terça-feira, agosto 05, 2008

Sucesso

Tá aí uma coisa que todos esperam.
Fazem filas e por ele esperam a vida toda, em tudo que fazem, como se fosse um ponto final, um resultado feliz.

Em geral, sucesso se define por uma promoção, seja ela amorosa, financeira, profissional ou espiritual, resultante de uma grande batalha, esforço, dedicação, estudo, perseverança, trabalho árduo, dentre outras coisas do gênero.

Apesar dos sacrifícios que se fazem, dizem que vale a pena.

O sucesso foi alojado no topo da montanha mais íngreme da cordilheira, e poucos conseguem escalar até o fim.
O fim é mesmo a palavra mais adequada, pois o sucesso nada mais é que o desfecho de uma história.

Todos têm, mais ou menos — uns mais, outros menos —, ideia do sucesso que pretendem atingir.

Sucesso: ascensão, algo de que se possa orgulhar. Olhos alheios se voltam com admiração.

Imagine só: nós, ou melhor, você, no topo da montanha, petrificado de alegria e satisfação; ali, crava bandeiras vitoriosas e dá cabo a mais uma história, dentre tantas outras, no livro dos bons.

O negócio é o seguinte: arranje um objetivo X, apaixone-se por ele e que este seja fonte de desejos, vontades.
Sonhe com ele, lute por ele, viva por ele, empenhe-se por ele, sacrifique-se por ele, arrisque-se por ele.

Vá! Siga adiante, dê fim à angústia que o consome. Esta não se repete, não é a mesma, nem para você nem para mim, então não me venha dizer o segredo do sucesso, pois o seu não é como o meu!

Desejo mesmo, mais do que ter sucesso, querer tê-lo assim como o concebem.

O sucesso, aquele de que todos falam, deve ser mesmo glamoroso; do contrário, a fila não seria crescente para nele embarcarem.

Quando o vivo em meus sonhos, sou tudo que sempre quis ser. Mas e agora? O que sou além de sonhos em querer ser?

E você, sabe o que quer ser?
Como pode saber o que quer ser se nem ao menos sabe o que é agora?
E então, sabe mesmo o que quer ser?

Será que o que é agora não conta?
Querer ser, querer fazer, querer se tornar...

E se não quisesse nada além do que é agora?
Sem a carreira brilhante com a qual sonha, você não é nada?
Sem o salário incrível que irá receber, não será nada?
E ser o que é agora, neste exato momento, não é incrível?
Ou será que é muito pouco, para o muito que sonha ser?

Lute agora, para ser no futuro.
É só isso?

Só não se esqueça de que o agora contém tudo o que importa ou que deveria importar: você.
Por trás de todo sucesso, de suas conquistas e de seu teatro mundo afora, existe você, nós...

Você não é o sucesso que quer conquistar. Ou é?
As conquistas estão sempre lá fora, e é por isso que não detemos o que está aqui dentro.
E quando sentimos que não há nada lá fora que já não esteja aqui dentro... nós?
Por que buscar lá fora o que já está aqui?

A forma como enxergamos se dá através do prisma de nossa visão ou ponto de vista, que nos reflete no mundo nem sempre da forma como imaginávamos.

Poderíamos abrir as portas para tudo o que quisermos, aqui mesmo.
Não que tenhamos que nos estagnar, mas sim nos voltar para algo maior — quem sabe para nós mesmos, que nos envolvemos e circundamos o mundo exterior.

Só não é tão fácil quanto procurar lá fora, porque aqui dentro, por vezes, pode estar uma bagunça que, mais cedo ou mais tarde, terá de ser ajeitada ou simplesmente deixada de lado.

O que faço não é o que sou, porque o que sou não pode ser feito.

Sucesso: siga o modelo, suba as escadas e seja feliz!

quinta-feira, julho 17, 2008

Semente

Que tola pretensão a minha, achar que poderia ajudar aqueles que não querem ajuda...

