domingo, outubro 09, 2011

Revolução pessoal

Para promover a transformação, a renovação, a revolução, é preciso partir de si mesmo e não apenas de autores, manuais, ideais, opiniões alheias, filmes, professores, cursos, entre tantos outros. A revolução começa internamente e, a partir daí, se expande para o mundo externo como consequência da transformação que já explodiu e inundou todo o seu ser, permitindo que você enxergasse com seus próprios olhos a ilusão erguida diante de si como realidade.

Não se trata de concordar ou discordar desta ou daquela posição; não estamos falando de um simples posicionamento, mas daquilo que é. Quando a transformação torna-se parte do próprio ser, a consciência se desloca em direção ao caminho da revolução, tornando irresistível a mudança à sua frente.

Não se trata de fé cega ou de crer sem ter experimentado por si mesmo a implantação de uma nova consciência. Não se trata de seguir ou aceitar este ou aquele dogma, estas ou aquelas colocações e posicionamentos. Não há fé nem religião, mas sim questionamentos, pois, ao visualizarmos pessoalmente a realidade em que habitamos sob um panorama mais amplo, somos levados a refletir e a enxergar além das imposições externas.

Não adianta concordar com quem quer que seja; é preciso ver e perceber, por si só, a ilusão em que vivemos. Quando isso acontece, tudo se torna tão claro que essa realidade torna-se inaceitável. É necessário partir do coração, despido de sentimentalismos, e da razão, livre de condicionamentos, alcançando a lucidez suficiente para perceber o cenário erguido e, por meio dessa percepção, abrir, pouco a pouco, as cortinas dessa grande peça. Então, aquilo que tomávamos por tudo perde o sentido, dando lugar a um mundo infinito de possibilidades, um desconhecido pronto para ser explorado por nós mesmos, sem depender de opiniões alheias, posicionamentos consagrados ou visões especializadas. A jornada passa a ser trilhada conforme nosso verdadeiro ser, e não segundo aquilo que nos foi imposto ou empurrado goela abaixo.

É um caminho no qual somos senhores de nós mesmos, capazes de decidir de forma independente e confiante, sem nos basearmos rigidamente nisso ou naquilo. É preciso conquistar a confiança em nossas próprias capacidades, ainda não exploradas e muitas vezes desconhecidas, e nos empenharmos no desenvolvimento livre e ilimitado do potencial humano, em harmonia com o todo, em unicidade e não em fragmentação. Não há superioridade de um grupo sobre outro; o que existem são seres que fazem parte de um mesmo organismo, cujo desempenho só será eficaz se houver colaboração e trabalho conjunto, em vez de submissão a divisões inúteis e ilusórias que apenas destroem esse organismo e não levam a lugar algum, mergulhando todos em uma panaceia sem sentido.

É necessário trilhar o caminho para, então, aderir à causa. A vontade nasce no coração daquele que, por si mesmo, descobriu sua verdadeira vocação para o conhecimento.

quarta-feira, setembro 28, 2011

Num mundo memória

Durmo e acordo tateando no escuro,
num mundo de memórias, apagado e chateado.
Brumas cinzentas dos vestígios do passado,
um suspiro que morre no peito.

Coração fraco, enterrado, soterrado de ilusões.
Perdoe-me a dureza e o peso dos meus sentimentos,
a escuridão de onde falo, a frieza desta vida.
Peço compreensão, ainda que não carregue o fardo
de sentimentos tão tolos e inúteis.

Como se fosse preciso pedir... Já sabes.
Espera-me. Sei que esperas.
Esperas com paciência infinita,
e um dia, hei de chegar e tocar tua mão.

Por vezes, vens e me abraças,
quando me estendo até os limites do possível,
e eis um abraço...
Um abraço daqueles que fazem calar tudo ao redor,
e então, deixo de ser apenas eu
e sou, enfim.

Num mundo despedaçado e miserável como este,
não nos resta nada além de memórias,
como verdades absolutas, vontades resolutas.
Aqui, acessamos o amor
pequeno pedaço de amor 
por meio da memória guardada,
prisão do passado.

Então, deixa-me transmitir um pouco,
quase nada, do que sei do amor.
Assim, através da lembrança,
haja o que houver,
fica com o melhor que houver em mim,
e então saberás um pouco mais
dessa coisa a que chamo amor.

Ao meu filho, deixo um manancial de lembranças
do dia em que fomos felizes.
Vai junto o amor —
a todos que já amam
e, principalmente, àqueles que há muito deixaram de amar —
para que se lembrem da sensação
de abraçar tudo o que há,
deixar-se arrastar pela energia pacífica
de um universo infinito e desconhecido,
a silenciar nossas mentes sombrias.

quarta-feira, setembro 14, 2011

Me perguntaram quem sou, eu disse ninguém

No cais, pousa uma alma noturna, eterna e diminuta diante dos dramas nos quais a mente se mantém embebida.
Uma consciência há milênios adormecida.
Bêbada de ilusão.
Atormentada por vícios.
Confusa diante da grandeza superficial dos problemas que incessantemente assolam a vida humana.

