quinta-feira, fevereiro 19, 2026

Indizível

Panaceia de equívocos.

Mal-entendidos.

Cada ser, um território.
Cada língua, única
indizível.

Tento traduzir-me.
Não tenho fluência.

Minhas palavras
fazem ruído.

Silêncios gritam.
Intervalos afastam.

Vago.

Existe quem fale
a minha língua?

Ou sou eu,
aprendendo
o idioma de travessia?

quinta-feira, fevereiro 12, 2026

Passagem Estreita

A passagem é estreita
e me aperta entre paredes de pedra.

Ao longo do dia
vivi para vê-las ruir.

Penso nas pessoas de alma bonita,
nas coisas imóveis,
instantes carregados na carroça vazia
do olhar.

O rangido constante das rodas,
trepidando nas mesmas pedras que oprimem,
canta minha passagem.

A tensão
entre o corpo sombreado do céu,
escurecido por nuvens de chuva,
e o brilho regente do Sol
que derrama sobre a terra
seu tom morno de mel

faz brotar dos poros o sal:
o mesmo do mar e dos olhos,
do calor e da emoção.

Criação.

terça-feira, fevereiro 10, 2026

Pratos Brancos

Pratos brancos, vazios,
sobre a madeira.
Simplicidade crua.

Testemunho pela transparência do vidro:
aquilo que é,
sem reflexo projetado.

O olhar registra
sem mediação,
sem jogo de imagens,
na refração da luz do dia,
nem quente, nem fria,
pura.

O cenário não convida
nem rechaça.
Permanece.

Não invade.
Constata.

Legitimidade primal,
anterior à fome
e à sede.

O alimento, ausente de forma,
foi ingerido
e digerido.

O que foi visto
não pode escapar
ao ponto de não retorno.

sábado, janeiro 31, 2026

Temperança

Piso sentindo o chão
mesmo vestida de vermelho.

A intensidade
não me faz perder o passo.

Caminho sem me dispersar
quando sigo minha própria força.

Permito-me dançar entre tons,
do vermelho ao branco,
da vida, do desejo, da energia
à clareza, à verdade, à simplicidade.

Mesclo as cores,
preparo o tempero.
Misturo sem contaminar,
sem exceder.

Mexo sem me perder
no comprimento da onda.

Sabores surgem
e se recolhem em harmonia.

Cores coexistem
como expressão
de um estado de ser.

sexta-feira, janeiro 30, 2026

Para aprender a me despedir

Após a chuva
abriu-se o sol.
Sua luz suave conduzia passos silenciosos
que subiam as escadas.

Senti-me em casa
dentro da minha própria história.

No amanhecer, o céu
misturava tintas em tons de lilás,
e as cores sussurravam
sensações de sossego.

Avancei constante, rua abaixo,
por um bairro já conhecido.
Uma nostalgia sem passado
pairava leve, sem peso.

Fui até o crepúsculo
para aprender a me despedir
das belezas que pude desfrutar.

Ao longe, ondulava o verde-bandeira
das palmeiras ao vento.
A doçura das nuvens,
embebidas no fogo brando
do sol que já se ia,
foi um presente
que acolhi no coração.

quarta-feira, janeiro 28, 2026

Minha Nação Sou Eu

Há, no Brasil, muita gente tomada pelo complexo de vira-lata. Pessoas que se sentem inferiores diante dos outros e, a partir disso, passam a tratar o próprio país como antiético, sujo, como se aqui nada tivesse valor. Essa visão não passa de uma generalização empobrecedora, que pouco explica e nada transforma. Serve apenas para denegrir, de forma gratuita, a terra que nos abriga.

Reduzir o Brasil à sujeira e à podridão é injusto. Esta é a casa onde vivo, e não me reconheço nessa imagem. Existem, sim, pessoas ruins entre nós, e não são poucas. Isso é inegável. Mas e as boas? Onde ficam nesse discurso? Foram apagadas, esquecidas, empurradas para fora da narrativa para sustentar a ideia confortável de que o problema está sempre no território, nunca em quem o habita. A sujeira não está no mapa; ela começa no indivíduo, apagado dentro de uma imagem deturpada do coletivo que ele mesmo ajuda a construir.

Há uma contradição evidente em condenar o país enquanto se exime da própria responsabilidade ética. Se tantos se dizem incomodados com a “sujeira” do Brasil, por que não começar pelo que é mais próximo e mais difícil: a si mesmos? Por que não se tornar, na própria vida, um exemplo da integridade que se admira em outros lugares?

Não adianta atravessar fronteiras em busca de pessoas louváveis se os próprios valores não acompanham a viagem. Nenhum país é moralmente superior por natureza. O que sustenta qualquer lugar são indivíduos com princípios, escolhas conscientes e valores internos inegociáveis. Onde isso falta, não há geografia que resolva.

Buscar melhores oportunidades em outro país é legítimo. Crescer, experimentar, ampliar horizontes faz parte da vida. O que não é legítimo é diminuir o Brasil ou tratá-lo como inferior diante dos outros, como se a dignidade fosse um privilégio estrangeiro. Nenhum território se sustenta sem pessoas íntegras.

Cada indivíduo é um território em si, sem coordenadas geográficas. São as escolhas que fazemos que moldam o relevo da nossa existência; é a percepção que define a altitude e a amplitude da própria grandeza. Estar em casa é estar em si, independentemente do país. Minha nação sou eu. Nativa do próprio ser, uma alma finalmente repatriada em si mesma.

segunda-feira, janeiro 26, 2026

Páginas em Branco

Quero aprender como viver,
não por que viver.

Aprender a existir.

Dentro de um Deus fiel à minha natureza —
que vive no fazer, não no milagre;
na presença de uma vida encarnada.

Meu corpo suporta o existir.

E se emociona
a cada palavra que faço brotar
no solo fértil
destas páginas em branco.