domingo, dezembro 28, 2025

Chão da Vida

Quando criança, eu gostava de me deitar no chão para olhar para o céu e ver as nuvens passarem. No começo, elas simplesmente passavam e nada se passava em minha cabeça. Eu e as nuvens éramos como éramos. Nada havia entre nós: nenhuma questão, reflexão, busca ou significado.

Tudo se resumia ao meu corpo e aos sentidos que o localizavam no tempo e no espaço do meu mundo. Ele era meus olhos, minhas mãos, meu nariz, meus ouvidos e minha língua, envolvidos em pura presença.

Certo dia, eu e meu primo decidimos dar nome às formas que víamos refletidas nas nuvens. Apontávamos cavalos, elefantes, macacos, martelos, rostos, carros, dando sentido e resposta ao que não pedia resposta. Mais tarde, passamos a nos questionar sobre as nuvens no céu: como se formavam, como se precipitavam em chuva, o porquê de suas cores variadas.

Nossas mentes voaram longe com as nuvens que almejávamos decifrar. Os pensamentos eram pipas dançando no vento, pedindo linha e mais linha, subindo cada vez mais alto.

Alcei voos tão altos que quase não conseguia mais descer das alturas de onde falam os símbolos e as buscas. Meu corpo permanecia deitado no chão, enquanto minha mente subia ao céu em direção ao espaço sideral.

Estrelas, astros e corpos celestes me convocaram acima do solo onde jaziam meus semelhantes, tripulantes desta nave Terra. Minha nave orbitou espaços distantes, mundos estrangeiros, mistérios insondáveis, enquanto meu corpo permanecia em terra, esperando o pouso.

Esperei até que se esgotassem os limites do explorável. Deixei minha mente voar até encontrar os sentidos que a fizessem retornar para casa. Quando voltei, senti-me deslocada, como alguém que, após longa ausência, experimenta o desnorteio do pouso: os pés inseguros, como se tivessem esquecido a sensação do corpo no chão.

Assim se desenhou a trajetória de uma nave, de um navio que navegou o coletivo de todas as coisas alienígenas e nativas que nos situam na humanidade e para além dela. Voltar ao estado de origem revelou-se também uma jornada distante para dentro de mim.

A mente escapou, mas agora quer voltar. E o corpo, tudo o que ele pede é presença. Depois de ver o céu, a vida pede chão.

O mundo está para mim assim como eu estou para o mundo.

sábado, dezembro 27, 2025

Gato Limiar

Toca baixinho o som do amanhecer,
calando os ruídos que pedem resposta.
A aura do que me chama
estanca o movimento frenético da mente.

Essa presença,
ancorada no tempo de agora,
está sentada diante do portão.

Não entra.
Não parte.

Um grande gato preto,
cuja postura recolhe em si
toda a minha atenção.

Eu o olho, surpresa — reconheço.
Ele olha.

Mantém calmos
os olhos que atravessam meu horizonte.
Permanece.

Aguarda na borda do que sou:
inteira, silenciosa, atenta.
Faro encarnado.

É-me familiar
seu olhar noturno, instintivo.
Há algo em mim
que sabe olhar

sem se perder. 

sexta-feira, dezembro 26, 2025

Compasso interior

Carrego em mim tudo aquilo que prezo:
o equilíbrio da caneta nas mãos
que compõem o canto
e o arranjo de suave vibração
expresso em palavras e orações.

Minhas orações não são mantras entoados,
mas sutra na pele.

Não rezo para algo que mora lá fora;
rezo sendo tocada por Ele.

Me ofereço como instrumento no qual vibram
as notas de um acorde maior,
sou corpo afinado
para que o som aconteça.

Desafino, saio do tom,
escorrego nas notas;
respiro nas pausas,
realizo intervalos.

Confio na música que toca por dentro.

Mas há momentos em que o mundo
está desafinado demais
para entrar no compasso.

Respeite o tom.

Quando a luz mergulha na terra,
a música não para.
Ela pede lugar.

Sigo a tocar
sou melodia.

Minhas sensações
são canções de diversos estilos.
Minha vida é partitura
de um fluxo sonoro
que reverbera.

quinta-feira, dezembro 25, 2025

O Cristo que me habita

Cristo foi equivocadamente tomado como o arquétipo do cordeiro sacrificado pela salvação da humanidade, mas ele não nos ensinou a nos sacrificar. Ele nos desperta para o nosso poder, para a responsabilidade sobre nós mesmos, sobre o amor que brota do nosso centro e, através dele, pode irradiar e contagiar o mundo. Cristo nos ensinou a autonomia e essa foi sua maior prova de amor.

