terça-feira, junho 03, 2025

O que vejo é o que sou

O que vejo
é o que sou.

Não existe um lugar a se alcançar
além daquele onde já estou.

Não tem como ser de outra forma:
não posso partir de um ponto
de onde eu já não esteja.

Não há resposta
fora da experiência presente.

Tudo o que posso ver
reflete o que sou,
do contrário, me seria invisível
aquilo a que não me toca a consciência.

Não posso falar
fora do que sou.

Meu mundo e realidade sou eu,
porque é a partir de mim
que posso caminhar
e enxergar
o que digo estar fora de mim.

Mas a forma como vejo o que está fora
reflete o que está em mim.

Tudo aquilo que está além de mim
me escapa,
e, para mim,
não existe.

A resposta está
no próprio olhar que pergunta.

O olhar que busca
é já o encontro.

segunda-feira, junho 02, 2025

O colapso que revela

Pelas rachaduras dos muros que ergui contra mim, vejo entrar uma luz. Permito-me aproximar um pouco mais do colapso da estrutura e olhar por entre as frestas, à procura do desconhecido que se oculta à minha consciência.

Mãe

Mãe é a janela aberta por onde entra o sol que aquece todos os cantos da casa. E essa casa é o meu coração.

Sob o Sol

Estrela que embala os animais em cálido adormecer,
Guia luminoso dos pássaros, em busca de sustento,
Fonte ardente onde os répteis se rendem, em banhos imóveis,
Corpo celeste que nos traça a órbita e nos dá direção.

Cá estamos, no caos, sob sua luz,
Irradiando-se sobre fracos e fortes, sem distinção.
Sempre dançamos entre o desejo de expor-nos
E a urgência de proteger-nos dessa força vital.

Sementes trazidas de terras longínquas e misteriosas
Eclodem sob suas bênçãos silenciosas.

domingo, junho 01, 2025

O Que Me Habita

O questionamento sempre foi uma constante na minha vida. Minha imagem, ou identidade, parece ter se formado a partir de perguntas, transformando-me numa grande interrogação.
Sinto que a certeza das coisas sempre me escapa, como uma mão que tenta segurar o ar entre os dedos, sem considerar que tal elemento se destina ao inspirar e expirar da respiração que nos mantém vivos — de natureza livre e fluida —, e não ao agarrar e reter.
Os olhos estão sempre à procura de respostas, mas a busca devolve ainda mais perguntas, numa equação que nunca se resolve.
Posso até me esconder do olhar alheio e acreditar que estou livre, mas... e do meu olhar que me vê através do olhar do outro? E do meu olhar que se dirige ao outro, como uma flecha apontada? E do meu olhar que se volta a mim, como uma arma carregada? Até que ponto estou, de fato, livre?
Se sou eu quem me quer, sou eu quem não me tenho. Estando em mim, mas não me possuindo, sigo tateando os móveis da casa no escuro: guio-me pelo posicionamento, mas a certeza de cada coisa em seu lugar me escapa, e me faz tropeçar. Saio de casa e volto hesitante, como quem esquece as chaves.
O tempo todo me esqueço e me lembro de quem sou. O que vale a pena, em mim, é somente aquilo que me habita. 
O mistério das coisas — e de mim mesma — me atravessa de uma ponta a outra. As certezas, tão distantes de me habitarem, parecem antes me desconstruir como ser. Sigo me afirmando na não-afirmação, buscando moldar o que não tem forma, entender o incompreensível, sondar o insondável. Coloco-me numa posição de eterna viajante, em busca de...

sábado, maio 31, 2025

Banquete das Forças Ocultas

Minha alma é como as águas de um rio subterrâneo, que passa sem que alguém possa ver.
O de baixo nutre o de cima. O interior sustenta a superfície.
Aqui, as sombras também podem falar; elas têm seu lugar à mesa.
De uma ponta a outra, todos se sentam reunidos: uns tão alheios, outros compenetrados; alguns são etéreos, outros, densos, feito matéria.
Eletricidade e magnetismo compartilham uma só refeição.

sexta-feira, maio 30, 2025

Vídeo game da vida

No videogame da vida, nada se move porque você não se move.
Temendo mover-se e errar, erra-se na estagnação.
Se olhar para o outro como parceiro de jogo, e não como mero adversário, por meio das narrativas impostas aos players, começamos a nos mover adiante — e não em círculos.
Seguindo fielmente o script do jogo, tornamo-nos NPCs: jogadores não jogáveis, sem protagonismo sobre a própria vida.
Sim, fomos programados, somos programáveis, bonecos coadjuvantes; mas, diante disso, não pare de jogar.
Jogue, permaneça no jogo, mas aprimore-se e mova-se em direção a novas fases.
O simulacro é inevitável, mas crie, neste jogo criado, suas próprias experiências e aprendizados.
O que puder ser de si, seja. Solte, o quanto puder, o espelho coletivo de ações e reações.
Não é se isolar do todo, mas se unir a ele a partir de si mesmo.
O coletivo que se dispõe à união genuína — e não à mera massa de manobra — é poderoso, e quem detém o poder está ciente disso, programando o sistema a fim de manter o jogo sob controle.
A identidade é um muro invisível de controle sobre aquilo que não tem forma nem se pode moldar.
Tire os dedos dos botões que te definem e conduza a si mesmo neste jogo.