Quão ordinário é o homem que somos, de pé no cais.
Um corpo movediço e mortiço, pendendo para cá e para lá, como um barco à deriva.

Ao redor, erguia-se uma tempestade macabra: trovões malfeitores, ventos fora da lei.
A lei da vida e do universo de nada vale neste mundo de enganos.
O mar estoura nervoso na praia dos atordoados.

Nos braços, carrega o medo — um medo primitivo, resgatado de eras remotas.
Medo que constantemente se renova sob novas faces, que se atualiza sempre e sempre, em seu e em nossos corações.

Não é a noite, nem o mar.
É ele quem teme o desconhecido que somente nele — e em nós — habita.
E interminavelmente dura, alimentado mais e mais, à medida que se depara com o inexplicável de si mesmo.

Falta-lhe (nos) maturidade, mas já é um homem.
Ancião, vivido e sofrido, mergulha cada vez mais nas andanças desesperadas da alma.
Uma criança que nunca cresceu — nem quer crescer.
Pelo menos, ainda não.
Não agora, que prefere afundar-se cada vez mais e mais fundo em ilusões, bebê-las todas de uma vez.
Um bêbedo que jamais vislumbrou a lucidez.

Perguntaram quem era, mas não havia ninguém.

terça-feira, setembro 06, 2011

Templo do infinito

Se eu me calar para ouvir o som
O som que vibra de dentro
De dentro do meu coração
Não de um órgão, de sangue e carne
De um lugar sutil, quase imperceptível a olhos desatentos
Um lugar e som só meu
Não há início de um lugar nem fim de um som,
Sem que haja um no outro, confundindo-se em um só
Só então comecei a entender verdadeiramente o jargão daqueles que se voltam um pouco mais para a espiritualidade: “Meu corpo, meu templo”.
Volto os olhos para dentro de um templo infinito, ilimitado e destemido
E nada posso ver além da verdade desconhecida,
Sinto então minha alma se expandir para todos os lugares de uma só vez.
Cresço tanto que nem sei o quanto, perdendo aos poucos a dimensão do meu tamanho, sigo viajando na infinitude de meu ser e não há lugar onde queira estar além de em mim mesma.
Vou me achegando aos poucos a um universo jamais imaginado e então meu templo inunda-se de sensações milhares.
Sigo eternamente levantando voo em meio a pousos variados no tempo e conquisto a certeza de que estou viva para sempre
Aqui dentro tudo se aquieta para deixar fluir a verdadeira força que nos move, deixo partir livremente o espirito outrora aprisionado ao corpo, deixo que se manifeste e mergulhe nas energias, onde a razão humana não pode alcançar e vou assim renovando a todo o tempo um ser que muito havia se esquecido.
Vou aos poucos desafrouxando os laços apertados com este mundo de ilusões e dramas diversos, para alçar livre.
Longo caminho a trilhar, milenares medos a vencer, infindáveis dramas a superar, mais a respeitar, mais a me desapegar das coisas e pessoas, mais a deixar para trás vícios e manias, menos bagagem a arrastar.
Vou pelo caminho deixando o peso das coisas, a fim de levantar voo rumo ao templo que em mim habita.

