terça-feira, dezembro 02, 2025

A Árvore da Vida

A raiz do medo:
Meu eu, embriagado pela confusão mental e emocional, como alguém perdido de si que distorce formas e sentidos, movia-se oscilante, hesitante, num ir e vir instável.
Gerava ânsia, medo, o peso seco de um nó na garganta.
Ambiguidade.
Limites borrados.
Um mar revolto de emoções.

Meu olhar se esquivava do caos interior, onde sombras de antigos medos se chocavam como ventos desencontrados — um vendaval — até que, lentamente, comecei a notar que era preciso parar.
Olhar.
Encarar.
Deixar de fugir.
De me dispersar.

Eu me confundi,
mas agora serei eu mesma a guia que ilumina a escuridão.
Não vou te invadir, mas te apoiar.
Não vou te sufocar, mas te afagar.
Não vou te julgar, mas te proteger.

Vou te acompanhar e ensinar a crescer,
a firmar o passo,
a escolher o caminho que te chama.
Não vou te aprisionar,
nem me agarrar a você.
Não vou te dissolver na minha confusão emocional.

Quero clarificar, responder, conduzir,
abrir a clareira
para que você caminhe por si.

E então você virá à tona, aos poucos,
um rebento que rompe a terra úmida e recebe seu primeiro raio de luz e cresce:
suavemente,
silenciosamente,
como uma árvore que se ergue na encosta da montanha.

Primeiro, as raízes se aprofundam,
bebem da fértil escuridão,
a germinação emerge
da sombra para a claridade.

A luz puxa para cima,
chama,
eleva,
até que o que era frágil se torne árvore frondosa,
capaz de oferecer alívio e sombra
a quem chega cansado da travessia.

A árvore que me torno
é o meu eixo.
Minha espinha dorsal.

Estou criando profundidade.
Não destruo o que fui,
transcendo.

Mudanças profundas não aparecem —
crescem:
um milímetro por dia,
um insight por vez,
um limite recuperado,
um sonho transformado em compreensão,
uma emoção acolhida,
uma pergunta honesta feita a mim mesma.

Assim, minha árvore ganha
raízes emocionais mais robustas,
tronco mais espesso,
copa mais aberta.

Não estou mais tentando ficar forte de uma vez.
Estou me tornando forte,
e aprendendo a me amar como quem gera
frutos.

E quando o vento sopra vigoroso,
não temo que ele me quebre.
Porque agora sei:
minha força não é rigidez,
mas firmeza.

segunda-feira, dezembro 01, 2025

Minha vida sem plateia

De mim,
retiro a cruz.
Do outro,
removo o poder.
A nós,
um brinde ao nó que se desata.
A mim,
ofereço a escolha.
Ao outro,
o lugar que lhe cabe.
A nós,
resta o caminho que cada qual decidiu seguir.
Despeço-me
sem me despedaçar.
Ao passado, deixo meu adeus.
Minha presença está onde estou.
No futuro, estão os frutos das minhas escolhas.
Minha vida sem plateia.

sábado, novembro 29, 2025

Verdadeiro Norte

Quero ser sujeito, não objeto.
Quero ocupar meu próprio espaço,
encher-me de mim,
tomar de volta a energia que espalhei pelo mundo,
nutrir-me dela
e devolvê-la ao meu centro.

Quero escolher, e não ser escolhida.
Escolher a mim mesma.
Pertencer a mim.
Conquistar meu espaço interno
e ser soberana do meu território sutil.

Quero recobrar minha força,
meu significado,
guiar meus passos
rumo a mim,
assumindo meu poder e meu propósito.

Quero tomar posse do meu reino interior
e oferecer presença —
essa presença que nasce no eixo e irradia.

E então,
quando tudo estiver em mim,
quando corpo e alma se unirem na mesma vertente,
quero montar meu cavalo
e subir com ele:
conduzindo o movimento,
em vez de ser conduzida.

terça-feira, novembro 25, 2025

Marina

Minha embarcação, outrora atracada no porto,
carregou-se de ideias, ilusões, fantasias
e de tudo o que a vida exige e oferece.
Ficou ali aportada pelo tempo necessário,
até que chegasse a hora de descarregar a carga pesada
que ocupava o convés e afogava os porões.

Quando finalmente abri espaço,
ergui a âncora que dormia no fundo escuro do mar.
Meu navio zarpou em silêncio,
deslizando sobre a superfície turva e espessa das águas paradas.
Foi-se afastando, leve, conduzido pelo vento marítimo
que prometia mudança.

