quarta-feira, dezembro 31, 2025

Usuários

Bem-vindos ao mundo dos usuários.
Nele, vamos nos divertir e nos utilizar.
O foco está no uso, não na identidade.
Não nos interessa quem você é;
interessa-nos sua função de utilizar.

Sua existência mora na função.
Então, vamos fazer funcionar.

Usuários nervosos, ávidos de consumo e novidades.
A atenção pertence às superfícies brilhantes dos smartphones.
Nelas, vamos deslizar.

Sinto a angústia dos olhos correndo de cá para lá,
perdidos na tela desse mar azul
em hipnose coletiva.

Dedos inquietos a rolar
um novelo sem fim.

Vida em cena.
Projeções em telas
que nos enquadram em proporções matemáticas,
em cenas que se querem mostrar.

Tenho um perfil, logo existo.
Mas como fica o que não consigo editar?

Dessa terra de ninguém
ou dessa terra de ninguéns?

terça-feira, dezembro 30, 2025

Barqueiro

A vida trouxe à margem um barqueiro ambivalente, que oscila sobre a superfície do mistério das águas. Ele atravessa, em seu pequeno barco de madeira, um conteúdo oculto gestado no fundo de águas profundas.

Não saberia dizer quantas vezes sua embarcação naufragou, pela má distribuição de pesos que não eram seus sobre o assoalho já desgastado, cansado de acompanhar outros barcos tão perdidos quanto ele.

Por anos à deriva, preso a um vai e vem infinito de fantasias, delírios coletivos de remar sem direção, sua força esvaiu-se a serviço de passageiros desorientados.

Seus olhos tornaram-se opacos, cobertos por uma fina membrana leitosa que lhe velava a visão e distorcia as paisagens. O cenário permanecia sempre enevoado e, enjoado, ele cessou de remar e parou no cruzamento:

Olhos que se fecham para não ver
e olhos que se fecham para ampliar os sentidos.

À distância, o cheiro de lenha no fogo, o som cadenciado do trepidar, os estalos suaves da madeira que se expande no calor, enegrecida, incandescente, chamaram-lhe a atenção.
O fogo que ilumina não consome.

Dançam as chamas que se aderem à madeira, a mesma matéria que sustenta o assoalho de seu barco e as árvores que dão vida às margens fluviais. Dos olhos, uma nascente. Deles, o brilho amarelo do fogo: verdade que se revela.

A mente sopra ao coração:
Não posso mais te proteger daquilo que você já sabe.

Ao despertar deste sonho, seu corpo precisará se acostumar à materialidade das coisas.
Ele não abandona o barco, mas redistribui o peso, equilibrado a partir do centro.

segunda-feira, dezembro 29, 2025

Nuvens passageiras

Sento-me ao lado da tristeza, do medo e da mágoa e faço um minuto de silêncio pelo que jaz eterno na existência. Tudo isso são apenas nuvens que passam no meu céu; eu as vejo, há muito as interpretei e agora só as deixo passar pelo meu campo de visão. Caso um dia precise chorar, deixo-as chorar.

Estou aqui, mas isso não me define.

domingo, dezembro 28, 2025

Chão da Vida

Quando criança, eu gostava de me deitar no chão para olhar para o céu e ver as nuvens passarem. No começo, elas simplesmente passavam e nada se passava em minha cabeça. Eu e as nuvens éramos como éramos. Nada havia entre nós: nenhuma questão, reflexão, busca ou significado.

Tudo se resumia ao meu corpo e aos sentidos que o localizavam no tempo e no espaço do meu mundo. Ele era meus olhos, minhas mãos, meu nariz, meus ouvidos e minha língua, envolvidos em pura presença.

Certo dia, eu e meu primo decidimos dar nome às formas que víamos refletidas nas nuvens. Apontávamos cavalos, elefantes, macacos, martelos, rostos, carros, dando sentido e resposta ao que não pedia resposta. Mais tarde, passamos a nos questionar sobre as nuvens no céu: como se formavam, como se precipitavam em chuva, o porquê de suas cores variadas.

Nossas mentes voaram longe com as nuvens que almejávamos decifrar. Os pensamentos eram pipas dançando no vento, pedindo linha e mais linha, subindo cada vez mais alto.

