quinta-feira, dezembro 25, 2025

O Cristo que me habita

Cristo foi equivocadamente tomado como o arquétipo do cordeiro sacrificado pela salvação da humanidade, mas ele não nos ensinou a nos sacrificar. Ele nos desperta para o nosso poder, para a responsabilidade sobre nós mesmos, sobre o amor que brota do nosso centro e, através dele, pode irradiar e contagiar o mundo. Cristo nos ensinou a autonomia e essa foi sua maior prova de amor.

Se for preciso que eu carregue o peso de uma cruz, que seja o peso das minhas escolhas, o peso que me forma e me define, não o de sacrifícios impostos.

Meus pés estão feridos, cravados em espinhos e pregos de um caminho em que me apressei, saltando adiante sem perceber o que realmente importa. Ainda assim, eles me sustentam, me ancoram, me lembram que posso caminhar.

Minhas mãos guardam as cicatrizes das reações impulsivas, mas ainda conservam a força da criação, daquilo que constrói e transforma.

Esse é o Cristo que me habita, não aquele que salva, mas aquele que ilumina o caminho, mostrando a trilha que conduz à verdadeira salvação, aquela que nasce de dentro, da escolha consciente e do amor que cultivamos.

quarta-feira, dezembro 24, 2025

Palitos Gina

Palitos são o que há de mais essencial em celebrações.

Num único eixo,
tomates, queijos, azeitonas, presuntos
se encontram.

Diferenças atravessadas
por um gesto simples.

O que era disperso se alinha.
O excesso se organiza.
O caos ganha forma
e se oferece ao paladar.

Pequenos, quase invisíveis,
sustentam encontros.
Unem sabores que jamais se tocariam
sem esse fio mínimo.

Vieram do banal.
Da higiene bucal.
Do gesto rápido,
da correção do incômodo.

E sem alarde,
se transformaram.

Hoje habitam mesas,
marcam presenças,
ocupam o tempo da descontração
em que ninguém tem pressa.

Nada permanece fixo.
Tudo se desloca.
Do uso ao símbolo,
do descartável ao essencial.

terça-feira, dezembro 23, 2025

Manifesto íntimo do olhar

Antes, o gesto acontecia
dissociado do sentido.

Agora, ele se sabe
como um olho que desperta e se vê.

O involuntário se compreende
e se reconhece, sem precisar se explicar.

Embarco novamente em minha nave,
máquina do tempo.
Viajo para o passado,
não para reparar,
consertar
ou salvar,
mas para não mentir sobre o que existiu.

Todas as coisas têm história.

Gosto de ver o que silencia,
vislumbrar o que jazia oculto.
O comum me é peculiar
pelas nuances que não notamos.

Quando a invisibilidade se revela,
sinto a mágica diante dos meus olhos:
ver aquilo que quase ninguém viu,
transmutar o ordinário,
o desprezado,
em algo único e especial
soa-me como um poder alquímico que poucos têm —
revelar a beleza do invisível.

É de delicadeza rara
o encanto por tais coisas a me embalar,
a me deixar abraçar pelo anonimato
que exala presença
genuína e rara de se encontrar.

A sutileza autêntica me detém.
Quem não disputa o olhar
é quem me convoca.

Me atrai o despercebido.

Gosto de olhar para aquilo
que não espera ser visto,
imaginando-me uma descobridora
de terras inexploradas,
garimpeira de tesouros
sob o chão que todos pisam.

Vestir-me do olhar absoluto,
registrar a realidade das coisas,
me empolga:
atravessar o imperceptível,
erguer o véu
do que sempre esteve lá.

Notar a gradação discreta do entorno,
surpreender-me com o de sempre:
o perfume suave
que se insinua no ar,
constante e fugidio.

Tudo isso me banha em calma e sossego,
num suspiro de alívio
frente ao peso das urgências e imposições.

Agrada-me a fala mansa
do que tem presença:
essa cor transparente
que se deixa atravessar.

segunda-feira, dezembro 22, 2025

Inanimado

Faz-me rir, gargalhar
e mesmo estranhar
essa minha mania
de animar o inanimado.

