coração.

Esse movimento de ir e vir, bombeado pelo coração, inspirado pela inalação do ar, da vida, é um milagre singelo do que nos escapa e nos detém. E então, finalmente, chegamos ao amor genuíno, destino que não podemos conter.