Das vezes em que me meto em situações que a mim não dizem respeito — corriqueiras, cotidianas, dignas de qualquer um — exponho-me, desavisadamente, no meio da avenida de fluxo intenso da vida, sob o risco constante de ser atropelada pelo movimento impessoal dos automóveis que vêm e vão.
Circunstâncias em que, volta e meia, solicitam que eu segure aquilo que não me cabe e, por descuido ou excesso de zelo, deixo cair na avenida as esperanças alheias, que escorrem bueiro adentro. Corro, então, tardiamente para socorrê-las, mas é sempre tarde demais, sem tempo — ou simplesmente não era.
Do alto, vejo a penumbra que forra o interior desprezado do bueiro, o arroto coletivo da massa disforme do esgoto miserável. Ali jaz todo o conteúdo ignorado, varrido, vazado, engolido pela boca imunda de um buraco no asfalto.
Nas sombras da sarjeta vive um trabalhador esquecido pelos olhos humanos, envolto em afazeres incessantes, invisíveis e fundamentais do nosso mais profundo fosso — depositário dos materiais descartados. Mantém-se concentrado no ofício silencioso das trevas, livre da curiosidade alheia.
Chamo-o em busca de um norte:
— Ei, você aí, consegue encontrar algo que deixei cair?
Ele responde apenas:
— Depois.
E continua o que estava fazendo.
Não parece se importar com o que se passa na superfície acima de sua ossada. Seu labor não responde ao chamado do alto, nem obedece às urgências inúteis do dia a dia, que se repete em mais e mais conteúdos a escorrer, sem cessar, pelo negrume dessa vala de esgoto urbano. Sua função permanece oculta à maioria de nós — baratas tontas.
Desisto de me incomodar e de me dispor ao trabalho que não me cabe. Sigo meu caminho, a cantarolar no meu ritmo, no meu tom. Ainda esbarro e me firo nos cactos dos canteiros arredios, piso cacos que cortam, mas sigo — ainda a cantar — e a me lembrar daquele que permanece oculto dentro de um buraco escuro do qual preferimos nos afastar.
Ora, se não sou eu mesma a me lembrar e a me esquecer…