Dar vida ao que não tem vida,
como sujeito a dar voz ao objeto.

Afinal,
aquilo que é
também existe.

O caráter impessoal me é pessoal,
porque ofereço destino
à matéria das coisas.

Coisas à margem do olhar,
objetos multiplicados
que desaparecem no excesso.

Não é curioso
tropeçar na invisibilidade
que está à vista,
mas fora do pensamento?

Costuro partes
numa paisagem das coisas
só para dizê-las vivas
no esquecimento.

domingo, dezembro 21, 2025

Cronos

Vejo um bando torpe em movimento constante
que não sai do lugar,
girando feito peões sobre si,
eternamente, sem cessar.

Meus olhos se cansam de olhar
e ver como agonizam em órbita errada;
eu, que os vejo, me vejo
como num espelho a me assustar,
presa ao mesmo campo gravitacional.

O efeito implacável do tempo,
a repetir-se,
nos enfraquece e nos desgasta
feito metal corroído,
a ranger, estalar,
no tom cinza da vida.

Cronos, entidade incorpórea:
sem que percebesse, deixei-o
me abraçar pelas costas;
hoje sou eu quem vai a ele de encontro
e o abraça de frente.

Seu zunido, correndo pelos trilhos,
num grito agudo estampido nos ouvidos,
parecia querer me esmagar.
Deixo-o se achegar.

Dentro do cenário,
ver não é o bastante:
é preciso deixá-lo atravessar-me,
feito espada a me cravar no peito
sua lâmina afiada.

Isso é se expressar.

Corra — pode correr —
o sangue da vida,
até que se esgote o último fio,
restando o eco
que reverbera a imensidão
da finitude deitada sobre mim.

Irei testemunhar tudo isso
sem nada esperar ou pedir.
Ofereço apenas minha voz,
encarnada nestas duras palavras
que constatam
e registram
seu existir.

sábado, dezembro 20, 2025

Caminhe até Ele

A maior conexão com Deus, ou com a ideia do transcendente, não se dá confiando em uma ajuda externa superior, mas contando consigo mesmo. Sustentar-se é aproximar-se. Quando se espera, se distancia.

Para isso é preciso crescer, deixar a infância, soltar o papel da criança que aguarda pelo pai, chorando por salvação. Não espere que Ele venha; caminhe até Ele.

O transcendente não é alcançado pela dependência, mas pela autonomia. Isso não nos enfraquece; nos fortalece.

Experimente não implorar que Ele realize seus desejos, mas adquirir força para atingir o que for possível e desenvolver discernimento para enxergar o melhor caminho. O maior presente não é aquele que se ganha, mas a presença que se mantém no presente. 

sexta-feira, dezembro 19, 2025

Suspensão

Ao fim da tarde, uma sensação de cansaço repentino pousou sobre mim. Não era desânimo, tristeza ou desesperança, nada que pudesse ser nomeado ou diagnosticado.

O rosto miúdo, pousado sobre as mãos em concha em busca de sossego, reflete uma exaustão interna de tudo o que se foi e agora retorna lentamente para dentro.

O efeito anestésico cessou. Restou um reconhecimento ainda confuso entre vislumbre e desorientação, como um braço que acorda formigando, incapaz de se mover. Fico à soleira, pés ainda descalços, reconhecendo o chão antes de atravessar.

Nem tudo o que vejo precisa ser dito; às vezes, só preciso repousar. Sustentar a percepção num corpo sem chão, avançando sobre um novo espaço.

Suspensão: após espalhar fragmentos meus porta afora, como um espirro do espírito a expulsar algo que irrita as vias do respiro, partes minhas que considerei ameaça agora batem à porta, querendo retornar à casa.

Muitos deles calei, tapei-lhes a boca num impulso de medo do que poderiam dizer. Outros feri ao fingir que não existiam. Quebrei-os, caminhei sobre seus cacos, feri os pés. Juntos sangramos, como se a indiferença não deixasse cicatrizes.

Eu, que também existo, desejo ouvir, dialogar, receber, reconhecê-los como parentes distantes que retornam após longa ausência, trazendo histórias e aventuras remotas, incendiando-me o coração com curiosidades diversas.