quarta-feira, julho 06, 2011

Débito

Neste mundo assim que nascemos contraímos uma dívida.
E conosco a dívida cresce, indefinidamente, inevitavelmente.
E então somos ao longo de nossa existência preparados para pagar estas dívidas.
Não tivemos a oportunidade de escolher se queremos ou não nos endividar, simplesmente somos forçados a pagar como condição inerente ao nosso ser.
Um pagamento parcelado até o último suspiro de vida.
Ingressamos na escola e somos aos poucos preparados para a vida, que se resume ao mercado de trabalho. Nos ensinam que é preciso trabalhar para que sejamos dignos, para que sejamos “alguém”.
Aos poucos nos ensinam que não devemos confiar em qualquer um, nos ensinam que devemos ter cuidado com o mundo lá fora, nos ensinam a temer e com medo nos entregamos, nos ensinam que devemos ser fortes para suportar o peso da cruz que devemos carregar, devemos suportar as pressões com perseverança se quisermos vencer. Nos ensinam, portanto, a suportar a escravidão docilmente sem jamais questionar o porque disto tudo, afinal, não cabe a nós pobres mortais questionar as coisas que sempre existiram e sempre existirão desta maneira.
Não cabe a nós, pequenos humanos, refletir sobre o que realmente somos, cabe a nós aceitar pacificamente nossa situação, aceitar o mundo como ele é, por mais injusto que pareça, pois o tempo todo tentam nos convencer de que todo esse sofrimento vale a pena, seja porque a religião nos promete o paraíso e libertação após uma vida toda de provações, seja porque o sistema monetário nos promete uma vida confortável e estável, após anos de trabalho incessante, seja porque aqueles que amamos nos fazem querer seguir a diante neste caminho de espinhos, dentre milhares de outros motivos, de outras promessas, de outras mentiras e falácias, tão falsas quanto a vida que levamos, quanto o amor que supomos ter.
Quão rudimentar ainda somos, escravos de um sistema de milhões de possibilidades para se endividar ainda mais e a isso chamamos liberdade de escolha, liberdade para decidir seu próprio destino, liberdade para ser o que quiser, fazer o que quiser.
Nem sequer arranhamos o real sentido de liberdade ainda, nem sequer imaginamos o que isso possa ser, de tão cegos que estamos, de tão escravos que somos, de tão enganados, de tão sedados.
Como pode uma humanidade inteira curvar-se a tamanha mediocridade, deixar-se conquistar por um materialismo paupérrimo, levando uma vida com tamanha incompetência.
Contentando-se com felicidade aos pedaços, entre altos e baixos, como podemos aceitar com naturalidade abusos contra a própria vida no planeta?
Uma vida pobre, quase inútil, despedaçada, fragmentada, apagada.
Achamo-nos especiais? Incomparáveis?
Pois digam-me onde estão as particularidades de seres que aceitaram curvar-se todos a escravidão, a padronização, classificação, uniformização.
Creem que seu modo de vestir é único, seu gosto musical é único, seu estilo de vida é único, pois saiba que milhares de outros vestem estas mesmas marcas, ouvem estas mesmas músicas, levam o mesmo estilo de vida. Tudo o que se enquadra neste sistema falso e corrupto é feito para uniformizar, enquadrar, encaixar peças em um tabuleiro para que toda esta mentira se perpetue.
A particularidade de um ser não se resume a roupas, músicas, estilos de vida, nada disso importa realmente, tudo não passa de uma superfície que se enquadra a um sistema incivilizado. Nada disso revela a potencialidade do ser humano integrado a todos os outros seres, nada disso explora as verdadeiras capacidades dos seres que coabitam o mesmo ambiente, o mesmo planeta, nada disso conjuga a unicidade presente em todas as coisas falsamente separadas e divididas.
Como podemos nos deixar levar assim ao nosso próprio fim tão pacificamente, como podemos nos conformar com toda dor gerada, como podemos legar às gerações futuras, aos nossos filhos, a todos os seres vivos tamanha destruição.
Nosso modo de vida deveria ser motivo de vergonha e indignação e não estagnação e aceitação! Vamos nos levantar, vamos acordar deste pesadelo e começar desde já a reverter a situação, deixar de lado as futilidades do ego, enxergar a diante, remover o véu da ilusão em que vivemos e começar a erguer uma civilização. Nem sequer somos uma civilização, estamos abaixo disso, no fundo do poço, não há mais degraus para descer, mas ainda há muitos para subir.
Porque continuar a rolar na lama em que estamos, porque nos limitarmos a revirar o lixo que criamos, porque nos repetirmos eternamente em erros que tantas e tantas vezes cometemos?
Porque tamanho apego a todas as coisas, não é preciso se prender, segurar, de nada adianta, pois todas as coisas um dia deixarão de serem nossas para serem de outro alguém.
Este sistema precisa acabar, precisa quebrar, é preciso por fim a toda essa ilusão inútil em que vivemos. Cedo ou tarde vai acabar.

quinta-feira, junho 16, 2011

O amanhã

O amanhã permanece em suspenso, porque hoje é o que importa para quem tempo infinito suporta.
A ansiedade, quiçá uma dúvida estúpida sobre o querer ser, sobre o dia seguinte, um futuro limite legado aos iludidos.
Uma só vida entre os temidos.
A natureza mesma das imersões, fascínios e declínios.
O começo de um eclipse, um sol que não nasce nem se põe.
A casa está viva, eis que se move em rotação. Aos poucos, percepção.
Ei-los mortos estagnados, corpos-mentes inertes. Encantados pelas novidades de um mundo que se arrasta e repete. Arrasta e repete. Arrasta e repete. Arrasta e repete.
Ecoa eternamente em diferentes tons.
Caranguejos a arranhar a superfície. Um mito, esperança irrealizável.
A superfície deixo para os tolos.

terça-feira, maio 31, 2011

Acorde

Hei...
Acorde...
Você está me ouvindo?
Consegue me ouvir ai de onde está?
Levante-se
Vamos viajar para longe deste sonho ruim
Vamos caminhar, seguir adiante, deixar tudo para trás
Você consegue me ver?
Consegue me ver de onde está?
Apague as luzes, faz sol lá fora
Você pode andar sozinho? Sem que seja necessário todas estas muletas?
Acha que pode abrir os olhos?
Pode acordar e se levantar?
Foi tudo um sonho...
Um sonho longo
Um sonho ruim
Agora é hora de se despedir
É preciso despertar
Já nos atrasamos demais
Já nos estressamos demais
Já estamos ricos demais ou pobres demais
Estamos cansados demais
Cansados de sonhar
De acumular
Agora queremos viver
Estamos cheios de querer ser, sonhar ser, esperar ser
Agora queremos apenas ser o que já somos
Estamos fadados de querer ter, sonhar ter, esperar ter
Agora vamos devolver, oferecer, manifestar
A hora é agora, vamos nos levantar de nossos leitos amargos e egocêntricos
Vamos nos unir e transformar tudo o que há
Vamos morrer para um mundo em que tudo se acaba e nascer para um mundo em que tudo se renova
Vamos recolher todo o lixo e arrebentar as barreiras de contenção
Deste mundo eu não levo nada,
Não quero nada, nem espero nada
Não há o que se esperar de um lugar como este
Você vem?
Neste caminho não estou só, ninguém está.

