quarta-feira, março 14, 2007

Nada além

Ao redor o que se tem não é apenas o que se pode ver.
O que se diz ter passado e ficado, não fica não.
Reversão.
Possibilidade de impossibilidade.
Definição indefinida.
Desintegração e reintegração.
Disseram-me: "Faça o que tiver de fazer e não olhe para trás".
Não irei olhar.
A intensidade não se pode prever, nem mesmo a velocidade.
E disseram-me: "Assim a vida é".
Sim assim é.
Assim se conjugam os verbos.
Assim foi, assim é e assim será.
Vidas conjugadas e julgadas num conjugado apertado de ideias.
Papéis e papelões.
Figuras e figurões.
A imagem foi contida no papel.
E o papel contém o que jamais poderá ser contido.
A alma já se foi, se é que se pode nela acreditar.
A muito no que se acreditar e não há nada no que se acreditar.
Um devaneio...
Acorde não há nada além de si mesmo, os outros são os outros.
Acordei e sim os outros ainda são os outros, mas alguns são muito além dos outros.
Alguns sou eu e muito mais, são eu e minha dor, são eu e meu prazer, são eu e minha razão, minha força, minha sanidade e insanidade, minha totalidade incompleta, meu eterno amor e gratidão.
Claro, são eu e muito além do que sou, porque sem alguns nada sou.
São o melhor dos melhores e não é preciso nada além do que são.

terça-feira, novembro 21, 2006

O Bêbado e a platéia

Gostaria de saber do que as pessoas estão a falar e o que pretendem, cada qual no seu canto a escrever como eu ou como qualquer um.
Um bêbado jogado as traças na noite fria caminha descalço... O sangue lhe ferve nas veias, um ódio, uma fúria se levanta dentro dele, será o efeito do álcool? Ou será o efeito do rumo que tomou sua vida?
Berra versos que ecoam no espaço frio da noite escura e calada, os animais o ouvem e fazem um estardalhaço.
Seu público ele o espera... Quer uma plateia? Quer que o aplaudam? Quer que o vejam?
Dança e desajeitado tropeça em obstáculos invisíveis, quer se apresentar ao mundo? Quer que o conheçam, quer ser assunto da hora do dia e da noite, quer chorar, mas seu coração não lhe responde as emoções...Onde estão todos?
Os animais não lhe bastam, ele quer mais...
A natureza ao redor não lhe basta, quer um ser que o ouça como esta ele acostumado a ouvir de todos os outros.
A noite, o tempo, o espaço, as estrelas, o céu, o infinito do universo em silêncio a ouvi-lo não lhe basta, quer ele o som de uma voz que o note, que o inveje ou que o ame... Que possa ser capaz de expressar qualquer sentimento meramente humano.
Seus próprios sentimentos que explodem e anuviam sua mente não lhe bastam, ele busca algo lá fora, busca uma luz que o coloque em destaque nesta noite tão estúpida.
O palco esta montado, as luzes acessas, seus discursos decorados, sua paixão está no auge ele está pronto, mas algo lhe falta... Sim algo mais importante que o espetáculo em si, mais importante que ele e seus sentimentos é a plateia... Onde estaria sua plateia?
Quando declarasse seus erros, exaltasse suas virtudes, quando confessasse seus sonhos, quando se orgulhasse de sua coragem, quando admitisse seus medos e inseguranças, onde estaria a platéia para dar-lhe atenção?
E quando revelasse seu passado e suas esperanças, quem o aplaudiria?
E sobre suas vitórias e derrotas, quem se expressaria?
Que sentido faria seu espetáculo se não houvesse uma única alma que não a sua para ouvi-lo?
O bêbado grita ainda mais alto e se desespera, ele precisa se mostrar quer que o conheçam!
Ele diz: Malditos onde estão? Preciso dizer-vos quem sou, quem prendendo ser, quem fui e no que me transformei!
Mas ninguém lhe responde, ele perde então o chão, o ar lhe falta, o peito dói, seu corpo treme, sua mente se entrega ao medo de não existir, ao medo de nada ser, pois ninguém o vê e acredita que se não podem vê-lo não seria mesmo nada além de um ninguém...
Pois quanta dor sinto no ar, quanto medo... o ar esta carregado de desespero, de pressa e ele envenena a todos nós.
Nos assassina aos poucos, nos enlouquece, deixa apenas uma insatisfação no fim das contas, um sentimento de culpa, de que algo ainda falta.
É um ciclo vicioso que aprisiona todas as almas, as mentes são colocadas numa prensa, os olhos perdidos no espaço a procura de algo, o coração trancado no peito e a liberdade de expressão como lei absoluta: Vejam no que acreditamos! Vejam só os ideais pelos quais lutamos! Vejam no que eu acredito, vejam minhas opiniões, vejam só como são as coisas, vejam como isso é errado! Vejam como tudo está certo do meu jeito!
Vejam, pois se ninguém vê o que digo que vejo e o que quero que vejam, nada faz o mínimo sentido.
É preciso sempre que alguém esteja vendo para que eu exista realmente, mas infelizmente isto não é possível, é um sonho tolo... Quanta coisa foi dita, quanta teoria afirmada e depois derrubada, quanto sangue derramado por verdades que no futuro foram desmentidas, quanta verdade foi mentira e quanta mentira ainda é verdade.
Verdade e mentira, o que são? Como saber?
Isso a plateia que esperamos nos dirá e nós que também somos plateia o que diremos a ela?
Se nada precisássemos dizer, nem provar... Quem sabe fossemos imortais e de nada dependesse nossa existência, além de nós mesmos.