Trago comigo
o que vibra em afinidade,
afinando os instrumentos.
O que me acompanha
não é o conflito,
mas o que ainda é vivo
e possível.
Abrigo
o que faz sentido preservar.
O restante fica.
Sem ataque.
Sem acerto de contas.
Atravesso o rio
e agora vejo a margem
a partir deste novo ângulo,
à distância.
Apenas observo,
sem precisar agir sobre.
Não é preciso interferir
para não ferir,
apenas seguir.
O mapa está iluminado,
posso enxergar
o arranjo musical
e ouvir
a orquestra tocar.
Cada personagem
tem seu instrumento,
cada som
tem sua função.
Acendo as luzes de casa,
deixo-as acesas
para que àqueles
que caminham lá fora
possam ver
e sentir o conforto
que um dia senti
ao vê-las de longe,
na escuridão
e no silêncio da noite.
O silêncio de fundo
acolhe a música
que segue a tocar.
Mantenho as luzes acesas,
iluminando
a orquestra
que se apresenta.
O propósito é o mesmo
para todos;
o que muda
para cada um
é a forma
de chegar a ele.
quinta-feira, janeiro 08, 2026
quarta-feira, janeiro 07, 2026
A caminho de casa
Lembro-me de cada casa que guardei no olhar
pelas caminhadas noturnas que fiz a sós, em silêncio.
Eu as contemplava à distância, como quem reconhece algo
sem saber o nome.
Eu não as via.
Eu as sentia.
De mim não emanava curiosidade pelo que as habitava.
Eu tinha certeza de que ali havia vida,
como um organismo que respira calmamente.
Não me sentia só quando as observava de longe,
nem desejava entrar para conhecer.
Eu as reconhecia.
Era um alívio silencioso saber que a vida
podia ser calma em algum lugar,
simplesmente existindo.
Caminhei na escuridão guiada por luzes
que não ofuscavam nem chamavam.
Elas apenas luziam, permaneciam.
Eu as chamava de paz e sossego,
sem ainda sabê-las.
Isso me mantinha naquele instante
da eternidade finita da vida.
Eu não queria alcançar, tocar ou ter.
Eu queria retornar para casa,
para minha casa,
aquela sem localização específica.
A casa que me aquietava
sempre esteve em construção aqui dentro,
com os materiais que eu tinha em mãos:
estrutura óssea, tinta sanguínea, argamassa cinzenta,
gerando forma, contendo espaços, margens, limites, cobertura.
O corpo sangrava quando não havia paredes.
A luz do mundo invadia o interior
vazio de janelas.
Escrevi erguendo contornos
para conteúdos ainda sem forma.
Eu caminhava à noite admirando as luzes
que escapavam das janelas no silêncio das ruas.
Eu estava a caminho de casa.
Agora me encontro a morar
onde sempre contemplei.
Onde o fogo não se apaga,
a mesa é posta sem pressa,
o silêncio não é vazio
e a vida não precisa se justificar.
A sensação de continuidade tranquila
e permanência que me tocava
numa casa vizinha, numa rua escura,
num país estrangeiro, numa janela iluminada,
era presença.
Há vida que não sangra para existir
e presença que não invade.
Em minha casa a luz está acesa,
não para chamar, nem para ser vista,
mas para existir.
Aqui sopra de leve uma brisa suave
que levanta a saia das cortinas
num movimento tranquilo,
como o vento que pincela as encostas
e desenha relevos.
Hoje, quando escrevo, acendo a luz de casa.
E quem sabe alguém, em outra noite, passe
e sinta a mesma paz que um dia senti.
Ou talvez seja eu mesma a passar,
reconhecendo o que sempre me buscou.
terça-feira, janeiro 06, 2026
Afinidade
O que em mim reconhece
o poeta anônimo,
o homem ajoelhado em silêncio,
o Cristo que cai,
a criança que ri,
o marujo que se despede,
os sonhos calados,
os corpos a sós que dançam,
a música interior,
o valor invisível,
a criação sem plateia,
a existência silente.
Afinidade.
segunda-feira, janeiro 05, 2026
A Criação de Deus
Quando criança, vi um homem idoso
ajoelhado na igreja.
sustentando-se apenas
pelo gesto de juntar as mãos.
Vertia fé
e sofrimento.
Quem sabe pedisse um milagre.
Ele emanava
entrega,
tristeza,
vulnerabilidade.
Aquilo me tocou.
Comecei a chorar
sem saber por quê.
Chorei o meu choro
e o choro dele.
Minha mãe não entendeu.
Eu também não soube explicar.
Apenas senti.
Levantei
e saí da igreja
para esconder a dor
que sentia
por ele.
Sempre fui tomada
pela condição humana.
Pelo estado de espírito
que não se delega.
Deus me alcança
pela criação.
Venho Dele
e dela sou parte.
Realizo-me
na existência,
na experiência
de ser
aquilo que sou.
Humana.
domingo, janeiro 04, 2026
O poder que emana do amor e não da dor
Não é o Cristo divino
que me atravessa.
É o homem
que cai
sob o olhar da mãe.
Ela acompanha.
Ama.
Mesmo na dor.
O homem que tropeça,
assistido pelo amor.
Vulnerável,
acolhido
pela dignidade
que permanece de pé.
O Cristo que me abraça
e me acolhe
não está crucificado.
Está humano,
livre do sacrifício.
Vive no gesto comum:
no carpinteiro,
no menino que ri,
na verdade dita em voz alta,
no choro,
na festa,
no olhar que reconhece
a injustiça.
Ele mora
no humano.
E o ama.
Jesus sofreu
porque viveu.
Amou.
Esteve entre nós.
O calvário
foi apenas o recorte
de um homem
que atravessou
uma existência inteira.
Desço sua dor do pedestal.
Guardo no coração o amor.
sábado, janeiro 03, 2026
Tríade Silenciosa
Certo dia assisti a uma declamação
e fui tocada por uma sensibilidade rara.
Há algo de quase mágico
quando a voz encontra o poema,
ou seria o poema encontrando a voz?
A distância entre quem escreve
e quem diz
desaparece.
A palavra, atravessada por compreensão e entrega,
ganha pausas, inflexões e silêncios.
A voz não explica.
Explicita.
Fundem-se os limites entre
quem declama
e quem escuta.
Forma-se uma tríade silenciosa:
aquele que escreveu,
aquele que diz,
aquele que ouve.
Três estrelas orbitando o mesmo eixo.
No rosto, cada significado é vivido.
O sabor de cada verso é sorvido,
não recitado.
A emoção salta entre estrofes
e nos conduz para dentro da mensagem.
Não assistimos.
Participamos.
Por um instante,
o poema pertence a nós todos.
Ele acontece.
E, ao acontecer,
nos toma.
sexta-feira, janeiro 02, 2026
Fermentação
Eu, que bebi dos destilados fortes,
analgésicos do fundo de um fosso,
à sombra estreita,
escorri pela borda da taça,
copos e garrafas,
em vazamento contínuo
que me abria fendas
e me vestia de vendas.
Sempre mareada,
embotada,
isso era estar embarcada
em delírio coletivo,
encarnada em devaneios.
O febril disparate
conduziu-me às margens espumantes
do vinho da vida em fermentação,
energia que sobe, viva e criativa,
onde revelações borbulham
do fundo à superfície.
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