terça-feira, maio 17, 2011

A revolta desarmada dos tolos

De repente reinou o silêncio dentro do meu quarto, estava escuro só haviam as luzes externas da rua que invadiam as brechas das cortinas fechadas. Me perguntei que diabo de lugar é esse que vinha me perturbar o sono ou quem sabe não fosse essa força perversa que paira o tempo todo sobre todas as cabeças limítrofes que me quisesse sempre fazer dormir, dormir um sono tão profundo que nem que sacudissem ou tocassem sobre minha cabeça uma orquestra em La maior eu poderia sequer abrir os olhos em despertar.

Me reviro de um lado para outro e reclamo: Não me façam descer ao ridículo mais uma vez! Ao medo zombeteiro e escrachado a que tanto se esforçam para nos acomodar dentro de caixas, prisões para vaga-lumes!

Ah! De novo aquela palpitação, uma sensação de invasão, de novo, de novo e de novo, o mal estar se instalou novamente. Então comigo pensei: Lá vamos nós de novo... Eis os sintomas do mal que se alastrava pelo corpo e mente que não me deixam calar: Vertigem, seguida de um medo imbecil.

Qualquer esforço para levantar-me parecia em vão, contra uma força implacável que me subjuga a um mundo feito de plástico descartável, mais sólido que aço. Eis que estala um pensamento implantado de fora: Ligue a TV e o mal estar se dissipa, a solidão se disfarça, a escuridão se esquiva em meio ao tubo azul de luz, o silêncio se apaga e eis que terás acordado novamente neste mundo a que tanto conheces.

Não! Não irei ligar a TV, cansei-me de ouvir os infinitos disparates, disparados deste aparelho que mais me parece o zunir de uma colmeia de abelhas homicidas. Já basta ter de aturar pela manhã a visão nefasta das intermináveis bancas de jornais vomitando pelo caminho uma diversidade estúpida de assuntos.

Continuam investindo com tanto desespero em minha distração que quase sinto pena deste sistema falido. Confesso que por vezes rio sozinha tal qual fazem os loucos. Nesta sala de detenção de segurança máxima, rio sozinha desta névoa de medo a qual somos subjugados, daqui não é possível enxergar mais nada.

Ahhh! Preciso rir deste conto de fadas! Zoar, zombar! Ah e como funciona, hein?! Me parece um relógio, de tão certo! É isso mesmo pessoal, por dentro estou rindo.
Estou rindo de vocês, rindo de mim, rindo de suas metas, de seus sonhos, de seus exemplos, de seus modelos...
Estou rindo de suas caras, destas máscaras fajutas de papelão. Vamos todos morrer e vejam só as suas caras no espelho, esse pedaço de carne.
Vocês estão levando a sério mesmo? Ou tudo não passa de uma brincadeira de mau gosto?

Olhem bem para o flagelo vivido por aqueles abaixo da linha de pobreza, veja como isso não nos afeta tanto quanto o piso arranhado da sala de jantar, ou quem sabe as paredes manchadas de gordura. Que absurdo é preciso investir! Claro! Suei a camisa para ter tudo o que tenho, já os pobretões, pobres diabos, não fizeram nada, não conquistaram nada e por isso não merecem nada, pois eles não tem nada e são tão descartáveis quando os objetos da casa.
Morre um, nasce outro em seu lugar, que valor tem quem nada tem? Hã?

Não adianta, senhores e senhoras, não adianta argumentar, seja contra ou a favor desta ou daquela posição, seja politicamente correta, seja egoisticamente manipulada, pois é este o mundo que erigimos e muitos o aceitam de bom grado como sua morada! Um investimento, um futuro garantido, uma promessa de sucesso e toda essa falácia vendida.

Posso até me calar diante de tamanha bobagem, posso ouvi-los gritar aos berros em meus ouvidos que é este o único mundo possível, que é este o nosso lugar, que é esta a nossa natureza e que somente este mundo existe e que portanto, seria impossível sequer almejar algo além disso. Digo aos senhores que estou ouvido esta besteira desde que nasci! Sim, estou pacientemente ouvindo, que o bicho papão esta de baixo da cama, que o palhaço assassino me espera na próxima esquina, que a cuca cedo ou tarde vai me pegar, que o boi da cara preta vai me ferrar, e que o monstro do amanhã está a espreita... São infinitas as idiotices que venho escutando desde então e nestas milhares de armadilhas eu já caí como um pato.

Por vezes a estupidez é tamanha que me privo de dizer uma palavra sequer e me recolho ao silêncio no qual tenho sossego, e então balanço a cabeça e concordo com sandices inúmeras que me vem jorrar na cabeça, aqueles que em tudo creem, só não creem em si mesmos, aqueles que tudo sabem, só não sabem de si mesmos.
Vou aturando, aguentando, suportando, mas acreditando? Ah não! Quanto a isso não lhes posso garantir! Podem falar, palestrar até espumar a boca, mas não vão me convencer a aceitar, não mesmo!
O animal aqui foi aprisionado, acorrentado, mas não vencido! O animal foi comprado, vendido, descartado, reciclado, mas não foi convencido.