Se for preciso que eu carregue o peso de uma cruz, que seja o peso das minhas escolhas, o peso que me forma e me define, não o de sacrifícios impostos.

Meus pés estão feridos, cravados em espinhos e pregos de um caminho em que me apressei, saltando adiante sem perceber o que realmente importa. Ainda assim, eles me sustentam, me ancoram, me lembram que posso caminhar.

Minhas mãos guardam as cicatrizes das reações impulsivas, mas ainda conservam a força da criação, daquilo que constrói e transforma.

Esse é o Cristo que me habita, não aquele que salva, mas aquele que ilumina o caminho, mostrando a trilha que conduz à verdadeira salvação, aquela que nasce de dentro, da escolha consciente e do amor que cultivamos.

quarta-feira, dezembro 24, 2025

Palitos Gina

Palitos são o que há de mais essencial em celebrações.

Num único eixo,
tomates, queijos, azeitonas, presuntos
se encontram.

Diferenças atravessadas
por um gesto simples.

O que era disperso se alinha.
O excesso se organiza.
O caos ganha forma
e se oferece ao paladar.

Pequenos, quase invisíveis,
sustentam encontros.
Unem sabores que jamais se tocariam
sem esse fio mínimo.

Vieram do banal.
Da higiene bucal.
Do gesto rápido,
da correção do incômodo.

E sem alarde,
se transformaram.

Hoje habitam mesas,
marcam presenças,
ocupam o tempo da descontração
em que ninguém tem pressa.

Nada permanece fixo.
Tudo se desloca.
Do uso ao símbolo,
do descartável ao essencial.

terça-feira, dezembro 23, 2025

Manifesto íntimo do olhar

Antes, o gesto acontecia
dissociado do sentido.

Agora, ele se sabe
como um olho que desperta e se vê.

O involuntário se compreende
e se reconhece, sem precisar se explicar.

Embarco novamente em minha nave,
máquina do tempo.
Viajo para o passado,
não para reparar,
consertar
ou salvar,
mas para não mentir sobre o que existiu.

Todas as coisas têm história.

Gosto de ver o que silencia,
vislumbrar o que jazia oculto.
O comum me é peculiar
pelas nuances que não notamos.

Quando a invisibilidade se revela,
sinto a mágica diante dos meus olhos:
ver aquilo que quase ninguém viu,
transmutar o ordinário,
o desprezado,
em algo único e especial
soa-me como um poder alquímico que poucos têm —
revelar a beleza do invisível.

É de delicadeza rara
o encanto por tais coisas a me embalar,
a me deixar abraçar pelo anonimato
que exala presença
genuína e rara de se encontrar.

A sutileza autêntica me detém.
Quem não disputa o olhar
é quem me convoca.

Me atrai o despercebido.

Gosto de olhar para aquilo
que não espera ser visto,
imaginando-me uma descobridora
de terras inexploradas,
garimpeira de tesouros
sob o chão que todos pisam.

Vestir-me do olhar absoluto,
registrar a realidade das coisas,
me empolga:
atravessar o imperceptível,
erguer o véu
do que sempre esteve lá.

Notar a gradação discreta do entorno,
surpreender-me com o de sempre:
o perfume suave
que se insinua no ar,
constante e fugidio.

Tudo isso me banha em calma e sossego,
num suspiro de alívio
frente ao peso das urgências e imposições.

Agrada-me a fala mansa
do que tem presença:
essa cor transparente
que se deixa atravessar.

segunda-feira, dezembro 22, 2025

Inanimado

Faz-me rir, gargalhar
e mesmo estranhar
essa minha mania
de animar o inanimado.

Dar vida ao que não tem vida,
como sujeito a dar voz ao objeto.

Afinal,
aquilo que é
também existe.

O caráter impessoal me é pessoal,
porque ofereço destino
à matéria das coisas.

Coisas à margem do olhar,
objetos multiplicados
que desaparecem no excesso.

Não é curioso
tropeçar na invisibilidade
que está à vista,
mas fora do pensamento?

Costuro partes
numa paisagem das coisas
só para dizê-las vivas
no esquecimento.