quarta-feira, julho 16, 2025

Movediça

Dentro de mim, vivem mil vidas
Entre múltiplas versões —
Qual delas sou eu?

Quando as luzes externas se apagam,
as máscaras caem
e me confundo com elas.

Meu interior viscoso e mutável,
feito areia movediça a me engolir,

Gesta a realidade
Como um sonho
Que ainda não acordou.

segunda-feira, julho 14, 2025

A Arte de Habitar a Si Mesmo

Não me fechei para o mundo. Decidi me abrir, primeiro, para a minha própria verdade. Existe uma diferença entre reagir inconscientemente e responder com consciência. Grande parte de nós, vive condicionado a padrões automáticos: agimos movidos por feridas, medos, traumas ou pela vontade de agradar. Mas chega um momento em que algo em nós desperta. E então, em vez de repetir, escolhemos avançar.

Nesse espaço interno, as ações deixam de buscar aprovação. Passam a ser guiadas por escolhas conscientes, alinhadas ao discernimento, à integridade e à sintonia com o que é verdadeiro dentro de nós.

Quando isso acontece, começamos a nos libertar dos jogos emocionais e da necessidade de projetar no outro aquilo que antes não conseguíamos reconhecer em nós mesmos. A autonomia se fortalece. As palavras ganham intenção, a presença ganha valor e a paz torna-se um bem inegociável.

Não preciso mais convencer ninguém sobre o meu valor. Estou aprendendo a reconhecê-lo com honestidade e gentileza. E, com isso, passo a priorizar vínculos recíprocos.

Meu centro de força já não depende da validação externa para existir. Isso não me isola. Pelo contrário, torna minha relação com o mundo mais lúcida. E é a partir desse lugar que me permito, enfim, ser real.

Inconsciente

Ele me diz:

Você pode me testar inúmeras vezes e, nas inúmeras vezes em que me testar, irá falhar miseravelmente.

sábado, julho 12, 2025

A globalização encolheu o mundo: virtualmente mais conectados, emocionalmente desconexos. O contraste entre a proximidade tecnológica e o distanciamento afetivo.

O mundo se estreitou. Tudo parece ter se reduzido a uma polarização crua e exaustiva: o certo contra o errado, o meu sistema de crenças contra o resto do mundo. A dualidade foi levada ao extremo.

A globalização ampliou os horizontes do espaço físico, mas, por outro lado, encolheu nosso pensamento. Ficamos presos a uma lógica irracional: “é isso ou aquilo”, “quero tudo e não quero nada”. E assim, nosso mundinho, que corre freneticamente por rotinas caóticas e sem tempo, tornou-se estagnado e pequeno.

Vivemos afogados em novidades. A cada segundo, algo novo nos é empurrado. Mas, no fundo, nada realmente novo acontece. Apenas o velho de sempre, reciclado em formatos cada vez mais rasos, despejado com violência dentro de nós, como se fôssemos tubos vazios.

Resta-nos o despropósito. Uma busca incessante por encaixe em um cenário arruinado, que já não faz mais sentido.

E diante disso tudo, o mundo acabou?

Para alguns, talvez sim.

Mas eu ainda estou aqui. E enquanto estiver, ele não acabará. O sentimento esfriou, é verdade, mas ainda posso sentir. E se ainda há em mim essa emoção, é porque devem existir outros como eu. Sobreviventes do sentir em um tempo que anestesia.

quinta-feira, julho 10, 2025

O mundo e sua crescente polarização

Vivemos tempos em que mulheres desprezam os homens e homens desprezam as mulheres. A combatividade tomou o lugar da escuta, e a agressividade passou a mirar o outro como inimigo. Indivíduos se veem como adversários a serem eliminados, e esse modo de pensar criou uma sociedade sufocada dentro de uma armadura rígida e artificial, feita para nos isolar uns dos outros.

O espírito de cooperação foi rejeitado. A nova palavra de ordem é: eu não preciso de você. A partir dessa crença, instala-se o conflito. Passamos a combater irracionalmente, mesmo quando encobrimos esse combate com discursos que soam lógicos. Justificamos nossa raiva reprimida projetando-a nas falhas e imperfeições dos outros. Incapazes de olhar para os próprios erros, preferimos manter os olhos voltados para fora, como forma de escapar das sombras que habitam em nós.

Nos enfrentamos até o esgotamento, e ao fim, restamos em pedaços.
As energias que nos compõem, opostas e igualmente naturais, não precisam viver em confronto. Elas podem coexistir em harmonia. Cada ser humano carrega dentro de si uma multiplicidade de aspectos, entre eles os femininos e os masculinos. Essas forças não precisam competir pelo domínio da narrativa pessoal. Integrá-las é reconhecer-se inteiro.

A visão fragmentada de mundo que insiste em dividir, em vez de unir, não nos fortalece. Enfraquece-nos. Realizar a integração entre partes distintas nos engrandece e nos aproxima de uma existência mais plena. No entanto, o discurso dominante parece ter invertido o propósito: dividir para conquistar. O que muitas vezes esquecemos é que, ao final desse processo, os verdadeiramente conquistados somos nós.

quarta-feira, julho 09, 2025

Deserto do real

Por vezes, me invade um sentimento de opressão no peito, que rasga em pedaços o meu tão sonhado ideal de bem-estar. Sou lançada a uma zona de total desconforto. Minha mente, viciada em consertar falhas e encaixar peças, me escaneia em busca de erros. Procura classificar e ordenar qualquer vestígio de caos, elemento inaceitável na lógica cartesiana à qual minha razão se molda constantemente.

Nada deve escapar sem uma explicação plausível e imediata. Faço malabarismos internos para conter e organizar sentimentos, ações e decisões. Já aos ímpetos e instintos, ofereço silêncio, controle e repressão. Crio uma fachada limpa, simétrica, com uma proporcionalidade invejável. Tudo isso para me conceber como alguém aceitável em mim mesma e diante da sociedade.

Sigo adiante nessa fantasia bem-sucedida de modelo exemplar. Uma peça devidamente encaixada e funcional nas vidas secas de terras áridas. Eis o nosso deserto do real.

sábado, julho 05, 2025

Ruído que precede o despertar

Quando um raio luminoso surge no céu e irrompe sobre a terra num estrondo assombroso e repentino, pode se dispersar em uma faísca que queima uma árvore e se alastra pela floresta, ou pode se estancar, anulado pelo solo.

A carga massiva descarregada no contato entre céu e terra busca equilíbrio após o fenômeno que corta nossa paisagem como uma flecha mensageira do firmamento. O desconforto que provoca atinge-nos em cheio, faz sacudir o chão que pisamos e, por vezes, incendeia tudo ao redor, reduzindo a pó a vasta extensão de nossas certezas.

O som que nos desperta do sono profundo é incômodo como um grito no meio do silêncio. Logo após, instala-se um vazio opressor que nos obriga a encarar o que antes ignorávamos. Nossas mentes, viciadas em soluções imediatas e respostas rápidas, perdem-se no território desconhecido da transmutação. E ali, na fronteira entre o susto e o silêncio, a alquimia trazida à luz da consciência nos paralisa diante da escuridão de nós mesmos.

Meu núcleo carrega uma fúria de substâncias instáveis, prestes a se explodir em erupção. Temo a violência dessa força natural que poderia dizimar tudo o que construí. O autocontrole tornou-se a única defesa contra aquilo que mais temo em mim: a minha força.