Mundo tirano! Não, o mundo não é tirano. O problema são as pessoas, que podem fazer um mal danado a si mesmas, aos outros e ao próprio mundo.

Acreditei, como uma imbecil, que, envergada de palavras e ideias, poderia mudar o mundo. Minha ambição nem chegou a tanto. Bastava-me uma única pessoa, que não se trata de qualquer um, mas daquela que, para mim, é única.

Em determinados momentos, no calor da palavra, interrompida pelo soluço do choro, quase implorei para que minhas palavras fizessem efeito.
Pedia, mesmo sabendo, no fundo, que não seria suficiente, que não apenas me ouvisse, mas ao menos pensasse a respeito.
Pedia, por favor, que entendesse o que eu estava dizendo e, mais uma vez, por favor, que refletisse sobre isso. Sei que, às vezes, pensa, mas o que sempre parece prevalecer é a vontade de permanecer imóvel—afinal, assim é mais cômodo.

Num primeiro momento, veio o êxtase e a satisfação de poder ajudar, pois acreditei ter plantado uma semente. Achei que seria apenas questão de tempo para que germinasse, para que brotasse e fixasse raízes na terra, transformando-se, no futuro, em uma verdadeira árvore.
Várias vezes sonhei com o dia em que me deitaria à sombra dessa árvore. Mas a semente não cresceu. Por mais que eu regasse, não brotou. Então, um dia, percebi que nunca me coube a tarefa de fazê-la florescer.

Trata-se de uma vida, e não posso decidir por outra que não seja a minha.
Mas nada me impede de plantar a semente. A partir daí, não sou eu quem deve alimentá-la—ela precisa alimentar-se de si mesma. Esse é o momento mais doloroso, porque nunca deixei de acreditar.

A palavra final não é minha, nem mesmo a decisão. A força motriz não sou eu, e sim você—mas isso não significa que esteja só.
Dê as cartas, faça sua aposta... Só não jogue com os meus sentimentos.

No fim, a sensação de impotência é tão grande que me faz pequena diante das coisas. Não tenho nada, nem mesmo o chão.

Pudera eu não ter plantado. Mas plantei, arei o solo e reguei a pequena semente—só não imaginei que fosse tão frágil a ponto de não revelar sequer um traço de verde.
Talvez frágil seja você. Ou, quem sabe, eu. Somos menores que um núcleo de átomo.

O som das minhas palavras se propagou num imenso vazio e não refletiu em lugar algum.

Dentro de mim, sentia carregar uma galáxia de microrganismos, células e milhares de partículas banhadas por alguma utilidade maior.
Mas hoje, justamente hoje, sinto carregar nas costas uma galáxia de estrelas sem qualquer serventia.
Nem sei se é mesmo preciso ser útil. Parece até uma obrigação, um pré-requisito para existir.

Alguns creem sacudir o mundo proclamando suas ideias. Outros creem que não movem sequer um grão de areia. No fim, tudo depende daquilo em que você acredita—ou deixa de acreditar.
Seria mais fácil mudar o mundo do que a si mesmo? Ou será que só se pode mudar o mundo mudando a si mesmo, como uma corrente que contagia todos ao redor?

Não tenho certeza. Mas quem tem?
Creio que muitos. Talvez esse seja o problema.
Ou talvez não...

quarta-feira, julho 16, 2008

Deixe-me

Deixe-me voar,
Flutuar,
Gravitar,
Girar,
Levitar,
Propalar,
Desaparecer no ar,
Rodopiar até me desequilibrar,
Pisar estrelas,
Adentrar as nuvens do céu,
Ser céu, sol, caracol,
Ser alvorada, crepúsculo, sinfonia,
Içar velas para seguir viagem,
Peregrinar em terras encantadas,
Penetrar o paraíso em bem aventurança,
Torna-me luz,
Mas não esqueças de me vir apagar de forma que se faça valer o brilho de um só instante que seja.
Hei de dançar, em passos ligeiros, lentos, calmos, afoitos, equilibrados, desajeitados, ornados, torpes, ousados, receosos, alegres, pesarosos, culposos, sossegados, a acompanhar ardente sinfonia.
Seguem-se aplausos,
Seguem-se vaias,
Segue-se a banda a tocar até o espetáculo acabar,