Me oferecem a ideia, bonitinha, formuladinha, mastigadinha, prontinha, não preciso nem pensar, não é preciso sequer ter um cérebro para questionar, mas não vou engolir, obrigada, mas não vou aceitar e se estão incomodados pela minha interna e eterna não aceitação, pois que se afastem do meu caminho, pois que me risquem de suas listas, de seus projetos, de seus sonhos, de seus futuros.

Caiam fora da minha frente, pois vou passar como um tanque de guerra por sobre esse muro forjado, não se enganem com o meu silêncio, não se enganem quando me verem dissimuladamente concordar com besteiras para não me estressar, aqui dentro a banda toca ao contrário, o rio corre as avessas, os ponteiros batem invertidos no ritmo do MEU coração.

domingo, maio 01, 2011

Ai...

O que quer dizer essa pulsação?
Esse tremor do corpo
Esse sono profundo
Suspiro moribundo

O que são essas manchas na pele?
Esses ferimentos pequenos
Esse enjoo embolado
Insonia noturna

O que quer dizer esses dedos lascados?
Essa erupção no rosto
Esse vulcão prestes a explodir
Lágrimas das veias

Veneno...
Venenos
Vertendo...

Um corpo embebido em verdades
Ai que nojo me dá
Ai que ânsia me dá

Que mergulho profundo
Ilusão corriqueira
Nuvens a tapar o sol

Ai! Não pode ser!

Um ser sequer
Um dia sequer
Um querer se querer

Não quero!
Não posso querer!
A menos que me venha prometer
Um dia vir mesmo a morrer

sexta-feira, abril 22, 2011

Verão

Do verão faz- me beber
Deste sol faz- me sofrer

Sofrer
Deter
Reter

Dos dias tórridos de domingo
Das tardes tão estúpidas
Limonadas geladas

Estreito os olhos para engolir o horizonte
Está tudo tão claro, meus olhos não veem
Meu Deus, que balburdia, que fizeram?

Respiro
Degelo
Em meus sonhos, um naufrago

Eu permito
Permeio
Delineio por sobre a superfície espessa e macia do tapete

Rolo
Revolvo a terra com meu corpo
Verme a se esbaldar, dançar, nutrir

Música
Serpente esquiva
Cresce e queima

Paro. Decido.
Não irei mais comer
Não irei mais beber

Paro. Penso. Pondero.
Não quero mais prosseguir
Afrouxo minhas mãos agarradas as suas e as deixo cair soltas no ar, até que se deitem suavemente em despedida sobre um perfil embaçado de quem aos poucos se afasta e perde devagar o foco.

As portas se abrem
Ventania, invasão
Desfalece em esquecimento

Deixe tocar até o final esta canção, deixe rolar até o final esta versão
Deixe morrer esta composição
Deixe-a ser, pois não há de ser nada.

quarta-feira, abril 06, 2011

A seriedade que não sou

Saudades das aventuras da infância
Da espontaneidade adolescente

Eu que nunca fui fiel escudeira das regras
Nem nunca estive a par dos métodos

O sistema foi aos poucos apagando a luz e
Com os sopros das velas dos aniversários,
Foi se extinguindo as chamas do meu coração

Foi então que comecei a morrer,
A sumir,
A deixar e
Hoje no espelho reflete a seriedade que não sou

Não sou séria
Tampouco levo a sério este mundo
Nem me importo com o que a vida reserva

No fundo sabemos o que será,
Não é mágica, é óbvio
É previsível e está tudo dentro dos esquemas do sistema

Mas eu finjo que espero
Finjo que não sei e que aceito
Me calo, abaixo a cabeça e engulo

E como todos, entro na fila para lugar nenhum.

quarta-feira, março 30, 2011

Do que aprendi com os cães, do que não aprendi nos livros, na escola e na televisão.

Me sinto perdida. Acho que talvez seja a primeira vez que estou olhando realmente para o cão — digo, para um cão como ele é, e não como eu penso que seja. Às vezes erro nas minhas interpretações, racionalizo, baseio-me em emoções puramente humanas que não pertencem à realidade dos animais. É como caminhar em um campo desconhecido, um mundo novo, diferente. E, por vezes, tenho tanta dificuldade de andar por ele. Tenho muito a aprender com os cães, pois eles atravessam nosso mundo todos os dias. Muitas vezes ficam confusos, perdidos, incapazes de compreender — e não poderiam, porque o mundo humano se tornou tão complexo. Ainda assim, parecem sempre dispostos a aprender quando nos dispomos a ensiná-los.

Se soubéssemos como é maravilhoso aprender não apenas com a raça humana, mas com toda forma de vida existente, talvez nos comunicaríamos de verdade, sem o egoísmo e o isolamento em que nos aprisionamos. A vida no planeta não cabe somente a nós; cabe a todos os seres. Mas agimos como se somente nós tivéssemos o direito de decidir quem deve ou não permanecer. Estamos a criar “a morte do nascimento”.