E quando já desaparecia no horizonte
dos olhos daqueles que ficaram,
soou seu chamado profundo —
uma voz metálica que parecia vir
das entranhas antigas do casco.
Seu toque longo, grave, vibrante, quase gutural,
reverberou no ar:

um som que levantou o olhar dos homens em terra
e o voo das aves marinhas.

Todos nós, cada qual a seu modo,
sempre em busca de alimento para a alma.

Meu navio se chama Marina,
e meu caminho — desde o início —
são as águas profundas.



domingo, novembro 23, 2025

Sol do Meio-dia

Os símbolos estão aí;
existem por si.

Seu significado nasce no inconsciente coletivo,
corre como um rio
e deságua no inconsciente do indivíduo,
que pode acolhê-los tal como chegam
ou trabalhá-los
até que revelem outro contorno.

Então pergunto:
o que faço do que fizeram comigo?

Quando elevo meu olhar
acima das circunstâncias nas quais estou mergulhada —
acima das dispersões mundanas que me arrastam
e às quais me deixo levar —
percebo, pelo canto do olho,
as mentiras que comprei
como verdades imutáveis.
E isso me assusta.

É um olhar que me despedaça,
que me retira dos papéis que aceitei sem perceber.
Arranca à força as máscaras que me confortam
e me limitam,
desmancha o falso controle,
expõe-me à minha própria verdade
e me fere
com uma luz que eu nunca me dispus a encarar.

A claridade cresce
até tornar-se o sol do meio-dia
e, nesse avançar das margens,
cega-me.

O mundo externo permanece iluminado,
mas meus olhos, ofuscados,
só percebem escuridão.

Meus sentidos, habituados
ao ruído das vozes,
às tendências gerais,
às demandas do tempo,
agora hesitam.

Recolhem-se,
tateando dentro de mim.
Os pés avançam sobre um terreno incerto,
desprovido das antigas certezas
que antes pareciam inquestionáveis.

Então percebo
que minha liberdade
se limita à dualidade de duas escolhas:

segurar-me na margem desse rio
em busca de controle,
de explicações
e de ilusões;

ou soltar as mãos,
render-me ao fluxo
e deixar que as águas me conduzam
ao desconhecido.

E assim retorno à pergunta primal,
que agora ressoa mais fundo:
o que faço do que fiz de mim?

Os fatos permanecem.
Mas a narrativa — essa, sim — é obra minha.

Visto-me com o que tenho à mão,
como quero.
Costuro, símbolo por símbolo,
a história que escolho viver
a partir disto.

sexta-feira, novembro 21, 2025

Aproximação

Quanto mais nítida se torna minha visão de mim mesma, mais claramente consigo enxergar o outro sobre o qual projetei partes minhas. Antes, eu olhava para fora com olhos feridos e, por isso, só encontrava formas de sobreviver. Agora compreendo melhor: ao desbloquear minha própria percepção, começo a ver a realidade com menos distorção.

A vida externa é um palco onde o inconsciente se expressa. O significado e a importância de algo ou alguém em nossa vida somos nós que atribuímos, pois o poder de influência sempre esteve conosco. Tudo, no fim, é uma questão de decisão interna, ainda que pareça vir de fora.

Os que estão perdidos diante de alguém que começou a se encontrar não agem a partir de si mesmos; apenas reagem ao campo energético daquele que mudou. Suas atitudes não são movimentos espontâneos, mas respostas às emanações de quem cresceu, se moveu e se transformou.

Quem avança não se afasta do outro, mas se aproxima de si, de sua própria grandeza e potencialidade. Nunca se perde ao crescer; o que se perde é apenas o que já não acompanha o novo movimento.

A alma não está aqui para controlar a realidade, mas para interagir com o mundo e se transformar por meio dele. É no diálogo entre o interno e o externo que a consciência se expande.

segunda-feira, novembro 17, 2025

AI – Autenticidade Inerente

É justamente diante daquilo que nos soa mais artificial que se reacende, em nós, o desejo de ser real. Talvez, no fim das contas, precisemos das máquinas e dos artifícios para nos lembrar do que é ser humano.
Todo ser que se projeta para fora, cedo ou tarde, precisará recolher-se para dentro de si para reencontrar a coerência que o integra como um todo.
O mundo artificial nos empurra para fora. A alma, pede retorno para dentro.