Hei-me a dançar...
Hei-me a vibrar...
Hei-me a viver...
Hei-me a fenecer...





quarta-feira, julho 02, 2008

Revele

Revele-me seu inferno,
Revele-me seus crimes,
Revele-me seus pensamentos mais vis,
Revele-me suas trevas,
Revele-me seus desejos mais obscuros,
Revele-me a sujeira varrida para baixo do tapete, mas não deixe que esta se espalhe e macule o que realmente és.
Não me venhas mostrar supostas anormalidades de sua personalidade por meio de prantos culposos.
Venha e se exponha seguro de si para além de sua sujeira conhecedor de sua verdadeira natureza.
Que os fantasmas do passado jamais governem lhe o presente e lhe destrua o futuro.
Que seus demônios sejam neutralizados e trabalhem a seu favor.
Que estejas cá presente independente das desgraças que lhe ameaçam o equilíbrio.
Que seus dramas de demasiadas origens verguem-se ante sua liberdade de escolha em levá-los ao topo ou ao cabo.
Ereto, em movimento, soberano de si mesmo.
A realizar a mais difícil das tarefas, você, livre para ser.


quinta-feira, junho 26, 2008

Maria em fuga

Em casa, todos dormem…
Sua mente insone se angustia cada vez mais sob a opressão do silêncio.
Levanta-se da cama, procurando o controle da TV.
Madrugada. Droga de filme B!
Desiste da TV.

Alarmes acionados: empecilho para os vadios da noite.
Do outro quarto, sonoros roncos ecoam.
Pé por pé, desativa o alarme. Os roncos continuam. O caminho está livre.

Veste uma roupa qualquer.
A fuga tem início.
Desce vagarosamente as escadas. Os roncos permanecem regulares.

Onde estão as chaves do carro? Por que nunca as deixam no gancho?
Vai até a cozinha e lá estão elas, sobre a mesa.

Abre a porta, evitando ruídos. Os roncos… ainda os ouve. Sinal livre.
Agora, a parte mais difícil: ligar o carro. A arma do crime. Sem provocar um escarcéu.

Gira a chave na ignição. Olhos fechados. Implora para que o som da mecânica falhe desta vez.
Maldição! Funcionou — e muito bem.
Motor ligado. Não há mais como voltar atrás.

Assim que se afasta de casa, sente-se cada vez melhor. Liga o som e perde o rumo.
Duas da manhã. Cidade fantasma.
Maria Fumaça. Maria Gasolina. Maria em fuga.

Acelera o carro e, junto, vai seu coração.
Nada mais importa. Está partindo. Toma a estrada.
Estremece, mas não se arrepende. Está decidida. O momento chegou.

Ultrapassa os limites de velocidade e quer ainda mais.
Não há como voltar atrás. Nem quer.

Pelo espelho, olha para o banco traseiro.
Lá está ela. Sentada. À espera.
Olhos vidrados. Está em serviço.

Por vezes, atende a chamados de emergência. Se ela vem, não há retorno.
No volante, sente um frio na espinha. Enjoa.
Os olhos continuam a observá-la.

Está obstinada. Chamou, e ela veio atender-lhe o pedido.
Pela última vez em sua vida, olhou pelo espelho e piscou para ela.
Girou o volante, e o fim se deu num piscar de olhos.

A fuga. Ato consumado.