É a angústia de uma sociedade desconectada de todas as coisas. A cada passo, distancia-se mais, fechando-se dentro de um casulo intrincado de ideias, crenças, relações financeiras, redes sociais… Estamos tão acima de tudo que quase não podemos enxergar, perceber o que há ao redor, sentir o que acontece.

É difícil compreender por si mesmo, observar algo sem ser guiado. O pensamento está preso às teorias construídas, às propagandas que nos invadem, ao que nos ensinaram a acreditar, às verdades de hoje e mentiras de amanhã, ao que nos dizem para crer.

Senhores, não somos roubados. Não, não somos violados.
Senhores, estamos entregues, rendidos, conquistados, arrebatados, arrebanhados. Caminhamos docilmente, pacificamente entorpecidos, rumo à destruição, rumo ao abismo.

Há uma mesa posta para o jantar. Convidados se levantam, cada qual amarra aos pés uma ponta da toalha, deslumbrados com tudo que construíram e destruíram. Caminham calmamente, puxam a toalha e, com ela, levam tudo que há. Taças se espatifam, pratos cheios de comida se quebram, mas não voltamos para arrumar a bagunça. Não podemos ouvir o som das coisas se quebrando às nossas costas. Não podemos sentir o cheiro da comida a se perder, nem perceber pelo tato a toalha atada aos nossos pés. Perdemos a conexão. Perdemos a capacidade de observar e aprender a partir do que não conhecemos, sem depender de crenças ou teorias.

Tudo em que acreditamos foi construído; é um castelo de cartas que se crê de concreto, porque é tangível. Mas é frágil, fútil, inútil. Não posso soprá-lo, pois tenho medo. Medo de perceber sua fragilidade, medo de encarar a minha própria, medo de me deparar com o nada, com o que não foi construído, com o que não conheço. Afasto-me dos pilares efêmeros do castelo, para perpetuar essa fraqueza. E assim nos movemos com cuidado, para não derrubar a estrutura que tanto nos esforçamos em manter, cegos para tudo que há além das paredes de papel.

quinta-feira, março 17, 2011

Cenário

Cenário
Manchado.
Cortina.
Névoa.

Maresia que pousa e repousa sobre as calçadas de Copacabana.
Brisa do mar, chicote de veludo no rosto, acalma-me a cruz.
O peso dos prédios, opostos ao mar, abaixo do céu.

Vai-se pondo o sol, vão-se acendendo os artifícios da noite.
Meus olhos distraídos, pousados sobre a maravilha das coisas,
reduzem o peso do fardo, da gravidade sobre os ombros, da seriedade da vida.
Alguns minutos de elasticidade, flexibilidade, irreverência.

Não...
Agora não é hora de dizer o que é nem o que deve ser feito.
Calem-se todos e ouçam o ruído de todas as coisas de agora.

Os acontecimentos se desenrolam eternamente, em repetição,
de veracidade impossível,
velocidade — um princípio absoluto.

O que não cala nos passeios dos entardeceres e amanheceres
é o desconforto que sinto diante deste mundo.
Estou delirando, com febre, doente, desconexa.

Assumo compromissos, me alimento com saúde,
por vezes deslizo, cuido das plantas, dos animais...
Ainda não há conforto.
Há confronto, de dentro para fora.

Não consigo me apegar, assim como quem salva uma vida.
Sinto-me solta, dispersa.
Por vezes, me agarro, sem forças para me fixar.

Que condição é essa?
Que cidade é essa que não me acolhe?
Que verdade é essa que não me convence?

Estou aqui, mas não pertenço a este lugar.
Luto uma guerra que não é minha,
partidos dos quais não faço parte.

Memórias do silêncio, do mar calmo e tranquilo,
de um céu de domingo,
de um beijo que o tempo apartou, que a vida levou.

Das noites de Natal,
uma luz se apagou,
outra se acendeu.

Então, me prove que ainda tenho a mim,
ao menos a mim,
que não me perdi,
e que já não é tarde.


quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Um encontro

Perder um amigo é uma dor sem igual
Me lembro ter imaginado uma ausência perene,
Sonhava uma dor suave, amainada pelo passar do tempo
Foi-se aos poucos se dissolvendo uma imagem embrutecida pelas novidades
Falta de juízo total, diamante secreto da exclusividade
As lágrimas, notas tortas de um piano desafinado, puro desajeito das mãos estúpidas de um velho escritor
Juramos eternidade sem nada dizer,
Tamanha sinceridade não exige memória,
Nada, um sentido guardado numa caixa de madeira
Tudo, um sentimento descolado do tempo, da fama e do nome
Renovado pedido, faz minh'alma te chamar mais para perto
Aquece meu lar, tens outro nome, outra face, outra alma
Mas se entre ambos um mundo, um abismo de diferenças, aqui entre particularidades, generalidades, vem pairando acima essa forma, esse sopro, vida a nos animar a todos,
Não há de ser meramente humano esse som, essa força que nos move
Há de ser tudo o que há
Para fora e para dentro. Um encontro.