Alcei voos tão altos que quase não conseguia mais descer das alturas de onde falam os símbolos e as buscas. Meu corpo permanecia deitado no chão, enquanto minha mente subia ao céu em direção ao espaço sideral.

Estrelas, astros e corpos celestes me convocaram acima do solo onde jaziam meus semelhantes, tripulantes desta nave Terra. Minha nave orbitou espaços distantes, mundos estrangeiros, mistérios insondáveis, enquanto meu corpo permanecia em terra, esperando o pouso.

Esperei até que se esgotassem os limites do explorável. Deixei minha mente voar até encontrar os sentidos que a fizessem retornar para casa. Quando voltei, senti-me deslocada, como alguém que, após longa ausência, experimenta o desnorteio do pouso: os pés inseguros, como se tivessem esquecido a sensação do corpo no chão.

Assim se desenhou a trajetória de uma nave, de um navio que navegou o coletivo de todas as coisas alienígenas e nativas que nos situam na humanidade e para além dela. Voltar ao estado de origem revelou-se também uma jornada distante para dentro de mim.

A mente escapou, mas agora quer voltar. E o corpo, tudo o que ele pede é presença. Depois de ver o céu, a vida pede chão.

O mundo está para mim assim como eu estou para o mundo.

sábado, dezembro 27, 2025

Gato Limiar

Toca baixinho o som do amanhecer,
calando os ruídos que pedem resposta.
A aura do que me chama
estanca o movimento frenético da mente.

Essa presença,
ancorada no tempo de agora,
está sentada diante do portão.

Não entra.
Não parte.

Um grande gato preto,
cuja postura recolhe em si
toda a minha atenção.

Eu o olho, surpresa — reconheço.
Ele olha.

Mantém calmos
os olhos que atravessam meu horizonte.
Permanece.

Aguarda na borda do que sou:
inteira, silenciosa, atenta.
Faro encarnado.

É-me familiar
seu olhar noturno, instintivo.
Há algo em mim
que sabe olhar

sem se perder. 

sexta-feira, dezembro 26, 2025

Compasso interior

Carrego em mim tudo aquilo que prezo:
o equilíbrio da caneta nas mãos
que compõem o canto
e o arranjo de suave vibração
expresso em palavras e orações.

Minhas orações não são mantras entoados,
mas sutra na pele.

Não rezo para algo que mora lá fora;
rezo sendo tocada por Ele.

Me ofereço como instrumento no qual vibram
as notas de um acorde maior,
sou corpo afinado
para que o som aconteça.

Desafino, saio do tom,
escorrego nas notas;
respiro nas pausas,
realizo intervalos.

Confio na música que toca por dentro.

Mas há momentos em que o mundo
está desafinado demais
para entrar no compasso.

Respeite o tom.

Quando a luz mergulha na terra,
a música não para.
Ela pede lugar.

Sigo a tocar
sou melodia.

Minhas sensações
são canções de diversos estilos.
Minha vida é partitura
de um fluxo sonoro
que reverbera.

quinta-feira, dezembro 25, 2025

O Cristo que me habita

Cristo foi equivocadamente tomado como o arquétipo do cordeiro sacrificado pela salvação da humanidade, mas ele não nos ensinou a nos sacrificar. Ele nos desperta para o nosso poder, para a responsabilidade sobre nós mesmos, sobre o amor que brota do nosso centro e, através dele, pode irradiar e contagiar o mundo. Cristo nos ensinou a autonomia e essa foi sua maior prova de amor.

Se for preciso que eu carregue o peso de uma cruz, que seja o peso das minhas escolhas, o peso que me forma e me define, não o de sacrifícios impostos.

Meus pés estão feridos, cravados em espinhos e pregos de um caminho em que me apressei, saltando adiante sem perceber o que realmente importa. Ainda assim, eles me sustentam, me ancoram, me lembram que posso caminhar.

Minhas mãos guardam as cicatrizes das reações impulsivas, mas ainda conservam a força da criação, daquilo que constrói e transforma.

Esse é o Cristo que me habita, não aquele que salva, mas aquele que ilumina o caminho, mostrando a trilha que conduz à verdadeira salvação, aquela que nasce de dentro, da escolha consciente e do amor que cultivamos.