domingo, janeiro 04, 2026

O poder que emana do amor e não da dor

Não é o Cristo divino
que me atravessa.

É o homem
que cai
sob o olhar da mãe.

Ela acompanha.
Ama.
Mesmo na dor.

O homem que tropeça,
assistido pelo amor.

Vulnerável,
acolhido
pela dignidade
que permanece de pé.

O Cristo que me abraça
e me acolhe
não está crucificado.

Está humano,
livre do sacrifício.

Vive no gesto comum:
no carpinteiro,
no menino que ri,
na verdade dita em voz alta,
no choro,
na festa,
no olhar que reconhece
a injustiça.

Ele mora
no humano.

E o ama.

Jesus sofreu
porque viveu.
Amou.
Esteve entre nós.

O calvário
foi apenas o recorte
de um homem
que atravessou
uma existência inteira.

Desço sua dor do pedestal.
Guardo no coração o amor.

sábado, janeiro 03, 2026

Tríade Silenciosa

Certo dia assisti a uma declamação
e fui tocada por uma sensibilidade rara.
Há algo de quase mágico
quando a voz encontra o poema,
ou seria o poema encontrando a voz?

A distância entre quem escreve
e quem diz
desaparece.

A palavra, atravessada por compreensão e entrega,
ganha pausas, inflexões e silêncios.

A voz não explica.
Explicita.

Fundem-se os limites entre
quem declama
e quem escuta.

Forma-se uma tríade silenciosa:
aquele que escreveu,
aquele que diz,
aquele que ouve.

Três estrelas orbitando o mesmo eixo.

No rosto, cada significado é vivido.
O sabor de cada verso é sorvido,
não recitado.

A emoção salta entre estrofes
e nos conduz para dentro da mensagem.

Não assistimos.
Participamos.

Por um instante,
o poema pertence a nós todos.

Ele acontece.
E, ao acontecer,
nos toma.

sexta-feira, janeiro 02, 2026

Fermentação

Eu, que bebi dos destilados fortes,
analgésicos do fundo de um fosso,
à sombra estreita,
escorri pela borda da taça,
copos e garrafas,
em vazamento contínuo
que me abria fendas
e me vestia de vendas.

Sempre mareada,
embotada,
isso era estar embarcada
em delírio coletivo,
encarnada em devaneios.

O febril disparate
conduziu-me às margens espumantes
do vinho da vida em fermentação,
energia que sobe, viva e criativa,
onde revelações borbulham
do fundo à superfície.





quinta-feira, janeiro 01, 2026

Aforismo Ósseo

Quando me expresso sem ressalvas,
em consonância com meu estado bruto em refino,
podem ver-me até o osso.

Quem vê até o osso
não vê forma nem ornamento.
Vê estrutura viva.

O osso sustenta,
delimita,
dá contorno.

Me permite ficar em pé.

O esqueleto representa
a estrutura essencial
que sustenta o corpo em eixo.

É duro,
mas não maciço.

É poroso,
atravessado por espaços,
canais,
medula.

É justamente essa porosidade
que o torna vivo.

Um osso totalmente rígido,
compacto,
morto,
quebra com facilidade.

Um osso vivo absorve o impacto.
O abalo passa por ele,
mas não o destrói.

Isso não significa
que seja infalível.

A porosidade é a alma do osso.
É corpo instintivo.
É verdade que circula.

É o que permite troca,
respiração,
regeneração.

É ali que o sangue se forma.
É ali que a vida nasce.

A forma externa
e a função vital
não estão separadas.

A forma também guarda,
organiza,
sustenta
o que está oculto.

Osso vivo.

Firme o bastante
para sustentar.

Poroso o suficiente
para não morrer.

A estrutura não endurece
nem fecha o contato.

Ela circula.

Assim o corpo confia.
O mundo não assusta.
E o abalo ensina
que a casa
pode ser habitada.

Quando me mostro até o osso,
não me exponho.

Me sustento.

quarta-feira, dezembro 31, 2025

Usuários

Bem-vindos ao mundo dos usuários.
Nele, vamos nos divertir e nos utilizar.
O foco está no uso, não na identidade.
Não nos interessa quem você é;
interessa-nos sua função de utilizar.

Sua existência mora na função.
Então, vamos fazer funcionar.

Usuários nervosos, ávidos de consumo e novidades.
A atenção pertence às superfícies brilhantes dos smartphones.
Nelas, vamos deslizar.

Sinto a angústia dos olhos correndo de cá para lá,
perdidos na tela desse mar azul
em hipnose coletiva.

Dedos inquietos a rolar
um novelo sem fim.

Vida em cena.
Projeções em telas
que nos enquadram em proporções matemáticas,
em cenas que se querem mostrar.

Tenho um perfil, logo existo.
Mas como fica o que não consigo editar?

Dessa terra de ninguém
ou dessa terra de ninguéns?

terça-feira, dezembro 30, 2025

Barqueiro

A vida trouxe à margem um barqueiro ambivalente, que oscila sobre a superfície do mistério das águas. Ele atravessa, em seu pequeno barco de madeira, um conteúdo oculto gestado no fundo de águas profundas.

Não saberia dizer quantas vezes sua embarcação naufragou, pela má distribuição de pesos que não eram seus sobre o assoalho já desgastado, cansado de acompanhar outros barcos tão perdidos quanto ele.

Por anos à deriva, preso a um vai e vem infinito de fantasias, delírios coletivos de remar sem direção, sua força esvaiu-se a serviço de passageiros desorientados.

Seus olhos tornaram-se opacos, cobertos por uma fina membrana leitosa que lhe velava a visão e distorcia as paisagens. O cenário permanecia sempre enevoado e, enjoado, ele cessou de remar e parou no cruzamento:

Olhos que se fecham para não ver
e olhos que se fecham para ampliar os sentidos.

À distância, o cheiro de lenha no fogo, o som cadenciado do trepidar, os estalos suaves da madeira que se expande no calor, enegrecida, incandescente, chamaram-lhe a atenção.
O fogo que ilumina não consome.

Dançam as chamas que se aderem à madeira, a mesma matéria que sustenta o assoalho de seu barco e as árvores que dão vida às margens fluviais. Dos olhos, uma nascente. Deles, o brilho amarelo do fogo: verdade que se revela.

A mente sopra ao coração:
Não posso mais te proteger daquilo que você já sabe.

Ao despertar deste sonho, seu corpo precisará se acostumar à materialidade das coisas.
Ele não abandona o barco, mas redistribui o peso, equilibrado a partir do centro.

segunda-feira, dezembro 29, 2025

Nuvens passageiras

Sento-me ao lado da tristeza, do medo e da mágoa e faço um minuto de silêncio pelo que jaz eterno na existência. Tudo isso são apenas nuvens que passam no meu céu; eu as vejo, há muito as interpretei e agora só as deixo passar pelo meu campo de visão. Caso um dia precise chorar, deixo-as chorar.

Estou aqui, mas isso não me define.