quarta-feira, janeiro 19, 2011

Desculpe-me

Desculpe-me não dizer
Prometi ligar, mas não liguei
Prometi voltar, mas não voltei
Prometi escrever, mas não escrevi
Destinos, promessas, esperanças firmadas em aparências
Cumpro o silêncio que me deixa calar
A expressão do desejo se reflete na presença desnecessária das palavras
Desculpe-me não dizer.
O não manifesto das palavras se insurge contra a oratória que prova
Imputa ânimo naquele que escuta, vence ou convence.
O que preciso eu dizer ao ego que me ouve
Esclarecer, amanhecer sobre mim explicações imprecisas
Há fenômenos sobre os quais prefiro nada dizer
Há que se cumprir algo além de palavras
Seja sorte, sina a sair do ventre, nascer do ovo
A manar de si e inundar tudo o que há

sábado, outubro 23, 2010

Mil anos luz

Não preciso de nada...
Nada que me faça sentir que anos a fio irei viver
Décadas, séculos adiante...
Sou transitória, eterna
Não dói a idéia de que a morte segue
Dói-me a brevidade que me expõe à dureza das coisas
De uma cor que desbota
De um rosto que desvanece
De uma memória que se apaga
Uma verdade digna de morte
Um espaço entre coisas
Quem vai segue adiante
Uma nota que toca
Concisa e precisa
Digo: Fique e permaneça
Sussuro: Vá e desvaneça
Essa sílaba, divisa entre consoantes e vogais
Uma alma entre mil mundos
Um ruído do tempo, do agora
Afora há sempre um amanhã
Tantos que nem sei quantos
Não há tempo nem espaço que se nos possa limitar
Estou partindo
Por vezes fugindo
Mas estou chegando
Aos poucos
Num raio de mil anos luz

sábado, setembro 25, 2010

Eu ouço

Eu ouço as pessoas falarem comigo
Me aconselhando, me guiando, me alertando, me confortando
Me sinto por vezes perdida em meio a tantas palavras
Deus me perdoe ser ingrata em relação àqueles que ofertam ajuda
Não é isso o que acontece
Agradeço a cada segundo, pela sorte que tenho
Pela maravilha de trilhar um caminho rodeado pelas pessoas que me cercam
Poderiam acreditar em qualquer coisa, existem milhares de escolhas
E em meio a tantas escolhas, optaram por acreditar nesse eu a que me propus representar
E eu a medida que ouvia, acenava positivamente com a cabeça sem nada dizer
Todos me pareciam estar certos, mas aos poucos fui começando a perceber um pequeno buraco dentro de mim
A sensação de que alguma coisa faltava ali, faltava uma voz
Uma voz que quase não ouvia
É como uma fratura
As vezes temo que me perguntem minha opinião
O que você acha disso? O que você quer? O que você tem em mente? Quais são seus objetivos? Onde pretende chegar?
E eu então não saber responder
Ha que se ter uma resposta
Eu percebi que não tenho voz
Não me sinto presente
Estou na água, boiando, boiando...
As águas foram passando, foram me levando e eu fui deixando, deixando...
Todos parecem nadar em alguma direção
As vezes nado para um lado, as vezes para outro
Em alguns vejo algo maravilhoso, vejo uma luz intensa, vejo obstinação
Vejo um objetivo certeiro, um dom quase inato, uma saciedade
Paro para olhar, admirar e então eles se vão no horizonte a nadar
Eu só consigo escrever
Meras palavras
Não consigo falar
Minha voz não tem som
Eu queria saber falar
Por Deus! Não consigo externar
Não consigo ser, nem refletir
Eu só me afogo em meio a esse mar de coisas e mais coisas
Uma alma que se assusta diante de si mesma
Que não consegue se agarrar a nada, são apenas naufrágios
Vou absorvendo um pouco de cada um, um pouquinho daqui, um pouquinho dali
Vou engolindo a água que me dão para beber, para preencher o buraco plantado aqui dentro
Todos têm algo a dizer, a afirmar, então paro para ouvir e muito me admira não poder nada dizer
Estava eu certo dia a caminhar em meio às luzes dos postes, dos faróis dos carros, das vozes das pessoas na rua, dos passos dos apressados, dos atrasados, então olhei para o céu em busca de algo acima de nossas cabeças ocupadas, atarefadas
E vi que a lua estava cheia, brilhava um amarelo alaranjado e então meu coração acalmou e dentro dele surgiu um chamado, uma voz que a muito não se manifestava, soterrada em meio a tantas estruturas
Essa voz era a minha própria, por Deus! Ela dizia para seguir no horizonte rumo a lua que brilhava, eternamente rumo a luz tão distante no céu, incessantemente rumo a ela
Ela seguia dizendo: Não há cansaço que impeça você de um dia chegar, de um dia alcançar, de um dia encontrar essa luz que lhe parece tão distante, tão impossível...
A luz mais distante do céu me alcançou, e então quem sabe um dia possa você alcançá-la e ao seu lado caminhar na eternidade livre de tempo, livre de espaço, livre de mim
Possa caminhar no infinito desta luz, rumo ao desconhecido, rumo ao impossível, sem nada esperar, nem saber, nem conhecer, sem nada dizer, apenas se abrir, receber, se entregar, se expandir, apenas ser nada que se possa definir, apenas existir silenciosamente nesta imensidão.