 


sábado, junho 21, 2008

Dado

Dado na mão, mesa vazia, apenas migalhas de pão [rastros ordinários].
Dúvidas [tédio], chove.
Mão cerrada, fria, comprime o dado [sopro quente].
Quais as chances? [suspira]
Rola o dado sobre a mesa, desliza na superfície lisa, cai. [Pic! Pic! Pic! Pic! Piiiic!]
Quica no chão, para.
Quais as chances?
Seis! [sorri]
O tempo se vai a jogar dados. [Silêncio]
Chove, e o dado é deixado onde está. [boceja — sintomas do início do dia]
E as chances?
Já disse! São seis, que se multiplicam por dez, e por mais dez, e mais dez, e mais dez...
[Arrepia. Imagina 6 × 10 × 10 × 10 × 10 infinitamente.]
A chaleira apita no fogo — é hora de tomar o café e se tornar novamente ordinário.

segunda-feira, junho 16, 2008

Senhor...

Senhor?
Haveria o senhor de se despedir quando julgasse não mais suportar a realidade em que nos limitamos a viver.
Há tempos não o encontro, nem mesmo na solidão a que se propôs.
O senhor existe... Não é mesmo?
Ambos sabemos... Não é mais segredo.
Vossa mente perambula num extenso vazio, na esperança de se compreender.
Os pensamentos que lhe percorrem a cabeça, tão leve e pesarosa, são como fogo líquido.
Uma pena... Não toquei solo aberto por tremores febris de vossa imaginação.
O senhor pensa ser dentre todos os seres, aquele a quem se esqueceu e não mais pôde achar-se em vida.
Pode me ouvir?
Devo então perguntar: E se em ti pousassem as esperanças de quem quer que seja?
Vossas idéias percorrem o tempo – espaço e se aquecem se chocam se expandem...
Qual fora mesmo vossa lição?
Força propulsora fora plantada em terreno inóspito.
A chama se fez por combustão de ínfima pequenez, firme e dispersa intensa e moribunda, fenômeno inconstante num giro imprevisível.
Amigo, mestre acompanhe-me sempre, mesmo quando ausente.
Sois filósofo que se assemelha as estrelas que brilham constantes no céu.
O combustível se extingue, chega a morte, mas não o fim.
Vosso caráter estelar se converte num buraco negro que tudo consome ao redor, nele nos perdemos ou nos achamos.
Vossa luz se dispersa no vácuo, mas há de se refletir e brilhar centenas de vezes mais.
Mariposas rondam vosso brilho, girando encantadas, perdidas trombando, insistem até morrerem em meio às ideias.
Meras divagações sobre vós.
Confesso ter acreditado que estivesses aqui ao meu lado.
Meu coração lamentou...
Pensei em orar, mas a muito perdi a fé.
Não me lembro exatamente quando deixei de acreditar, mas sei que foi este o momento em que o perdi.


sexta-feira, junho 13, 2008

Queria estar com vocês

Queria ir, mas tive de ficar…
Só queria passear.
Queria ficar, mas tive de ir...
Só queria me deitar.
Queria lá estar em um jardim a nos sentar.
Queria ali ficar a observar o pôr-do-sol ao lado de vocês.
Queria adiante caminhar e conversar com vocês bem cedo assim que o sol nascer, em um lugar cheio de encantos simples, apenas meus e seus.
Queria voltar e me aconchegar ao lado de vocês em uma noite qualquer a ver estrelas e cantar.
Queria na sexta-feira junto de vocês colher frutos no quintal.
Queria no domingo canoar com vocês, todos calados a sonhar.
Queria com vocês acalentar o coração e sorrir não no futuro, mas num exato momento.
Queria com vocês apenas o presente do presente.
Queria estar...
Estar apenas com vocês...
Vocês sabem quem são...
E sabem que era mesmo isso o que eu queria.


segunda-feira, junho 09, 2008

O livro

O livro
Matéria concreta
Ideia abstrata
As páginas dançam e se tocam ao som do papel
Mil línguas ondulam ruminam palavras engolem ideias
Olhos famintos lhe invadem o texto
O corpo do livro, preto no branco, palavras impressas
A alma do livro, misto de cores, palavras expressas
Os livros no cárcere da prateleira, conversam, sussurram,
Discordam, concordam,
Brigam, se amam
Os livros sorriem ou choram atenção
Todos eles carentes de olhos que os leiam e apoderem-se de sua intimidade.