domingo, setembro 19, 2010

Os donos da verdade

Não sei que dia foi aquele
Aquele em que decidiram o que era certo e o que era errado.
Foi assim que começou
Cada um carrega dentro de si uma infinidade de valores que somados constituem uma “bagagem” pesada
Alguns se dispõem a arrastá-la consigo pela estrada da vida, acrescendo a ela cada vez mais verdades, teorias, assertivas universais
Aos poucos a alma se curva
Se curva diante das regras, das grades, das crenças, das imposições
Deixa de ser, torna-se dever
A verdade é ouro, mais absoluta certeza
Uma verdade se multiplica por dez e assim por diante, na medida em que vamos nos munindo dela para viver e conviver
As verdades se expandem para além das barreiras as quais nos impusemos e aos poucos começam por contornar as pessoas com as quais convivemos se espalham e invadem as vidas daqueles que ao nosso lado caminham e então se intensificam, se solidificam e falam por você, determinam para o outro como as coisas devem ser, se exteriorizam de modo que o mundo lá fora passa a ter de refletir o que você é ou tudo o que acredita ser.
A mente fica a tagarelar, a determinar, a reger o que não lhe cabe reger. As liberdades se estreitam cada vez mais, os horizontes diminuem e aos poucos beira o insuportável. Eis que nos surgem os desagradáveis donos da verdade.
Aqueles que se julgam aptos a definir o que é certo fazer e a partir disto, determinar para outrem as verdades que para si são supremas
Aqueles que insistem em nos dizer o que devemos fazer em meio a uma inutilidade de idéias pré-formuladas, baseadas em infalíveis verdades
Aqueles que pretendem impor o que são para aqueles que já sabem o que são
Seres fixos, estáticos que se aprisionam em suas próprias verdades e procuram aprisionar todos ao redor, formando uma longa cadeia de prisioneiros iguais, meros reflexos, sombras, apagados num caminho certeiro, verdadeiro, inevitável de repetições obsessivas.
Caminho viciado, circular, amarrado, dos arautos das verdades a seguir, das correções, da palavra ordeira, do conselho certeiro, do que deve ser.
A alma que se eleva ao pedestal infinito das verdades compreende o mais luminoso conhecimento das coisas. Torna-se o juiz que sentencia todos aqueles que se encontram desprotegidos das grades do saber que lhe pertence.
Seu mundo é o verbo da sentença, uma estrada bifurcada entre erros e acertos, uma verdade imposta, suposta realidade, tola ilusão.
Hão de conhecer a liberdade de escolha, a imprevisibilidade das coisas, as diferentes nuances das almas, a diversidade, a transitoriedade das coisas, as metamorfoses que se dão a cada segundo de nossas vidas. Tudo difere. A beleza não é perfeição é o aprendizado, que modifica as coisas, é algo que não molda, mas que pulsa e vive em uma eterna transformação.

quinta-feira, agosto 19, 2010

Procura

Não me procurem nos álbuns
Nas fotos em grupo
Nem em perfis perfeitos de poses estáticas.
Não estarei lá a te olhar
Aquele gelo pedrado no olhar
Que sorri para você ai do outro lado
Estes olhos que nos olham perscrutando
A procura de nada
No rosto um fio parado no papel brilhante da foto, um sorriso
Um atestado, um aval
De que a felicidade passou por você
Beijou-te, fez-te sorrir
Um abraço, um afago querido
Um lembrar, um querer
Destes que só as fotos têm
Uma assinatura, um selo meu de que estive aqui
As fotos provam e comprovam a existência 
Não me procure nas fotos
Pedaços de papel
Telas de computador
Não estou lá, nunca estive
Pudera eu viver dentro de uma fotografia
Ou em um arquivo de computador
Assim, numa eterna ilusão, parada no tempo, isolada no espaço
Mas não nessa passageira utopia, acelerada no tempo, perdida no espaço
Distraída no compasso desacertado da vida.


quinta-feira, agosto 12, 2010

O eterno amanhã

Morrendo para o hoje, vivendo para o amanhã
No futuro eu serei...
No amanhã existe a promessa que hoje não se concretiza
O Amanhã é incerto, mas pelo amanhã eu espero
E de hoje eu esqueço, eu passo por ele como quem toma um remédio
Eu sou um ‘eterno vir-a-ser’
Pois hoje nada sou, além do que deveria ser amanhã
Não há um segundo sequer do hoje que não tenha um que da angústia de amanhã
A sede de hoje se projeta no amanhã
Quando me deito para descansar procuro imaginar que o amanhã não virá
Que o amanhã não irá acontecer, o dia não irá amanhecer, o tempo não irá prosseguir
Imagino que hoje é o último dia, a última noite, minha última vez, meu último sono
Então o mundo silencia, o tempo para e só assim posso descansar no que é
Posso ser no momento em que sou
Adormeço agora sem pedir pelo amanhã
O absoluto envolve a última noite do que é no presente
Eu me apago na escuridão do quarto como se jamais tivesse existido
E assim reina a paz que jamais reinou.